«Obra-prima de astúcia prática e conservadora!»

Para ouvir mais, clique a seguir: REGISTOS SONOROS

«Os índios aldeados pelos missionários… falam o seu portugês, mas não deixam que as mulheres das tabas o aprendam. Obra-prima de astúcia prática e conservadora! Elas representam o penhor da comunidade de sangue fechada e imune ao estrangeiro.» Vitorino Nemésio, «O Segredo dos Índios», Caatinga e Terra Caída, 1968

Leitura de excertos de Vitorino Nemésio, «O Segredo dos Índios», Caatinga e Terra Caída, com fundo musical de Tilopa, Out of the Blue:

Différentes formes de huttes des sauvages bréziliens [brésiliens]. (1834-1839)

J. B. Debret, Diferentes formas de choças dos selvagens do Brasil, (1834-1839),

Capri (a do Tirreno)

O artigo que se segue é parcial. Se quiser lê-lo na totalidade,

ou ler outros textos,

CLIQUE A SEGUIR EM ROTAS.

O lótus, uma planta da família das Nymphaeaceae, dá uma flor venerada no Bramanismo; e até Brama, a primeira divindade, provém da flor do lótus. A sua beleza – com a qual a feminina é muitas vezes comparada – e aroma embriagante contribuíram por certo para criar essa imagem mística e sagrada. Na China, havia o costume de enfaixar os pés para os tornar o mais pequenos possível, dando-se-lhes o nome de «pés de lótus dourado».

Nelumbo nucifera

Nelumbo nucifera

Na Odisseia, Ulisses, na sua viagem de regresso a Ítaca, aportou ao país dos Lotófagos, sendo-nos dito, a determinado trecho, que: «And whosoever of them ate of the honey-sweet fruit of the lotus, had no longer any wish to bring back word or to return, but there they were fain to abide among the Lotus-eaters, feeding on the lotus, and forgetful of their homeward way.»

Esse estado de languidez, de ensimesmamento…

«Carrefours»

Continuarei, por uns tempos, a explorar outras vertentes que por agora me interessam e dão prazer. São elas:

Registos Sonoros

e

ROTAS

No momento azado, se momento azado houver, talvez volte noutros registos.

Amor / Ódio

«No entanto, desde há algum tempo que entre a palavra Amor e um dos seus inimigos, que a priori pareceria o mais irredutível, se produzem algumas acomodações. Tomemos a palavra Ódio, que possui as mesmas poderosas e formidáveis qualidades da palavra Amor, igual a ela em força e pureza; em vez de entrar numa luta sem tréguas com ela, aceita a coexistência, aceita ser reconhecida oficialmente e dotada de um nome: o Amor-Ódio que reúne indissoluvelmente os irmãos inimigos.

Mas às vezes acontece, tão obstinada é a sua vitalidade, que sob todos os edifícios que a palavra Amor erigiu, sob os palácios sumptuosos, os museus, as velhas e deterioradas residências, em parte abandonadas, as prisões, os asilos de alienados, os lares, os modestos pavilhões, os soberbos arranha-céus… que através de todo este mármore, este cimento, este vidro e este betão, de súbito, como que num mundo ainda intacto e inocente, algo de quase imperceptível, vindo não se sabe de onde, se solta, e, não encontrando lugar em parte alguma, pois nenhuma palavra existe para o acolher, vacila.» in L’Usage de la parole (1980), Nathalie Sarraute

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

«Ars moriendi» vs. Eu amo-te, tu amas-me

Li há não muito tempo Anthropologie de la mort, de Louis Vincent Thomas. E ilustrando-nos algo o exemplo de Kübler-Ross (sobre quem se pode ler, p.e., esta boa dissertação: Kübler-Ross, A necessidade de uma educação para a morte, de João Carlos Gama Macedo), conhecendo-se as apetências (para ser doce!) dos conglomerados farmacêuticos,   tendo-se lido algo sobre a  história da Medicina (uma boa obra de iniciação é, por exemplo, Medicina, A História da Cura, Roy Porter), deitando a vista ao que se passa em torno de nós, indo aos hospitais, e ficamo-nos por aqui,  percebe-se cada vez melhor o Ocidente e os seus esquemas civilizacionais.

Há aqui uma profunda mentira com o dito último tabu supremo ocidental que nos falta quebrar: a Morte (mas também poderia falar do Sexo, olarilas!).
Juan Munoz, Wasteland

Juan Munoz, Wasteland

Comparemo-la, à civilização ocidental, com a negro-africana: de acumulação de bens, a primeira, de acumulação de homens, a segunda; rica em objectos e técnicas / rica em sinais e símbolos; de rentabilidade, desperdício, consumo, troca / de subsistência, penúria, primado do valor do uso; homem produto, mercadoria / homem altamente socializado; mata ou deixa morrer / promoção da vida sob todas as formas; atitude muito equívoca relativamente ao corpo / ritmo como linguagem do corpo; angústia recalcada / aceitação e transcendência; psicose / deslocação, neurose como caso-limite; morre-se sozinho / maternização e securização por parte do grupo; morte obsessiva ou rejeitada / omnipresença dos mortos, prestígio dos antepassados; Morte Ideal: «Bela Morte» / Morte Ideal: «Boa Morte».

philippe-mayaux-menteurs

Philippe Mayaux, Menteurs

Les femmes (L’homme que…)

Blues / Acústico / Bluegrass

NOBODY’S BIZNESS

Petra

Petra

Petra ( Vocals ) / Luis Ferreira ( Guitars ) / Catman ( Vocals & Harmonica & Piano ) / Pedro Ferreira ( Guitars & Back Voices ) / Luís Oliveira ( Bass & Back Vocals ) / Isaac Achega ( Drums & Percussion)

Quem tem capa sempre escapa?

Daniel Gil foi um verdadeiro Mestre como desenhador gráfico. Esta página no Flickr ilustra-o na perfeição:

Daniel Gil
Daniel Gil, capas

«En ce temps-là, Jésus ressuscita et descendit pour la quatrième fois sur la terre.»

En ce temps-là, Jésus ressuscita et descendit pour la quatrième fois sur la terre.

La Municipalité chargea le préfet et les C.R.S, d’assurer sa protection ainsi que celle des ecclésiastiques de service. La presse publia des photos de couleur, avec légendes en latin, faute d’interview qu’il avait refusés tandis que lui, immuable et digne, poursuivant la ligne politique qu’il avait toujours tenue durant ses vies précédentes, distribuait, sourires d’un oeil, larmes de l’autre, des crottes de chocolat aux «traine-patins» venus lui rendre hommage.
Lorsqu’il eût épuisé ses provisions de friandises, Christ, prenant là parole, pour la première fois depuis des millénaires, dit en une langue qu’aucun ne comprit excepté les douze apôtres, prosternés alentour, face au sol :

« Ça va mal ici-bas, très mal… Relevez-vous, pâles artisans de la grande trahison et marchez à la rencontre du treizième apôtre. »

Depuis, cet instant, personne n’entendit plus parler de lui, le bruit courut sur la pointe des pieds, qu’il avait été emprisonné, d’autres soutiennent qu’il s’est retiré. Qui sait?

Toujours est-il…

Nagel Stern

Gustaf Nagel

Intimité du Christ

Jésus se fait deux oeufs sur le plat. Il n’est pas coiffé, pas rasé, pieds nus il a laissé sa croix dans un coin. Aussitôt qu’il a un moment, il dessine des enfants, des enfants, des enfants. Parfois, il lit les journaux et hausse les épaules. Ce que l’on colporte sur son compte l’irrite, accentue sa fièvre.

Jésus répare sa bicyclette, il doit aller livrer du poisson, il y a une éternité qu’il n’a pas eu le temps de téléphoner à sa mère. La dernière fois qu’il l’a vue, c’était au Golgotha, peu avant son décès. Il a des fins de siècles difficiles.

Gardien des eaux et des forêts de l’âme, il va, il va, opiniâtre, friand d’innocence. Les pauvres le rassemblent, il a toujours un visage pour les vaincus. Il évite les cathédrales comme la peste, il fait un grand détour à cause d’un rendez-vous qu’il a dans les yeux d’un aveugle. Tout à l’heure il se fondra à nouveau dans la foule, puis, après avoir escorté des révolutionnaires qui se déplacent nuitamment, par prudence, il recommencera à dessiner des enfants, des enfants si petits qu’il faut une loupe ou un coeur de mère pour les voir.

Je le salue distraitement, car il n’apprécie guère les démonstrations, car il doute, car il est mon ami. Je prends congé, je me rejoins dans ma vie si provisoire, si bâclée, si chaotique, que je n’y aurai pris, à vrai dire, qu’un intérêt limité.

Jean-Pierre Rosnay

Resposta críptica (s/o real e o acto falhado que só o imaginativo pode tentar completar)

George Wright – THE CHARLESTON  [1920's Silent Movie Wurlitzer organ]

Ficcionara aqui a minha relação com o órgão, tal como o fazia  George Wright (e os que se lhe seguiram até hoje), músico americano, de que se diz ter sido um virtuoso do órgão de cinema, um instrumento da família dos órgãos de tubos que se usavam no teatro e no cinema mudo, mas também na dança,

Charleston

Charleston

na canção e para a música ambiente. É que nada tendo o instrumento de electrónico e, portanto, de automático, o organista tinha de fazer de homem-orquestra (e esse parece ter sido o objectivo inicial, imitar uma orquestra), isto é, de fazer tudo com as mãos e os pés.

Órgão Wurlitzer (Museu dos Instrumentos de Música de Berlim)

Órgão Wurlitzer (Museu dos Instrumentos de Música de Berlim)

Far-me-ei entender? Não creio, mas fica o atrevimento.

«Un homme de têtes»

The banality of life

Kieslowski

Apparato com que as ilustres damas tirarão o Eucharistico Manna da Ley da Graça Blogosférica…

… Epílogo de maravilhas, saboroso sustento de Angelicos Espíritos e se manducarão com este pobre Cristo não sacramentado…

Relação de Procissaõ e Passo:

Uma dama

e

Outra dama

e eu, pudibundo, expresso daqui um deo gratias:

10 de Junho de 2009 – História Trágico-[Marítima]…

«E aqui estamos há séculos de pés e mãos atadas, embarcando, partindo para fora de nós mesmos no barco da loucura, um povo sem força nem vontade, apenas embarcando.» Teolinda Gersão, Paisagem com mulher e mar ao fundo

Carlos Calvet, No Cacilheiro, 1970

Carlos Calvet, No Cacilheiro, 1970

Príncipe-Mendigo, por Mares Portugueses…

Artur Varela, fotograma de «As Maravilhas da Natureza - Animais Nossos Amigos: o Burro»

Artur Varela, fotograma de «As Maravilhas da Natureza - Animais Nossos Amigos: o Burro», 1973-74

São as mamas da… mas também podia ser… p. e., uma das medalhas atribuídas no dia de Camões…

São as mamas da..., colagem de Carlos Sousa de Almeida

São as mamas da..., colagem de Carlos Sousa de Almeida

Das infidelidades (traições?): «nebel» = saltério = harpa

4. Prolúdio

«Sôbolos rios que vão…»

«… as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.»

Standard de Ur (pormenor), 2650 a 2400 a.C.

Standard de Ur (pormenor), 2650 a 2400 a.C.

Grosso modo, isto é válido para o português (não coincidindo, evidentemente, com as versões portuguesas): «En la mayor parte de los casos donde aparece la palabra “arpa” en el AT, los traductores modernos no han comprendido bien los vocablos hebreos y arameos. El arpa de la antigüedad no ha recibido en las traducciones de la Biblia su debido nombre. [...] En primer lugar, nébel (que aparece 38 veces en el AT) significa “odre”, pero en 27 casos es el nombre de un instrumento musical. La RVR traduce ese vocablo 23 veces como “salterio”¹ (1 Samuel 10: 5; 2 Samuel 6: 5; 1 Reyes 10: 12; 1 Crónicas 13: 8; 15: 16; 15: 20; 15: 28; 16: 5; 25: 1; 25: 6; 2 Crónicas 5: 12; 9: 11; 20: 28; 29: 25; Nehemías 12: 27; Salmos 33: 2; 57: 8; 71: 22; 81: 2; 92:3; 108: 2; 144: 9; 150:3), y las restantes como “vihuela” (Isaías 5: 12), “arpa” (Isaías 14: 11), “instrumento” (Amós 5: 23) y “flauta” (Amós 6: 5).», Daniel Alejandro Flores. O restante pode ser lido aqui.

Pequena consulta:

1 – «Harp and Lyre», in Jewish Encyclopedia

2 – Instrumental Music in Worship

3 - Byble and History

4 – The Music Of The Sumerians (1937), Francis W. Galpin

5 – Myths of Babylonia and Assyria, Donald A. Mackenzie

6 – «Harpist From Ur», L.O. Adams, in Zwoje – The Scrolls (Sweden), online, 35 (June 2003)

Grande lira, Suméria, 2750 a.C.

Grande lira, Suméria, 2750 a.C.

Obs.: Deixai de querer «brincar aos dicionaristas-lexicógrafos («It is the fate of those who toil at the lower employments of life, to be rather driven by the fear of evil, than attracted by the prospect of good; to be exposed to censure, without hope of praise; to be disgraced by miscarriage, or punished for neglect, where success would have been without applause, and diligence without reward.

Among these unhappy mortals is the writer of dictionaries; whom mankind have considered, not as the pupil, but the slave of science, the pionier of literature, doomed only to remove rubbish and clear obstructions from the paths through which Learning and Genius press forward to conquest and glory, without bestowing a smile on the humble drudge that facilitates their progress. Every other authour may aspire to praise; the lexicographer can only hope to escape reproach, and even this negative recompense has been yet granted to very few.»

e aos tradutores et caetera (não confundir, entretanto, com as bolachas espanholas),  senhores!

Eu dou uma ajuda, pequena, que tudo isto custa muito tempo e investimento e dinheiro, e cito da única coisa válida que conheço em português, Henrique de Oliveira Marques, Dicionário de Termos Musicais (Inglês, Francês, Italiano, Alemão, Português):

«Cítara, Kithar, etc. – 1. (vertical) Instrumento muito antigo de cordas picadas, derivado da Lira grega, que deu origem a outros tipos de instrumentos parecidos como por ex. a Harpa e o Saltério. 2. (horizontal) Versão relativamente moderna muito usada na Europa Central em diversas variedades. Tem um grande número de cordas esticadas sobre uma caixa de madeira além de algumas cordas de melodia sobre um ponto com tastos. O instrumento é tocado horizontalmente sobre uma mesa ou nos joelhos. [...]
Dulcimer - Instrumento de caixa horizontal, mais ou menos rectangular, de cordas percutidas com baquetas de madeira. (O Timpanão é um tipo de Dulcimer).
Saltério – Instrumento antigo semelhante ao Dulcimer mas quase sempre de cordas picadas e de forma trapezoidal.
Zimbalão – Variedade húngara do Dulcimer

Das infidelidades (traições?): «nebel» = saltério = harpa

3.

«In English-speaking countries, dulcimer (or dowcemere, dulcimor, dulcimur, doucemelle, doulcemelle, dolcimela, or dolcema, all from dulce melos, Greek for sweet sound) was the name given to the type of psaltery or box zither which had a trapizoidal soundbox and which was played by striking the strings with hammers. » Musica Antiqua Instruments

«Dulcimer, s. saltério, xilofoneDicionário de Inglês-Português, por Armando de Morais, Porto Editora

«Dulcimer s. (mús. ant.) saltério, cítaraDicionário Inglês-Português, Antônio Houaiss

«Cítara, s.f. (do lat. cithara-) [...] Espécie de saltério, com trinta a trinta e nove cordas.» Grande Dicionário da Língua Portuguesa, org. José Pedro Machado

O Concerto, Tapeçaria, Museu Cluny

O Concerto, Tapeçaria, Museu Cluny

Das infidelidades (traições?): «nebel» = saltério = harpa

2.

«Saltério, s.m. (do gr. psalterion, pelo lat. psalteriu). Instrumento musical de cordas, que se dedilhavam ou se tocavam com o plectro; instrumento triangular moderno, com treze ordens de cordas, que se ferem com uma palheta. ♣ Livro da Bíblia onde se compreendem os salmos; o conjunto dos mesmos salmos.» Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. de José Pedro Machado

«Címbalo, s.m. (do gr. kymbalon). Cada um dos dois discos de metal chamados pratos. ♣ Instrumento musical semelhante aos modernos pratos, composto de dois meios globos de metal, que se percutem. ♣ O m.q. saltérioGrande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. de José Pedro Machado

Do sítio de Petrica Nae: «El cymbalom tiene nombres diferentes en los paises en que se toca.
En España se llama “salterio

He aqui una lista de los diferentes nombres que puede tomar.

* Armenia: santir [Ainda segundo José Pedro Machado, Santir ou Santur: «Instrumento persa de cordas batidas, espécie de saltério de forma trapezoidal, montado com cordas de metal, que se toca com dois plectros.»]
* Belarus: tsymbaly (цымбалы)
* Czech Republic: cimbál (IPA: [ʦɪmbaːl])
* France: cymbalum
* Georgia: tsintsila
* Germany: Zymbal
* Greece: sandouri (σαντούρι)
* Holland: cimbaal, hakkebord
* Hungary: cimbalom
* Iran: santur

Yang Quin (ch'in) - Santur (saltério asiático)

Yang Quin (ch'in) - Santur (saltério asiático)

* Klezmer & Jewish music: tsimbl
* Latvia: cimbole
* Lithuania: cimbolai
* Mongolia: joqin
* Poland: cymbały węgierskie
* Romania: ţambal (the large cimbalom is called ţambal mare)
* Russia: tsymbaly (цимбалы)
* Slovakia: cimbal
* Slovenia: cimbale
* Ukraine: tsymbaly (цимбали)
* Uzbek: chang
* Vietnam: tam-thap-luk

Das infidelidades (traições?): «nebel» = saltério = harpa

1.

Leis gerais da poesia hebraica:  a prosódia não assenta no número de sílabas ou de pés; tão-pouco na rima; mas na sucessão de sílabas tónicas e sílabas átonas. Apenas entram em linha de conta as sílabas acentuadas, uma por cada palavra ou par de palavras estreitamente ligadas entre si.

Um versículo (Salmos) é composto, normalmente, por dois membros de três acentos (3 + 3), às vezes por 3 + 2 (ritmo elegíaco). Cada parte (ou membro) do versículo é  chamado stykos; de ordinário, os versículos são compostos por dísticos (duas partes ou dois versos), por vezes, por três (trísticos ou tercetos).

O processo utilizado constantemente é o paralelismo: anuncia-se um mesmo pensamento e dois stykos consecutivos, equilibrados e simétricos. Este processo reforça o ritmo sonoro do verso, provocando como que um balancear, movimento que corresponde ao que acompanharia o canto dos salmos.

Pentecostes

Celebrou-se no passado domingo a festa do Pentecostes,  a qual, como até os pagãos sabem, comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos (Act 2), festa estabelecida no fim do séc. III, altura em que a Igreja ficou publicamente constituída e se lhe juntaram pelo baptismo cerca de 3.000 fiéis.

Ora acontece que, seguindo rigorosamente os preceitos de Leão XIII, o qual instituiu por todo o mundo católico uma novena preparatória para a dita festa, durante muitos anos pedi a efusão dos seus dons.

Material acústico de escuta experimental, Museu “Waalsdorp”, La Hague
O que, está bem de ver, não sucedeu, ou melhor, dos três actos do penitente, apenas me foram dados ver e sentir dois: a contrição, ou a atrição, mais apropriadamente, pois que imperfeita, aquela dor de alma que a gente sente quando prova algo de bom mas vedado, e a confissão. (Não é, uma vez mais, o que estou a fazer neste momento?) Isto porque a satisfação, o terceiro acto, nunca me redimiu, ou por um pirronismo acerado, ou porque me desfazia em desvelos com os sinais sensíveis da infusão da graça. Li mesmo um certo Camilo muito chato, aceitei descomodidades e escutei Frei António da Paciência. Mas nada. E aqui estou a revelá-lo, de um modo um tanto ou quanto heteróclito, dadaísta, de me dar com a incerteza, à escuta, sempre experimental, como o demonstra o material acima e a prova sonora que aqui junto:

«Coração de cão» – II

Com o degelo kruchtoviano, foi permitida a publicação de alguns livros, diz Youri Afanassiev: «[...] obras de Soljenitsyne, Tvardovski, Dudintsev, Evtouchenko, Abramov, etc.  [...] Foi a altura em que surgiram as correntes mais fortes da literatura pós-estalinista: o romance rural (Solouchine, Abramov), e o romance de guerra (Nekrassov, Baklanov). O elemento motor deste processo era a rejeição do realismo socialista, em nome do direito do escritor a descrever a realidade tal como ela é. A partir desse momento, a nossa literatura assumiu uma nova função na sociedade, a do espírito crítico. Retomámos a publicação das obras completas de Dostoievski, que tinha sido interrompida nos anos 30; Bulgakov, Zochtchenko, Akhmatova, Tsvetaieva foram publicados.» Um Grande Clarão a Leste, Paris-Moscovo, Ida e Volta, Jean Daniel e Youri Afanassiev, tradução de Mª João Delgado e Luísa Feijó, revisão de Carlos Sousa de Almeida

Coração de cão foi rejeitado e a obra esteve durante muito tempo proibida na União Soviética, só vindo a público  em 1987, já com a Perestroika.

Cão de Giacometti e lago de BraqueCão de Giacometti e lago de Braque

E é (foi) assim que, sempre satirizando o regime, a história prossegue, com o famoso cão descobrindo as lautas refeições do Professor em companhia do seu assistente, bem como as suas ideias contra-revolucionárias. Apesar de ter de andar de coleira, para Sharik foi como se lhe tivesse saído a «sorte grande». E tudo corre sobre rodas até ao dia em que o pobre animal é fechado e anestesiado para que o Professor e o seu assistente, Bormenthal, possam servir-se dele como cobaia: retiram-lhe então os testículos e substituem-nos por outros, fazem-lhe uma trepanação e no lugar do cérebro canino implantam-lhe uma hipófise humana, a fim de observar os seus efeitos  em termos de rejuvenescimento. Depois de estar às portas da morte, Sharik consegue enfim recuperar e as alterações não se fazem esperar: a «hominização» é quase completa. O cão cresce, perde o pêlo e começa mesmo a falar, ainda que de forma grosseira. Comporta-se como o basbaque a quem pertenciam os órgãos transplantados. Preobrazhensky, que não estava à espera daquele resultado, vê-se obrigado a educar o energúmeno, a arranjar-lhe documentos de identificação com o nome de Sharikov e a tentar remediar os estragos causados pelo instinto canídeo e o gosto imoderado daquele «Frankenstein» pela vodka e o pensamento de Engels. O resto, o resto cabe ao leitor descobri-lo…

A ler ainda: Une Cure de Fantastique ou Mikhail Boulgakov, par Georges Nivat

A literatura, a crítica e as hormonas

«For generations, the study of literature has been a pillar of liberal education, a prime forum for cultural self-examination, and a favorite major for students seeking deeper understanding of the human experience.

But over the last decade or so, more and more literary scholars have agreed that the field has become moribund, aimless, and increasingly irrelevant to the concerns not only of the “outside world,” but also to the world inside the ivory tower. Class enrollments and funding are down, morale is sagging, huge numbers of PhDs can’t find jobs, and books languish unpublished or unpurchased because almost no one, not even other literary scholars, wants to read them. [...] Though the causes of the crisis are multiple and complex, I believe the dominant factor is easily identified: We literary scholars have mostly failed to generate surer and firmer knowledge about the things we study. While most other fields gradually accumulate new and durable understanding about the world, the great minds of literary studies have, over the past few decades, chiefly produced theories and speculation with little relevance to anyone but the scholars themselves. So instead of steadily building a body of solid knowledge about literature, culture, and the human condition, the field wanders in continuous circles, bending with fashions and the pronouncements of its charismatic leaders.» Jonathan Gottschall
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«We tell our own stories about those risks.Our stories about the emotions are darker and more powerful than yours. Oursare the important ones.
S: But how can you say that?
H: I just can.
S: So, what you’re saying is that nothing we have to say is important?
H: It’s just my opinion.»

Roxana Robinson’s new novel, Cost

Logocentrismo – IV

Hendrik Kerstens, Saco, 2007

Hendrik Kerstens, Saco, 2007

Johannes Vermeer, Jovem com pichel (pormenor), 1662

Johannes Vermeer, Jovem com pichel (pormenor), 1662

«Le concept de supplément [...] abrite en lui deux significations dont la cohabitation est aussi étrange que nécessaire. Le supplément ajoute, il est un surplus, une plénitude enrichissant une autre plénitude, le comble de la présence. [...]» Derrida

«Le logocentrisme dans le dessin ou la peinture, c’est que tout y est structuré comme un langage. Il y a absorption de l’espace dans la voix, de la peinture dans le poème. L’espace fonctionne par représentation, imitation, traits différentiels, lexie, domestication par le verbe, éléments transcendantaux sémantiques ou formels. Comme dans la peinture classique, illusionniste, le régime de la présence/idéalité surdétermine toute forme spatiale.» Idixa

Logocentrismo: IIIIII

Pollock e o Vírus da Gripe A

«Tender moment in this blog»

Houve alguém que propôs em tempos um «Lisboa-Dakar» dos intelectuais… Pois bem, tentando reagir ao desafio, José Gil escolheu outro desporto e propôs-se com ele reatar a relação afectiva professor aluno voltando à ribalta e dando o exemplo; saindo do nevoeiro, contrariando a «não-inscrição», ele oferta-se, materializa-se a nossos tontos olhos a precisar de confirmação; ele continua a ser «um dos 25 pensadores mais importantes do mundo». Aleluia!

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Paroles, paroles, paroles…

«Os rapazes do “Orpheu”, em vez de virem nus para o meio da rua darem cambalhotas, lançam ao papel várias maluquices e esperam, a esfregar as mãos, que o burguês escandalizado os descomponha.» O Século Cómico, 1915

cabines de bains à roues

Cabines de bains à roues, séc. XIX

O espaço exterior do MAP, o Museu de Arte Popular, que fica quase à minha porta, teve um dia destes uma manifestação curiosa. Li e não descortinei – erro meu, certamente – as paupérrimas justificações para a mesma. E deslumbro-me, é verdade, acontecem-me destas coisas, [sim, conheci o museu (?) bah! diria o outro] com as «aptidões para o heroísmo moderno» de uma empresária, uma designer e uma antiga directora.

No entretanto, leio no blogue de Alexandre Pomar (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7) e já vou compreendendo mais qualquer coisita: o kitsch e  muitas outras razões aduzidas. Tal como ele, vejo o malho (camartelo) e outros instrumentos de choque.

Estudo de Carlos Botelho para as pinturas murais do Museu de Arte Popular (revista Panorama, do SNI, nº 35, 1948, por ocasião da sua inauguração)

Estudo de Carlos Botelho para as pinturas murais do Museu de Arte Popular (revista Panorama, do SNI, nº 35, 1948, por ocasião da sua inauguração)

Pouco importa se estou ou não a favor de uma solução – que nem sei, afinal, qual seja, tal é o imbróglio – de continuidade ou de ruptura.  «Sabeis qual é a melhor prova para ver se uma lei foi bem decretada? É o seu resultado estético», dizia o Almada. O interessante é ver o «demo» em funcionamento. Aliás, quanto a museus – e a tanta outra matéria -, qualquer dia voltamos à criação do seu próprio instituto. Expulsa-se tudo, armazenam-se os objectos num convento, de preferência com basta humidade, e depois de bem apodrecido manda-se queimar de uma assentada. Ou talvez nem seja preciso destruir coisa alguma: o que tinha de ser destruído já anda a cair de podre.

Termino com Almada no Portugal Futurista: «À minha entrada no palco rebentou uma espontânea e tremenda pateada, seguida de uma calorosíssima salva de palmas que eu cortei com um gesto.»

E que brilhem os artistas dos nossos tempos num equilíbrio indispensável e sofrido. Não nos levem é à loucura das formas.

PS.: Seria simpático, e instrutivo, ao menos de vez em quando, fazer um pouco de história. Bastaria compulsar coisa pouca. E depois clarificar opções. Eu explico: proponho assim porque frito; decido-me assado porque cozido.

Eu dou uma ajuda: a tese de 2007 de Vera Marques Alves: «”CAMPONESES ESTETAS” NO ESTADO NOVO: Arte Popular e Nação na Política Folclorista do Secretariado da Propaganda Nacional» (PDF) ou a tese de Luís Filipe Raposo Pereira (PDF), onde se podem ler  coisas fantásticas como esta:

«No preâmbulo do Catálogo da Exposição de 1998, escrito pela então directora do Museu Elisabeth Cabral, registe-se uma passagem que descreve e define o sentido marcado em torno do tratamento conferido à «cultura popular», projectando-nos para um entendimento quase lírico e poético da mesma:
“A roca, o fuso, o linho e as agulhas fazem parte de uma arqueologia feminina, em que os trabalhos e os dias são marcados pelo ritmo casuístico das suas necessidades diárias. Num primeiro registo, o olhar prende-se à forma, à técnica, ao objecto que delimita muitas vezes as épocas, os tempos datáveis do nosso quotidiano. Mas é o segundo registo aquele que nos dá uma leitura de gestos, de gineceus, de confidência, de palavras muitas vezes não ditas mas sonhadas.
Tempo também de solidões, quando o silêncio transborda sobre as casas e é    necessário alongar o dia pela noite para cumprir os prazos da peça encomendada.

Uma exposição é sempre uma memória, memória de um tempo documentado, em que os gestos femininos desenhavam com a agulha as palavras e os símbolos e em que o nosso imaginário seguirá o caminho depois da encruzilhada. (Farrajota & Abreu, 1998)” »

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Em tempo: o blogue Museu de Arte Popular (desconhecia, confesso), cujos autores são Teresa Pinto, Catarina Portas e Rosa Pomar.

E mais um contributo, extremamente útil,  de Sérgio Lira:  «Os Museus e o conceito de Património: a peça de museu no Portugal do Estado Novo *» e «Colecções Etnográficas e Museus Etnográficos: objectos e memórias da Cultura Popular».

Velhos

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Habitar, cultivar. Nascemos
tão velhos. Levamos a vida
como bons alunos. Acreditamos
no que nos vão ensinando,
metáforas de outra coisa.
Armadilhas da natureza, os filhos
são-nos velhos e dizem «não!»
E ei-los de regresso
à idade das cavernas.
Só então vamos realmente
olhando a paisagem e adoptando
um ponto de vista. A vida
tem um sentido? No Banco
tivemos uma, várias contas,
comprámos casa, carro.
E eis-nos chegados
ao cume. Que melhor
lugar para avistar uma paisagem?

Imagem: Qulliq, Inuit blubber lamp, first half of the 20th century

Demoníaco

Pradines dizia: «Não sabemos quanto a razão é demoníaca e tomamos o seu demónio por uma voz.»

O ano de 1977, passei-o ouvindo a integralidade da obra de Bach para órgão e recitando poemas «diabólicos» ao som daquela verve e alquimia das suas variações e metamorfoses: tirar, por assim dizer, o múltiplo da vida do único do génio. A um só tempo esconjurava demónios antigos e descobria a beleza do órgão que debutara aos 10 anos de idade. Era como que a prova descartesiana da carência de ser: «Eu poderia crer que se eles (os meus pensamentos) fossem verdadeiros, seriam dependências da minha natureza, na medida em que esta tivesse alguma perfeição, e, se o não fossem, que eu os recebia do nada, isto é, que eles estavam em mim porque eu tinha defeito.» Discurso do Método

Quis o Destino que, pouco tempo depois, a Alemanha – qual entidade demiurga – fosse uma etapa da minha viagem iniciática e, maravilhado, pude sentir in loco O som, deliciar-me com Buxtehude e a sua arte da teatralidade, mas igualmente a sua lógica formal e o sentido das proporções numa aparente desmesura; certo dia, porém,  deu-se a descoberta maior:

Órgão de S. Vicente de ForaÓrgão de S. Vicente de Fora

pelo preço de dois ou três dias de trabalho, milagre! comprei um LP com uma gravação alemã do órgão de S. Vicente de Fora (Frei Diogo da Conceição, António Carreira, Gaspar dos Reis, Manuel Rodrigues Coelho, etc., com registos da esquerda e registos da direita magnificamente executados por Gertrud Mersiovsky!). Desde então, muita coisa mudou no meu país – falo de música, de concertos, de órgãos restaurados e de gravações, é claro, das colecções do IPPAR, e outras, que começaram e desapareceram, ou ninguém lhes põe a vista em cima, a «Lvsitana Mvsica», de órgãos históricos portugueses, com Gerhard Doderer, mas também Joaquim Simões da Hora e Isabel Ferrão, ou os polifonistas dos séculos XVI e XVII da Sé de Évora, com o coro polifónico Eborae Musica… E Lisboa até já faz parte da agenda de festivais internacionais

Como, porém, a demência «é uma paixão sem intervalos», no dizer de Buffon, havia que procurar a sanidade e curei-me. Até há pouco. À audição de Mendelssohn. Libertando tendências recalcadas e virtualidades insatisfeitas, é o devaneio que vos proponho que comigo enceteis, completando a vida. A sua obra completa para órgão, aqui, gratuita, executada por Stefan Bleicher.

Dos Orientes…

carpet

Pensando nos seis principais imperadores mogóis: Babur fundou o império; Humayun perdeu-o, foi expulso da Índia e voltou para o recuperar; Akbar herdou o trono aos 13 anos e consolidou o império; Jahangir acrescentou alguns reinos ao legado do pai; Shah Jahan construiu o Taj Mahal; Aurangzeb mergulhou na intolerância e foi a causa do desmoronamento do império.

«A paixão por Mehr-ul-Nissa, que Salim reprimira por respeito e temor pelo pai, voltou com redobrada violência quando subiu ao trono da Índia. Era agora absoluto; nenhum súbdito podia demovê-lo do seu desejo e satisfação.» Alexander Dow, The History of Hindostan

«Pela graça infinita de Alá, passava uma hora sideral de quinta-feira, ao vigésimo Jumada-s-sani do ano de 1014 da hégira, ascendi ao trono em Agra, a capital, tinha eu 38 anos de idade.» A. Rogers, trad., e H. Beveridge, ed., The Tuzuki-i-Jahangiri

«Mher-ul-Nissa era uma mulher altiva… Para aumentar a sua própria reputação no serralho, e para se sustentar a si própria e aos escravos com mais decência que a escassa pitança lho permitia, socorreu-se da sua inventiva e bom gosto fazndo algumas peças admiráveis de tapeçaria e bordado, pintando sedas com delicada sensibilidade e criando ornamentos femininos de toda a espécie.» Alexander Dow, The History of Hindostann

«”Os padres jesuítas não estão contentes com a presença na corte de Hawkins, o embaixador inglês”, disse Jahangir. “Porquê?” perguntou Mehrunnisa. “Estão aqui para fazer prosélitos, Hawkins para um tratado comercial. Não pode haver conflito.” “Hawkins promete segurança aos nossos navios no mar Arábico.” “Ah!” exclamou Mehrunnisa, de olhos a brilhar. “E isso prejudica o domínio dos portugueses, porque eles agora protegem os nossos navios. Os jesuítas estão a tornar-se demasiado arrogantes. Enquanto foram os únicos a oferecer-nos protecção, enquanto não tiveram rivais, o império estava sob a influência deles. Não podeis desfazer-vos de Hawkins, Majestade. Usai-o.” “Não é fácil. (…) E Hawkins, por mais que se intitule embaixador, não passa de um mercador: tem as mãos sujas, o riso é grosseiro, as maneiras são rudes e não tem etiqueta.”» Indu Sundaresan, The Twentieth Wife

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagens:  Tapete de finais do séc. XVI, inícios do séc. XVII, Lahore, do reinado de Jahangir; “Nur Mahal” (Nur Jahan, rainha-chefe de Jahangir); “Shah Salim” (o futuro Jahangir).

_______________

OBS.: Para as Outras Índias, consultar Constantino Xavier e outros: aqui.

«Depois de Babel» *

hyperlivres.net
Textes en ligne et téléchargeables

Montaigne :
Les Essais
Traduction en français moderne de Guy de Pernon

d’après le texte de 1595
Bernard Palissy

MontaigneMontaigne

Discours Admirables…

Texte original et traduction en français moderne en regard
Chrétien de Troyes

Le chevalier de la charette (Lancelot)
édition synoptique de tous les manuscrits connus
Alfred Gevrey

Essai sur les Comores
édition numérique d’après celle de 1870
Jean Meslier

Testament
version voltairienne du testament du curé athée

Concorde-se ou não com as opções tomadas – diria, com George Steiner*, «A indumentária por que opta, ou que o encenador lhe dita, é o resultado de um exercício de crítica activa» – é um trabalho notável. E ao alcance de um clique. Merci, Mr.

«Coração de cão» – I

«Outra hipótese  que avento é ter o cérebro de Sharik, no período canino da sua vida, armazenado uma série enorme de noções. Todas as palavras que usou de início são palavras da rua que ouviu e registou no seu cérebro. Agora, quando caminho na rua, olho com um terror secreto os cães que encontro. Sabe Deus o que vai naquelas cabeças!» Bulgakov, The heart of a dog

Giacometti, cãoGiacometti, Cão

Há cães e cães. De muita espécie e sorte. Tudo começa com um pobre cão vadio, dorido e morto de fome que se abriga sob um abrigo  de homens. O cozinheiro da «cantina de restauração normal do pessoal do Conselho Económico Nacional», para o afugentar, atira-lhe com água a ferver. Queimado, o animal urra e vai pensando que tem de pôr fim àquela “vida de cão”, mas resiste. E, milagre! saído de uma loja em frente, «um cidadão, não um camarada, muito provavelmente mesmo, um senhor», com um cheiro agradável, aproxima-se e tira do bolso um chouriço; lança-lhe um pedaço: «Vem cá, cãozinho. Toma, Sharik.» E o cão segue aquele homem generoso até sua casa.

Algum tempo depois, Sharik acorda de corpo ligado e sem dores, conseguindo acompanhar o seu benfeitor à sala de consultas onde uns quantos pacientes ricos procuram encontrar a juventude perdida. No entanto, há um novo conselho de gestão que considera escandaloso o facto de o cirurgião ocupar sete compartimentos  do imóvel, e o caso, bicudo, só é resolvido com um telefonema do reputado Professor Preobrazhensky a alguém altamente colocado, ameaçando anular todas as intervenções cirúrgicas previstas se alguém o voltar a incomodar.

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Da pintura XIX – 4º de 4

Franz Marc

Um ano depois de ter pintado O Tigre, o mesmo labirinto cubista da floresta transforma-se num local de perigo, de ameaça. As árvores caem. A luz jorra. Há linhas entrecruzadas de ramos. Tudo se encontra em movimento, num caos. O quadro foi denominado O Destino dos Animais. O meio envolvente está destruído. Era o ano de 1913 e o quadro pode ser interpretado como uma premonição da Grande Guerra. A violência abalara a paz do mundo natural. Uma corça olha atentamente à sua volta em busca de segurança.

Franz Marc, O Destino dos Animais, 1913Franz Marc, O Destino dos Animais, 1913

Conhecendo o trabalho posterior de Marc e percebendo o seu pavor da guerra, podemos ver ainda o Tigre – não como um tirano da selva, mas como a representação da ordem natural das coisas – como uma criatura simbólica de todo o animal, humano ou não, cujo direito de viver esteja ameaçado.

Franz Marc, O Desafortunado Tirol, 1913

Franz Marc, O Desafortunado Tirol, 1913

Numa das suas últimas obras, Franz Marc tentou enfrentar o Apocalipse que se aproximava. Chamou-lhe O Desafortunado Tirol. Os céus abrem-se; num mundo em convulsão, paira a figura da Madonna, símbolo da esperança, mas impotente no meio do Armagedão. No espaço de poucos meses, eclodiu a I Guerra Mundial e Marc alistou-se.
Tinha vários projectos, um deles o de ilustrar a história da Criação. No entanto, em 1916, foi morto em Verdun.

OBS.: Um excelente e bem documentado artigo de Gabi La Cava, em inglês, sobre o pintor e o Expressionismo alemão pode ler-se em «The Expressionist Animal Painter Franz Marc».

Dos autores – VIII – 3º

John (Roderigo) dos Passos

Com o terceiro livro da sua trilogia, chega a consagração: a Time Magazine dedica-lhe, em 10 de Agosto de 1936, honra rara para um escritor, a sua capa, comparando-o a Tolstoi e Balzac. John dos Passos ousara atacar a América industrial, poderosa e feroz.

Time Magazine cover-John dos Passps

Capa da «Time Magazine» - John dos Passos

«[...] O navio abria lentamente caminho através do tempo encoberto. Um ferry-boat passou por eles. À direita, havia um barco de quatro mastros [...]. Mais longe, avistava-se outro barco. Na sua frente, viam-se vagamente as luzes dos arranha-céus nova-iorquinos [...]. Stuart tinha o copo cheio de uísque e uns binóculos nas mãos. Os olhos brilhavam-lhe.
- Vês a estátua da Liberdade, John?
Parecia que não via nada.
- Tudo está calmo, Jo. É domingo, sabes?
Naturalmente que era domingo. Sentiam-se aborrecidos. Por trás, os arranha-céus vazios e os longos arcos da ponte de Brooklin perdiam-se na névoa.
- Pois bem, Charlie – diz Stuart, cofiando o bigode -, foi aqui que eles esconderam todo o oiro do mundo. É a nossa vez de lhes tirarmos algum.
- Bem gostava de saber como.
Viam-se muitas pessoas numa enorme doca aberta. Jo estendeu a mão.
- Charlie, voltaremos a ver-nos?
- Foi uma bela guerra enquanto durou.
Por cima do edifício da doca flutuavam as bandeiras americana e francesa. E às portas, grupos de pessoas agitavam os lenços.» The Big Money

Fernand Léger-Adieu New York

Fernand Léger, Adeus Nova Iorque, 1946

Num estilo frio, impessoal, violento, «Manhattan Transfer: Viagem por Nova Iorque» fora o primeiro grande livro de John dos Passos e o que mais influenciaria Sartre na feitura do seu «Caminhos da Liberdade»: o destino de cada personagem, calvário diário de centenas de milhar de empregados esmagados pela máquina nova-iorquina, é descrito paralelamente. Para o escritor, nenhuma personagem sobrevive a uma espécie de jogo desesperado do pimpampum. Todas as vidas, como diz Shakespeare em «Macbeth», estão cheias de furor e arrebatamento, mas nada significam. E para uma obra que começava, era uma tendência perigosa: o desespero em demasia.

L. Quintanilla-Subway-manhat

Luis Quintanilla, A vida em Manhattan, Metropolitano

O que salva o escritor, o que faz o seu génio, é uma energia prodigiosa e comunicativa que terá no comprometimento político, então cada vez mais próximo da Esquerda, extrema, uma justificação, por assim dizer, uma aplicação: o caso Sacco e Vanzetti irá mobilizá-lo e lançá-lo numa luta sem quartel. Será o caso Dreyfus americano. E escreve o seu «Acuso» no jornal New Masses. Por fim, quando já nada há a esperar, nasce um poema:

Morreram. Venceram os autómatos.
Ficaram inteiramente calcinados.
As suas carnes repousam na terra, em Massachusetts.
Os seus sonhos pairam no vento.

E no dia da execução dos dois anarquistas, John foi preso. Depois de libertado, a URSS recebê-lo-á de braços abertos. No entanto, depressa regressará, não muito convencido, para a América. «Que esperas tu da puta da raça humana?» – pergunta-lhe Hemingway, o amigo que lhe apresentara Kathrin Smith e com quem John se casaria.

Como escreverá mais tarde nas suas memórias, publicadas em meados dos anos 60, John dos Passos apenas quer reter a «boa vida», a do seu retorno a Paris, com o inseparável Hemingway, mas também com Fitzgerald, a geração perdida dos escritores do pós-guerra. «Vamos beber o álcool das atmosferas», dizia Cocteau.

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Da pintura XIX – 3º de 4

Franz Marc

«Hoje, por trás das aparências, procuramos as coisas invisíveis na Natureza, que nos parecem mais importantes que as descobertas dos impressionistas.»

Franz Marc, Chuva, 1912

Franz Marc, Chuva, 1912

A dívida de Marc para com o Cubismo e, é claro, para com Cézanne são evidentes. Sobretudo para com as cores de Cézanne, esmeradas gradações de verdes, azuis e amarelos dourados. Em Chuva, duas pessoas e um cão são surpreendidos por um violento aguaceiro na floresta. E Marc serve-se da técnica cubista para intensificar o realismo dos seus quadros: a força da chuva e a fragmentação, quais estilhaços de vidro, da imagem. O realismo, mas também o sentimento.

Franz Marc, Veado na floresta, 1912

Franz Marc, Veado na floresta, 1912

Marc pintou o Veado na floresta em 1912. A fragilidade e mansidão do animal são tão acentuadas como o era a ferocidade do Tigre. Uma vez mais, a paisagem é simplificada: elementos de árvore, rocha e luz solar justapostos; planos sobrepostos de tons negros sobre tons claros, criando, por meios simples, o efeito da floresta densa, com manchas de luz, pequenos lagos profundos de sombra. O veado em repouso é quase o elemento mais invisível no labirinto da floresta: uma criatura selvagem cuja natureza se harmoniza com o meio envolvente.

«Como é deplorável», escreveu, «o nosso hábito de colocar animais numa paisagem que reflectem a nossa própria visão, em vez de penetrarmos na essência do animal para avaliar as suas percepções.»

E como me dava jeito endoidecer

E como me dava jeito endoidecer,
ter uma ignorância de aço,
e funcionar apenas
como um motor, anestesiado em pistons
e bielas, uma máquina
sem o trabalho de pensar.

_____________________________

Escutava Gelido in ogni vena [o Barroco], da ópera Farnace, na belíssima voz de Cecilia Bartoli, e relia Hannah Arendt, de como trocara, por sugestão de Heinrich, a expressão «mal radical» por «banalidade do mal»: «Sim, mudei de opinião. Agora penso que o mal nunca é radical, que é apenas extremo, que não possui nem profundidade nem dimensão demoníaca; pode invadir tudo, pode devastar o mundo inteiro, precisamente porque se propaga da mesma forma que um cogumelo: desafia o pensamento. Só o bem tem profundidade e pode ser radical.»

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E fico-me ouvindo esta jóia musical e contemplando as silhuetas das árvores e pensando em como Arendt foi maltratada. E vejo-me pária como ela, «a jovem estrangeira». «É preciso detestar muito a morte na nossa época para não ceder à força de sedução do suicídio.»

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Vieira da Silva

«Não se pode dizer o que é a vida, de que forma a Fortuna ou o Destino tratam as pessoas senão contando a sua história. Em geral, nada mais se pode dizer que “sim, é assim que vão as coisas.” Nestes últimos meses, pensei muitas vezes a propósito de mim: livre como as folhas ao vento. Claro que isto só em parte é verdade, pois há ainda todo o peso do passado, aquilo que Hoelderlin disse num belo verso: “Há todo este peso, como que uma carga de lenha, aos nossos ombros, que é preciso suportar, em resumo, recordar.”»

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Da pintura XIX – 2º de 4

Franz Marc

Um dos primeiros quadros de Marc: já nessa época, tal como Gauguin, ele começara a exagerar as cores na sua propensão para o efeito emocional; camadas de cor em torno da figura, formando como que um tapete brilhante.

Franz Marc, Nu com gato, 1910

Franz Marc, Nu com gato, 1910

«Procuro aumentar a minha sensibilidade através do ritmo orgânico de todas as coisas», escreveu Franz Marc. E no ano em que pintou O Cavalo Azul, anunciava: «Temos de nos tornar ascéticos, renunciando corajosamente a tudo o que até agora nos foi caro e indispensável como bons centro-europeus.»

Franz Marc, Blue Horse, 1911

Franz Marc, O Cavalo Azul, 1911

O Cavalo Azul. E porquê azul, quando os cavalos nunca foram azuis? Precisamente porque a cor teria um papel independente da Natureza. O azul, o vermelho, o amarelo, o preto, são cores com vida própria, não descrevem simplesmente uma cena. E assim foi simplificando as figuras, definindo-as por camadas fortes de cor, as quais parecem ter sido cortadas e agrupadas depois.

O cavalo ergue-se mais como uma escultura de pedra do que como um animal vivo. É a epítome de um tigre. A mesma simplificação na forma e na cor. Preto, branco, amarelo dourado. Tudo está centrado no seu olhar feroz. «Haverá ideia mais misteriosa», escreveu, «do que a forma como a Natureza se reflecte nos olhos de um animal?»

O Tigre mantém-se pronto para saltar. E contudo, observando com atenção o quadro, nenhuma das suas formas é tratada em termos de membros e de músculos, mas quase de uma maneira abstracta, como os pedaços de vidro colorido de um vitral medieval, como se a luz atravessasse, vinda de trás, as barras de chumbo.

O pintor adopta um novo tipo de romantismo. «Já não interessa», afirmava ele, «copiar a Natureza, mas destruí-la, a fim de mostrar as poderosas forças que surgem por trás da bela aparência das coisas.» E é também um mundo de sonho que parece excluir a espécie humana. A esse propósito, o tigre de Marc contém premonições da terrível guerra que estava por vir.  A selva humana encontrava-se cada vez mais próxima.

Da pintura XIX – 1º de 4

Franz Marc

Os animais, mais do que qualquer outra coisa, são a marca de um pintor do século XX, o artista alemão Franz Marc. Na Stadtische Galerie im Lenbachhaus, em Munique, está exposta uma das suas obras mais acabadas, O Tigre, pintada em 1912, tinha o artista 32 anos.

Franz Marc, O Tigre, 1912Franz Marc, O Tigre, 1912

Não é um tigre como qualquer outro artista romântico do século XX poderia ter pintado. Não se trata de um troféu de caça nem de uma fera num jardim zoológico. «Desde muito cedo», escreveu Marc, «que considero o homem um ser vil, os animais parecem-me mais puros e belos.»

Era uma procura do primitivo, das coisas mais primevas, e um protesto contra a arte convencional académica alemã, que glorificava o homem, as suas batalhas, a sua arrogância, a sua supremacia sobre todas as outras formas de vida. «Procuro aumentar a minha sensibilidade através do ritmo orgânico de todas as coisas», declarava.

E talvez pela primeira vez, a nova arte alemã internacionaliza-se na sua concepção. «Para mim, um bom europeu tem mais significado que um bom alemão», afirmou Franz Marc precisamente antes da I Guerra Mundial eclodir. Artisticamente, o seu olhar estava virado para Paris, e para mais longe ainda, para as cores exóticas da pintura de Gauguin, nas ilhas do Pacífico.

Dos autores – VIII – 2º

John (Roderigo) dos Passos

«Desde que pusera os pés no barco, o meu pai passou a ser chamado “Comodoro”. E ele chamava à minha mãe “Princesa”. Eu era o senhor Sam. Tínhamos como empregados Tom, o cozinheiro, e Alben, o criado particular de meu pai. Eu gostava do Alben. Formávamos os quatro uma espécie de charada, que o Comodoro dirigia com indulgência.» The Best Times, 1966

Jonh Dos Passos, Watering Place, 1923

Jonh Dos Passos, Watering Place, 1923

Nem sempre fora assim, no entanto. O pequeno John era filho ilegítimo, uma infâmia na época. Tinha sido exilado com a mãe para o outro lado do oceano, para França, onde aprendeu francês. Uma separação cruel que o marcará, mas tudo acabará em bem. O self-made-man casa-se com a aristocrata sulista, e o adolescente torna-se John dos Passos, estudante em Harvard, sonhador e poeta; porém, a entrada dos EUA na guerra em 1917 irá transformá-lo por completo.

John havia-se alistado no corpo de ambulâncias americano, tal como Hemingway, o futuro autor de Adeus às Armas, no qual relatará a triste realidade que irá conhecer na frente italiana. Passos é enviado para Verdun, que não vive já a grande batalha de 1916, mas onde o horror ainda está muito presente. Contudo, escreve ao amigo e pintor espanhol José Roblès: «Curioso. Sinto-me melhor aqui que na América, onde a hipocrisia impera.»

Não consegue, ainda assim, suportar a guerra e deserta. Para logo regressar e ser enviado para Itália, onde conhecerá Ernest Hemingway. E a guerra termina com milhões de mortos e estropiados. John esconjura a experiência em One Man’s Initiation, 1917 (1920), uma tentativa de apresentar as suas experiências directas da guerra a partir dos seus apontamentos diarísticos, os quais tornarão a ser usados de uma forma literariariamente mais sofisticada em Three Soldiers, 1921, um romance anti-guerra, mas também a descoberta da pintura, tornando-se amigo de Léger:

Fernand Léger, Os jogadores de cartas, 1917Fernand Léger, Os jogadores de cartas, 1917

«Paris, 1919, Paris ritual. Azulejo vermelho, azulejo branco. Um milhão de dólares. Mil milhões de marcos. Mil milhões de rublos. [...] República de Montmartre. A pintura, enfim, de La Madeleine. Cézanne, Picasso, Modigliani.»

De facto, em Paris, John dos Passos hesitou muito entre duas vocações, a literatura ou a pintura. Opta pela escrita e tem algo a dizer através dela:

«A união dos trabalhadores é necessária. A revolução gira em torno da nossa torre Eiffel como uma roleta. E as nossas previsões do ano passado são ultrapassadas,  desaparecem nos calendários. Faremos todos um ano. Hoje é o primeiro ano. Hoje é o primeiro dia da Primavera e o Sol brilha. Bebamos o nosso café, despertemos os corpos, esqueçamos o vestuário, desçamos as escadas, saiamos bem acordados nesta primeira manhã do primeiro dia do primeiro ano.» 1919

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

«Il me manque une concordance des mots avec la minute de mes états.» *

Tenho com este meio, como com a vida, aliás, uma relação de metralhadora. Não, não é assim que devo começar. Há que ter a coragem de assumir a angústia metafísica. Quase jurava que haveríeis de preferir: Era uma vez duas e trinta da manhã à porta do vosso sono… e eu aqui a conspirar para vos acender a luz. Também não?

Sem vergonha, jurei a mim próprio que este texto não haveria de me dar uma nega. Já o interrompi três vezes. Era uma das gatas lavada em lágrimas; veio a meia-noite, carrilhou a caixa-alta. Esmerei-me. Voltei a sentar-me. Tenho as duas mãos. Uma em torno de um scotch. A outra sente. Soou a uma; não dava com a chave. Estou de novo com os dedos enervados. Quero dizer-me que estou confuso, com medo de sentir as palavras. Execrável, batem as duas. Uma diarreia monumental. Maçãs cozidas. A irritação picota-me o silêncio. Pelo buraco da agulha procuro. Há-de o sol manchar-me a cabeça, e eu entrar nele ainda escrevendo… gostaria de ter uma maneira rigorosa de informar o mundo, mas veio a meia-noite, a uma, as duas e eu sem conseguir delimitar esta prática formal. Acabo de escrever isto e ponho-me a ler assombrado. Há imagens, sons, objectos, a língua, e ao chegar aqui toureia-me a inspiração. Estou convulso, pairo entre o virtual-material. O «Barry Lindon», do Kubrick, puxa-me para o «Vanity Fair», do Thackeray – está imenso calor -, instantâneos (aquele soutien-gorge push-up, explicam-me, na loja) -, as conversations galantes dos Ensemble Mirable, estou cada vez menos tolerante, mas sorri [- Quem? - O Diabo. - São muitos. - Atentam-te?], e adio para investir todo o equilíbrio nestas geológicas camadas de explicação do que é a vida, e um blogue, transformação contínua, a obra-prima do Marmelo, oh «Sedução»!, o Arnaldo Saraiva a explicar-me a diferença entre o romance e a novela, estou seguro, adormeço por instantes, e lembro-me dos piratas, e do comércio do cravo-da-índia e as Malucas e a Ordem de Santiago e «Os Portugueses e o Pacífico I», e não era nada ou era alguma da coisa que queria registar: um mergulho, uma fúria, aquele tipo com um urinar barulhento lá em cima.

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Edward Hopper, Night Window

A lógica disto não é nenhuma, mas sonhei-me oriental uma noite destas e vi claramente visto que a montanha não é mais importante que o vale, que tudo depende do ponto de vista – por exemplo, eu hoje comi pescada cozida, desequilibrei-me e pus um fio de azeite a mais, projectei-me, e então pensei no Derrida: ah! o Derrida da «Gramatologia» a falar na inflação do signo, na desvalorização da palavra «language», é verdade, «a crise também é um sintoma», mas depois olho para baixo e vejo que estou acordado e que a Armandina Maia voltou, corro a arranjar a maldita balbúrdia da minha cabeça, e começo a ler o João Melo, o angolano, diz assim no seu «O dia em que o Pato Donald comeu pela primeira vez a Margarida»: «Angola é toda a terra onde eu planto a minha lavra» e lembro aindamente daquela do escritor angustiado à espera da chegada do sucesso, talqualmente assim: «quilómetros de poemas, estórias, teses, ensaios… uma citação traduzida para romeno, um parágrafo inteiro aproveitado por um estudante galego e o sucesso, nada.»

Dizia anteriormente da pescada, que tinha batatas e couve-flor, mas sou um rapaz ordenado, só que instantaneamente mudo para ser compreendido, intersecto-me no dinheiro que o banco me desviou com licença passada em cartório, merda! que isto já vai longe de mais, está ali um pão perfumado, salso, e querem lambujar-me, eu não deixo, querem lá ver, na viela aprendem-se muitas coisas, assim de raspão, que o roçar não é antidecoroso, estranhos são os chaperons de certas alforrecas – fazem fru-fru, é um facto -, queres pensar no facto? Não, les nymphes, je les vois venir

Chegado aqui, tenho ainda muito por traduzir, e cuidar, vou piquenicando nas orlas, isso do marginal já alguém explicou. Escrevo tudo isto debaixo de um candeeiro sueco que por mero acaso é filipino. Encho o peito de ar, paro o escrever, aqui justificar-me é supérfluo. O produto deve ser moderado, é a qualidade a exigir de um pobre, boas noutes.

* Antonin Artaud, Le Pèse-nerfs

Telos 

O telos ou a trama possível  de uma história em que somos, ao mesmo tempo, actores, pacientes e narradores. Uma vida a ver e a rever episódios [«O Estado caloteiro», por João Távora] destes.  E a invocar uma espécie de «via sensata», uma eu zein ou «via boa», segundo Aristóteles, de que me fartei. É que, de facto, se há ofício em que nos vemos confrontados com os problemas da alteridade, da identidade, da memória e da história, é o da tradução. Mas serve esta breve introdução para fazer uma ligação entre o assunto e os temas da acção e da língua sob a forma da pluralidade das línguas e da fecundidade da tradução enquanto paradigma do ser e do agir em comum do ser humano.

Nada mais a propósito que a publicação de um artigo no «Le Monde Diplomatique», edição portuguesa (nº 31, Maio de 2009), da autoria de Alberto Manguel, titulado A tradução como leitura (e inversamente), vertido excelentemente para português por Júlio Henriques, que saúdo com tambores e pandeiretas: não é todos os dias que se fala em tradução.  Houve já muito boa gente a confessar-me só ter «olhado» para o assunto depois de – que horror, credo! – me «conhecer». Na página esquerda do artigo, precisamente ao lado, há notas de publicação de livros. Nomes de tradutores!? Nem vê-los. Sobre o artigo, não sei se direi mais alguma coisa. Se tiver paciência, quiçá. Não que o artigo o mereça, mas por uma razão, digamos, de trocas, de justiça ao falar do outro, à língua do outro, tão importante como a minha.

P. Ricoeur  dizia, e traduzo: «A pluralidade e, portanto, a discórdia, parece representar um dado inultrapassável [da condição humana].»

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Há pouco tempo, li num pasquim pomposamente apontado como um dos jornais de referência portugueses, descobertas recentes – por certo, de um manga-de-alpaca outra coisa não seria de esperar – sobre a existência de formas sexualmente especializadas chamadas «língua dos homens / língua das mulheres». Daqui lhe recomendo, por exemplo, uma leitura com trinta anos: A. M. Houdebine, «La différence sexuelle et la langue», in Langange et Société, MSH, 1979, Paris. Mas já em 1929, o linguista Edward Sapir descrevia o fenómeno em Yana, uma língua falada por alguns índios da Califórnia.  E em 1944, Mary Haas descrevia de maneira exemplar o sexolecto Koasati, cuja língua de base é feminina, sendo a masculina derivada, embora Geoffrey Kimball viesse a ter outra interpretação do facto. Segundo este, as formas masculinas serviriam de marcadores em fim de frase e utilizados pelos dois sexos. E poderíamos continuar a apontar nomes: F. Queixalas, S. Auroux, Pottier B., M. Yaguello, J. Kawaguchi e tantos outros. E o estado mais actual da arte: «Trente ans de recherche sur la différence sexuelle, ou Le langage des femmes et la sexuation dans la langue, les discours, les images», por Anne-Marie Houdebine-Gravaud, da Université René Descartes, Paris V.
Leia! E depois talvez possa concluir algo e não fazer números circenses. Não confunda «sexolecto» com outras coisas. E por fim, observe: olhe, sente-se numa esplanada e verá a profusão de sinais facultativos e intermutáveis que a maioria das vezes nada tem de linguístico. Poderá, então, fingir ser um locutor sagaz e convencer-me a comprar jornais segundo aquela máxima: «Ler jornais é saber mais».

Imagem: Chiarastella Cattana

Monólogo com o Eu ou a «Realidade» da cena primitiva?*

Res cogitans?Wunsch… Wunsch… Wunsch

Lebenstheorie
Wunscherfüllung

Dark Kontinent

… o prazer é menos uma finalidade que um princípio regulador de evitamento de desprazer…

E o Reich que dizia que a bioenergia era bloqueada de forma mais intensa na área pélvica?

«… to us he is no more a person
now but a whole climate of opinion.»

* W. H. Auden, «In Memory of Sigmund Freud»
(Nascido a 6 de Maio de 1856.)

Imagens: Piero Manzoni

«Resurrección en la tierra»

Crackery Crockery Plate no. 5 Ornamented Life

Crackery Crockery Plate no. 5 Ornamented Life

Mirar al cielo. Luego,
a la tierra. Decir
hay un sueño que espera ser soñado.
Un sueño espera ser soñado.

La boca seca. No hay
saliva. Alzar los ojos,
donde los gavilanes
y los misiles. No, los ojos
a ras de suelo,
donde la hierba,
entre la herrumbre,
donde la hierba arde
verde y poderosa.

He perdido las armas.
He tirado el escudo.
De entre todas las verdades elijo
una sola: la caricia del sol
en el tronco de mi alma
calcinada.

El Desencanto del Quijote, Chantal Maillard, que pode escutar-se aqui em Podcast.

Imagem: Joana Meroz

The Carnation Revolution, La Révolution des Oeillets, A Revolução dos Cravos

É verdade que não é chegada ainda a festa do Quinquagésimo Dia, mas sinto ser meu dever quebrar o jejum – sem emenda – para «disser alta voz amem, alleluya». É que, como tão bem disse John Cage, «I have nothing to say / and I am saying it / and that is poetry / as I needed it.»

Creio não estar enganado ter sido num fime de Ricardo Costa – a curta metragem (30′) – Cravos de Abril – A revolução democrática em Portugal – ilustrada pelo cartunista francês Maurice Siné, que vi uma cena de um cravo que era invariavelmente trucidado por um corta-relva. Imagem cândida, dirão uns, incauta, objectarão outros. Era a preia-mar de 1976.

Entretanto, o mundo evolveu – será culpa de Darwin? – e passámos à baixa-mar. Chegados a 1980, o mesmo Ricardo Costa fez uma grande metragem, Verde por fora, vermelho por dentro, cuja sinopse rezava assim: «Um homem de negócios de meia idade, um neo-liberal, regressa a Portugal pouco depois do 25 de Abril de 1974. Tecido em décors kitsch, o seu grande projecto é fazer uma plantação de bananas para ajudar a reconverter a economia nacional, abalada pela revolução. Falha. E até falha a própria morte, à qual “escapa” misteriosamente, ficando cadáver adiado. E o filme continua.» Pormenor não despiciendo, o dos décors: nas quintas de Vale de Lobos, em Santarém, do Alviela e do Gaio. Os interiores são filmados na casa de Alexandre Herculano, em Vale de Lobos.

rino

Hoje, 25 de Abril de 2009, o «progresso» é feito em cima da besta, e a abada – que como todos sabem é a fêmea do rinocerote e o chifre que o animal tem entre a testa e o focinho – dando às de vila-diogo, parece ser a metáfora do país futuro.

Voltando a John Cage: «As far as consistency of thought goes, I prefer inconsistency.» Porquê? – inquirirão. Porque Cage foi beber a Varèse, porque Varèse foi um precursor, porque Varèse escreveu, em 1931, «Ionização», a Revolução da Percussão. Como dizia: «O meu objectivo foi sempre o da libertação do som, abrir largamente à música todo o universo dos sons.»

A que vem a inconsistência? Ora se deambularmos um pouco pela história da música ocidental, constatamos que desde Bach a Brahms, a percussão, na orquestra, servia apenas para reforçar os acentos já contidos no discurso dos outros instrumentos, e na ópera cumpria um papel evocador ou descritivo. Já em finais do séc. XIX, a percussão passa a dar cor às obras. O tecido sonoro, elegante e luxuriante de um Strauss, de um Debussy ou de um Ravell, ganha riqueza com as castanholas, a celesta, a marimba, os tambores. No início do século XX, os compositores renovam o jogo dos instrumentos de percussão pela influência do folclore eslavo e da bateria dos grupos de ragtime. Stravinski e a sua «História do Soldado» terminando com um solo de bateria estrondoso, ou o andante do «Primeiro Concerto para piano» de Bartok, são bons exemplos disso. Estava por vir um mundo novo. Ao neoclassicismo das sonatas e dos concertos de Poulenc e Stravinski, então em voga, vai suceder-se o vigor e o fulgor de Varèse: Ionização. As figuras sonoras usadas por Varèse rompem com a escala tradicional, escala percebida, erradamente, como sendo O universo sonoro.

Liberta da sua função auxiliar dos instrumentos da orquestra e das vozes, a percussão ganha uma função singular. Mais do que serem escutados isoladamente ou remeterem para o folclore ou qualquer exotismo, os elementos da percussão traçam planos e volumes sonoros de densidades variadas, numa linguagem quase visual, desenhando autênticos corpos sonoros, «metamorfoseando-se, mudando de direcção e velocidade, atraídos ou repelidos por forças diversas», como disse um crítico.

gleizes-danseuses A termos de estabelecer uma analogia entre a música de Varèse e os artistas plásticos, Calder, Léger, Miró, ou Albert Gleizes dariam bem a ideia das suas preocupações e interesses, antecipando nisso a música electroacústica – anos 1950 – com as suas bandas magnéticas difundidas por altifalantes que projectam planos sonoros movendo-se no espaço.

Fecundo, Varèse mostra a força da percussão, extraindo dela novas e inusitadas sonoridades. E influencia outros grandes compositores, criando-se  assim um repertório rico com as obras de autores como Cage, Stockausen, Xenakis, Morel, etc.

A causa da «libertação dos sons» veio, pois, a ganhar novos e muitos outros defensores.

E o unicórnio – precursor – há-de gerar a Revolução da Percussão. Quero crer.

Imagens: Peter Beard, Black Rhino; Albert Gleizes, Danseuses

Êxtase pentecostal

«Lembro-me do que disse o oficiante: “Que sejais unidos para sempre no Espírito Santo”, e franzo um pouco o sobrolho porque Deus é fácil, e Jesus é fácil, mas o Espírito Santo sempre esteve para além da minha compreensão, e não estou bem certo de que me apeteça um ménage à trois com alguma essência supostamente benévola, na minha pobre cabeça de agnóstico, imagino-nos aos dois suspensos no plasma espiritual do Espírito Santo para a eternidade como uma conserva de melancia.

espirito-santo

No entanto, quando saímos da velha igreja de adobe naquele dia, tanto quanto podia dizê-lo, continuávamos a ser apenas os dois, somente tu e eu, delirantes como adolescentes num parque em noite de Verão; as nossas promessas eram um narcótico exótico envolto em plástico e muito enterrado nas nossas meias.

Lembro-me de que nessa noite nem sequer fizemos amor, mas que consumámos o matrimónio num sono doce e profundo. De manhã, havia leves rosetas de sangue na cama e percebi que os meus sonhos tinham cruzado a água misteriosa do sono e, com uma grande espada, havia atravessado a carne densa e mole do teu hímen para dançar contigo ao som de selváticos tambores.ghent_altarpiece_a_-_eve

E quando chegou a manhã, ali estava realmente o Espírito Santo, não tanto como um espírito, mais como um gato, sobre uma colcha, no antigo baú ao fundo da cama.

“Avança”, desafiou-me o Espírito Santo. “Toca-lhe.” Toquei-te e as paredes estremeceram como o balançar de uma velha choupana de mineiro na falha de St.º André.

“Espírito de merda”, disse eu, lembrando-me de que podia ser perigoso; tomei então consciência de que tinha blasfemado e fiquei receoso e embaraçado.

“Não faz mal”, respondeu-me o Espírito Santo. “Avança, não te preocupes. Não há perigo nenhum.”

Beijei-te então a orelha e a Aretha Franklin começou a cantar.

Tirei-te a T-shirt e a cama dançou um samba pelo chão.

Tu comentaste “isto é o máximo”, e eu disse “tenta”; beijaste-me nos lábios e logo as paredes do quarto se romperam, cobrindo-nos de pó de estuque e de pequenas nuvens de isolante  rosa e pedaços de vidro brilhante.

Envolvi-te o seio com a mão e mordi-te o mamilo e as traves gemeram de prazer e todas as crianças da vizinhança se reuniram em torno de nós no meio do entulho e dançaram de roda dando as suas mãos pequeninas umas às outras, delicadamente, como hamsters.

Toquei-te no ventre e apareceu Gedeão, entoando na sua trombeta um aleluia para o céu que estremecia.

Agarraste-te com força às minhas costas e caiu fogo do céu num grande estrondo, como napalm, sugando-me o ar dos pulmões e ardendo em combustão lenta em manchas de gelatina nas solas dos meus pés.

Acariciei-te o flanco e surgiram serafins despidos rindo-se, esvoaçando à volta de mim, lançando setas embebidas em morfina para as minhas nádegas.

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A luz penetrava no teu corpo nu como numa meda de feno acabado de cortar após a chuva. Parecias um despontar do sol no deserto, tinhas o mesmo sabor da sopa de quiabos e sassafrás e o odor das vagas que rebentam em Patrick’s Point.

Os pés brincavam com a tua pele e uma mão oculta serpenteou ao longo de um fio capilar a partir do meu cóccix, saindo do centro do meu crânio, arrancando, sem dor,  pedaços de tecido de cérebro que ficavam pegados aos meus cabelos como doce de raiz de alteia.

E quando te afastei as coxas, o céu abriu-se e dele desceu o próprio Deus com um chapéu de copa lisa e abas reviradas, tomou assento à secretária de um qualquer júri celestial, rodeado a toda a volta por bancadas repletas de ruidosos anjos embriagados.

“Não se importem comigo”, disse ao microfone.

Deixou-nos tão cheios do Espírito Santo que este transbordou de nós e escorregámos e deslizámos um pelo outro, com ele colado às bocas, vertendo uma luz líquida das nossas impressões digitais, pingando-nos das frontes e picando-nos os olhos, escorrendo-nos das axilas, das pernas e dos ombros, gerando-se uma santa desordem na cama.

Nós falávamos línguas. Nós rebolávamos, rebolávamos santamente nos lençóis. As nossas línguas estavam a tornar-se loucas com o êxtase pentecostal, as nossas línguas estavam epilépticas, as nossas línguas balbuciavam santos disparates., as nossas línguas estavam arrependidas de todo o pecado, as nossas línguas louvavam a Deus, as nossas línguas estavam baptizadas, as nossas línguas estavam lavadas no Sangue do Cordeiro, e as nossas línguas renasceram e tornaram a renascer.

E quando as nossas línguas deram testemunho do poder do Espírito Santo, ouvi estranhas palavras elevar-se ao Céu e abalar todos os fundamentos do universo, construindo-se, como um argumento, confundidas, como na Torre de Babel, ressuscitadas, como Jesus, emergindo da negra caverna das nossas almas.

E então fez-se de novo noite, e o Espírito Santo desceu sobre nós como uma pena, um leve peso que nos impeliu juntos na noite em direcção ao escuro ribombar de tambores, em torno de uma fogueira na floresta, ao longo de um tumultuoso rio de sono.

E enquanto era levado lentamente das águas da nascente  do Espírito Santo, lembrei-me do que dissera o oficiante: “Que sejais unidos para sempre no Espírito Santo”, e puxei-te mais para mim e murmurei com a minha língua muito, muito cansada: “Oh, querida, ámen”.» Carson Reed, Speaking in Tongues, «Yellow Silk», #45

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagens: 1 – imagem manipulada do Espírito Santo do retábulo de Ghent, painel da Anunciação; 2 – do mesmo retábulo, Eva, do painel antes de ser alterado; 3 – Ron Terner, s/t;

Logocentrismo – III

«Termo cunhado pelo filósofo francês Jacques Derrida, que critica o pensamento ocidental por sempre ter privilegiado o logocentrismo, isto é, a centralidade da palavra (“logos”), das ideias, dos sistemas de pensamento, de forma a serem entendidos como matéria inalterável, fixadas no tempo por uma qualquer autoridade exterior. As verdades que o logocentrismo ou “metafísica da presença” veiculam são sempre tomadas como definitivas e irrefutáveis. O discurso oral de uma autoridade também tem sido entendido como uma fonte fidedigna de construção do sentido, o que faz com essa mesma tradição ocidental seja dominada por um fonocentrismo insustentável. A autoridade exterior à linguagem que os autores tentam prevalecer não faz sentido quando não pode existir nada fora da linguagem, como defende Derrida em De la grammatologie (1967); logo não há nada fora do texto (“il n’y a pas de hors-texte”), não há nenhuma autoridade que possa fixar o sentido de um texto para além do próprio texto. Contra a falácia do logocentrismo e do fonocentrismo, Derrida defende a existência da escritura (écriture), que não está sujeita à autoridade de quem escreve. Um texto vale pelas diferenças que veicula, porque tudo nele é diferição e diferenciação de sentido, duas circunstâncias que Derrida junta no neologismo différance. O sentido de um texto está sempre adiado, nunca pode ser fixado e só a participação no jogo desconstrutivo pode aproximar-nos da verdadeira compreensão do texto, porque, afinal, toda a linguagem é metafórica, ou seja, está sempre a denunciar aquilo que não é.

Na literatura actual, por exemplo na chamada ficção avant-pop e em muitas metaficções pós-modernas, é costume colocar a linguagem como protagonista da história. Tanto faz existir uma estação de televisão que passa 24 horas de notícias e uma outra que passa 24 horas de música como existir um romance que começa com uma letra minúscula e acaba com uma frase sem pontuação final. O logocentrismo que assiste a esta lógica de construção ficcional não é exclusivo do nosso tempo, pois é possível, a partir dele, reescrever a história da literatura, começando em Apuleio, passando por Tristram Shandy e Moby Dick, Finnegans Wake e Finisterra, Gravity’s Rainbow e Mau Tempo no Canal, etc…» Carlos Ceia

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«Os prémios literários tornaram-se uma caricatura

A cerimónia de entrega do Prémio Leya teve o alto patrocínio do Presidente da República. Tal caução está no lugar de uma falta: a da instituição literária que legitime, consagre e assegure a existência pública do prémio. Projectados para um exterior que nada tem a ver com a literatura ou sujeitos às composições dos grupos e às afinidades tácticas e estratégicas que se criam no interior da “vida literária”, os prémios tornaram-se o episódio mais degradante do território sem autonomia a que outrora se chamava República das Letras.
A questão, hoje, já não é a de os prémios serem justos ou injustos (foi ainda nesses termos que Musil se referiu a eles e fez a caricatura do Grande Escritor), mas a de já nem se saber quem os outorga, o que eles visam e a que público (dos leitores?, dos consumidores?) é dirigida a publicidade a que os prémios aspiram. Há um longo capítulo da sociologia da literatura contemporânea que deve ser dedicado à progressiva deslegitimação dos prémios, o que levou, aliás, a uma situação frequente: o júri de hoje será o premiado de amanhã e vice-versa. Não se trata de ‘corrupção’: é a lei do estreitamento do Universo.»

António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Actual, 10 de Abril de 2009

Dispenso-me de sublinhados, cada um faça o seu. Ámen!

Imagem: Philippe Lemaire, Quand le monde paraissait stable et ordonné

Nas malhas dos textos – XXVI

«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos» – 9ª e última parte, por Juan Asensio

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O hermetismo, esse falso segredo, só pode conduzir ao desespero e, por fim, ao suicídio, que parece ser o seu corolário infernal. Monsieur Ouine, vê-lo-emos, não se suicida nem desespera porque o seu hermetismo, pela sua lógica inflexível, pelo seu apuramento, apresenta semelhanças com a lógica inexcedível de Satanás. O suicídio do maire de Fenouille é apenas sugerido por Bernanos (I, 1527) e parece infirmar o pensamento de Kierkegaard segundo o qual aquele que fala evita o suicídio (59); maire que, apesar de não ter tido falta de interlocutores, acaba, ainda assim, por já não suportar mais aquela espécie de monstruosa natureza que lhe faz sentir o cheiro imundo do universo, certamente porque não consegue extirpar do seu espírito doente a nostalgia da pureza, pureza que a sua obsessão doentia lhe recusa. O hermetismo de Monsieur Ouine é completamente diferente, assemelha-se a uma espécie de desespero permanente, um desespero cristalizado, de que é presa cruel, e que Gabriel Marcel definiu por estas palavras: «O desesperado não contempla apenas, não tem apenas diante de si essa repetição melancólica, essa eternização de uma situação que o paralisa como um barco preso no gelo; por um paradoxo dificilmente concebível, ele antecipa essa repetição, ele vê-a no próprio instante, e tem ao mesmo tempo a amarga certeza de que essa antecipação não o livrará de continuar a viver a provação todos os dias, indefinidamente, até àquela destruição que, a falar verdade, também antecipa, mas não como um remédio: como uma suprema afronta ao desaparecido a que o seu luto garantia ainda, apesar de tudo, uma aparente sobrevivência.» (60) O suicídio pode, pois, parecer, aos olhos do infeliz, a única forma de quebrar o fechamento; Marcel fala de «encanto» maléfico, o círculo que o desespero permanente parece criar indefinidamente à sua volta; poderíamos assim dizer, com Jean-Luc Marion, que ele é «a figura terminal da lógica do mal» (61). Há outra, essa consumpção final que evocámos no nosso artigo ao examinar as relações entre as obras de Bernanos e Conrad, consumpção que é o resultado de um fechamento ou hermetismo absolutos. A este respeito, a aparente banalidade da personagem do antigo professor de línguas é como que a prova e o resultado do enclausuramento a que se entregou: deste modo, Jean-Luc Marion afirma que se não podemos, «para constatar a sua existência, encontrar alguma vez Satanás, a impossibilidade advém, sem dúvida, do fechamento inultrapassável de Satanás […]. » (62) Assim, Satanás, como Ouine, é o idiota absoluto, palavra cuja etimologia nos convida a pensar a íntima relação existente entre uma inteligência viva e a vontade de se perder (63), de mergulhar irremediavelmente no abismo desse ciclo derradeiro, esse malebolge dantesco que «o encerra numa solidão tão absoluta, numa identidade tão perfeita, numa consciência tão lúcida e numa sinceridade tão transparente consigo mesmo que se torna a negação absoluta da pessoa – o perfeito idiota (64)». O idiota absoluto é, pois, também a última fase do hermetismo que, porque se espiritualizou, isto é, aqui, radicalmente interiorizado (65), pode, em absoluto, tomar qualquer aparência exterior, mesmo a mais banal: Monsieur Ouine tem «um aspecto vulgar» (I, 1386) e é essa banalidade que em Bernanos esconde a perversão maior, mais espiritualizada, mais essencial, no sentido primeiro da palavra. (66) Uma passagem do Journal de Kierkegaard intitulada Que significa comprometer a alma? ilustra bem o destino do antigo professor de línguas: «Se conseguisses tecer à tua volta, e à volta de tudo aquilo de que gostas, uma rede tão fina que nada conseguisse penetrar nela, nem perigo, nem… – e vivesses em segurança nessa fortaleza – mas comprometesses também a tua alma… Há uma corrupção exterior que salta à vista de todos – mas há outra que corrói em segredo as forças da alma.» (67) É por ter construído essa fortaleza inexpugnável que o encerra e aprisiona que compreendemos que a palavra de Ouine não pode atravessar a orbe impenetrável; ao contrário do que diz Chrétien (68), o demoníaco não perde a palavra mas, pensamos nós, como o verdadeiro buraco negro, e procurámos mostrá-lo, deixa o universo impregnado de luz. Ouine, essa «fascinante zona de desabamento» como lhe chama Jean-François Migaud num artigo notável (69), deixa um mundo inundado da palavra, carregado dela, porque, interroga-se Chrétien, como «seria ele tão estranho ao verbo, ele que não subsiste, segundo a fé, senão pelo Verbo?» (70) E Ouine, teríamos então o direito de perguntar, como poderia ele comprometer-se a ponto de existir fora do Verbo?

«Deus está tão próximo de Belzebu como do Serafim,

A não ser que Belzebu lhe vire as costas.» (71)

Não procuraremos, como alguns fazem (72), «reabilitar» Monsieur Ouine, dar-lhe aquilo que poderíamos chamar um «fim honroso», resgatá-lo sem grande custo. Há um certo impudor, de facto, quando se trata do destino de um ser de papel, em inflectir uma agonia mais numa direcção que noutra. Principalmente, vemos nestas leituras «post-mortem» uma flagrante falta de rigor hermenêutico, uma manifesta infidelidade à complexidade do texto, à sua forma suspensiva (73): da sorte de Monsieur Ouine, dissemo-lo, o leitor nada pode conhecer, visto que o horizonte em que se fecha é o de uma palavra que se esgota, que se extingue, que se consome e sucumbe, sob o seu próprio peso, poderíamos dizê-lo, não deixando atrás de si qualquer vestígio, qualquer informação susceptíveis de nos indicar o que há nesse lugar que o seu desaparecimento cavou, aberto enquanto dura a agonia e depois fechado para sempre. Devemos, no entanto, confessar que, de uma forma um pouco inconveniente, também nós pensámos concluir este artigo adoptando a categoria kierkegaardiana da «Reparação» ao destino de Ouine, embora, evidentemente, esta noção fosse mais útil e pertinente no caso de um Cénabre (74), salvo, resgatado por Chantal (75) e Chevance. (76) Reparação, enquanto movimento de avanço, o oposto até do «recordar», que, segundo o filósofo, é «uma acção de recuo» (77) à qual poderíamos associar o peso do passado, a «obsessão com o passado» (78) que parece condenar Ouine à repetição escusada e ao repisar contínuo; reparação enquanto salto de fé, rasgo que produz, na actual manifestação de tédio, a novidade incessante da eternidade, a ampliação ontológica de um presente que seja presença pura, presença real, iminência de fé. Renunciámos, contudo, a uma interpretação que, perfeitamente autorizada pela filosofia de Kierkegaard, tivesse acrescentado uma interpretação mais ao cortejo desssas explicações que se ufanam de pronunciar-se sobre um destino que, não obstante, continua rigorosamente insuspeito para elas. E fizemo-lo para inflectir a nossa reflexão para aquilo que se mantém impensado nesta obra de Bernanos. Parece-nos assim que o comentador de Monsieur Ouine que seria mais consequente com a própria ambiguidade do texto seria aquele que, para a personagem epónima, estabelecesse um espaço inédito, fizesse da sua agonia uma leitura absolutamente paradoxal, escandalosa, portanto, no sentido primeiro do termo que designa uma pedra na qual tropeçamos, mas também o verdadeiro sal de toda a fé: por leitura paradoxal, entendemos o facto de dizer que o antigo professor de línguas é o Cristo. «O paradoxo absoluto», assim escreve Sören Kierkegaard, «seria o filho de Deus fazer-se homem, vir ao mundo, viver nele de maneira a passar despecebido de todos, sendo estritamente um indivíduo como os outros, com um ofício, uma família, etc. […] Nesse caso, Deus teria sido o supremo ironista […].» (79) O paradoxo absoluto seria que Ouine, mais que um falso Cristo ou um Cristo invertido, fosse o próprio Cristo, mas um Cristo fechado no mutismo de uma palavra perdida, o Cristo apofático (80), negativo por excelência; o paradoxo absoluto do hermetismo demoníaco seria, por conseguinte, que a própria abertura ao Bem permanecesse absolutamente incógnita, oculta, como um fechamento perfeito. É preciso, portanto, a propósito do último romance de Georges Bernanos, procurar ir mais além daquilo que foi avançado, por exemplo, por Max Milner, que escreveu: «[…] do ponto de vista filosófico ou teológico, parece-nos que [a] cena [da agonia de Monsieur Ouine] é exactamente a inversão da Paixão, na medida em que, por exemplo, na agonia de Cristo e na de qualquer cristão, […] o parecer se junta ao ser, quando, para Ouine, o ser se funde, pelo contrário, no parecer. O cristão funde-se em Deus, Monsieur Ouine incorpora o seu ser no não-ser.» (81) É preciso ir mais longe constatando, com Ernest Beaumont, que Monsieur Ouine, evidentemente, «não está menos impregnado da pessoa de Cristo» (82), ligando essa presença irrecusável à sua ausência manifesta, como que em vazio, à semelhança de um molde que nada é sem o metal que virá a revelar a sua forma oculta. A rigidez de mármore de Ouine cadáver não é, finalmente, senão a concretização puramente exterior de uma reclusão espiritual rigorosa, a tal ponto hermética que o leitor do romance de Bernanos experimenta, mais que uma polissemia muito apreciada pelos nossos contemporâneos, uma suspensão da sua apreciação, uma “enigmaticidade” absoluta quanto à sorte de Ouine. Pierre Gille procurou, a nosso ver, pensar aquilo que podia ser essa identidade rigorosa, essa coincidência absoluta entre os opostos, quando escreveu: «Talvez não soubesse existir palavra verdadeira, nessa morte da Palavra, senão a que se inscreverá, como a cinzel, sobre o corpo rígido e enfim silencioso do morto.» (83) Não podemos, pois, dizer que o drama de Ouine seja o de ele próprio ter ignorado a sua estranha forma de eleição infernal: como o olho que não consegue ver-se, só demasiado tarde Ouine consegue compreender que o seu próprio segredo é completamente inexistente, que é o próprio vazio, não a Palavra mas a sua própria extinção, a sua anulação, uma «logofagia», poderíamos nós dizer, virada contra si mesma. O ser infernal que mais próximo está de Cristo, na obra de Bernanos, é indubitavelmente Ouine, o qual, como o Fausto de Pessoa, teria podido fazer suas estas palavras: «Sou o Cristo negro, / Pregado na cruz ígnea de mim mesmo. / Sou o saber que ignora» (84), com uma ressalva, mas de monta, mas ontológica: o antigo professor de línguas vira resolutamente as costas ao Salvador.

A 1ª parte pode ser lida aqui. A 2ª parte aqui. A aqui. A aqui. A aqui. A aqui. A aqui. E a aqui.

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Noronha da Costa

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(59) Gabriel MARCEL, Homo Viator [sem tradução portuguesa] (Paris, Association Présence de Gabriel Marcel, 1998), p. 54.
(60) Jean-Luc MARION, loc. cit. 1, pp. 24-5.
(61) Ibid., p. 36.
(62) Traité du désespoir, op. cit. 8, p. 131 : «Quanto mais o desespero se impregna de reflexão, menos é visível neste mundo, ou menos se encontra.»
(63) Ibid., p. 38.
(64) Como precisa Kierkegaard ao escrever: «Mas à medida que se espiritualiza, cada vez mais, por prudência demoníaca, quer ocultar-se sob o hermetismo, e, por consequência, tomar formas ordinárias, o mais insignificantes e neutras possível», Traité du désespoir, op. cit. 8, p. 155, e ainda, pp. 154-5 : «As formas mais baixas do desespero, sem interioridade real ou sem nada a dizer absolutamente, devíamos representá-las limitando-nos a descrever ou a indicar com uma palavra os sinais exteriores dos indivíduos. Mas quanto mais o desespero se espiritualiza, mais a interioridade se isola como um mundo encerrado no hermetismo, mais indiferentes se tornam as aparências sob as quais o desespero se esconde.»
(65) Como o lembra justamente Claude-Edmonde Magny, escrevendo que «Monsieur Ouine […] é sempre apresentado indirectamente e como escondido pelo próprio gesto que o mostra […], através das suas próprias conversas, que no-lo ocultam mais seguramente que o silêncio por causa da protecção perfeita que constituem a sua bonomia, a sua aparente gentileza […]», EB 5, pp. 9-23, p. 21.
(66) Journal, op. cit. 10, III A 139, p. 230.
(67) Cf. loc. cit. 1, p. 161 : «Perder a palavra é evitá-la ou recusá-la […].» Ouine, pelo contrário, não pára de falar.
(68) Jean-François MIGAUD, «La nuit du Faussaire. Réflexion sur Monsieur Ouine» in Paradoxes et permanences de la pensée bernanosienne [sem tradução portuguesa] (sob a direcção de Joël Pottier, Paris, Aux amateurs de livres, 1989, pp. 108-129), p. 115.
(69) Jean-Louis CHRÉTIEN, L’arche de la parole, op. cit. 3, p. 175.
(70) Angelus SILESIUS, L’errant chérubinique [O Peregrino Querubínico, tradução brasileira] (Lac Noir, Arfuyen, 1993) no dístico «Dieu est de tout également proche», p. 172.
(71) Por exemplo, de um Guy Daninos no seu artigo «Monsieur Ouine, le roman de l’espérance » in Paradoxes et permanences de la pensée bernanosienne (op. cit. 68), p. 101 : «É lícito supor que M. Ouine seja resgatado no fim da sua longa e dolorosa confissão, tanto mais que teve o mérito de explorar a sua alma sem a menor complacência.» William Bush, designadamente em Souffrance et expiation dans la pensée de Bernanos [sem tradução portuguesa] (Paris, Minard Lettres Modernes, «Thèmes et Mythes», n°8, 1962), p. 94 : «A fome que perturba M. Ouine na morte, reconhece-a ele como a fome que só Deus pode satisfazer, fome saciada até aí pelos segredos das jovens almas que tinha devorado? Quando cai em si, não está M. Ouine a esforçar-se por renascer?». Em L’angoisse du mystère Essai sur Bernanos et M. Ouine (Paris, Minard Lettres Modernes, «Situation», n° 11, 1966), p. 185, onde o autor escreve esta frase significativa: «Piedade, pois, para M. Ouine».
(72) A este respeito, as palavras lapidares de Jean Bollack deveriam ser meditadas com proveito: «Não há censura mais forte que a celebração, principalmente se o conteúdo dos textos for crítico», in Sens contre sens. Comment lit-on ? Entretiens avec Patrick Llored [sem tradução portuguesa](Genouilleux, La passe du vent, 2000), p. 172.
(73) Cénabre, ao qual esta observação de Kierkegaard se aplica claramente: «Não poderíamos conceber alguém, capaz de viver toda a sua vida no incessante tormento de não ter fé, e a quem seria preciso dizer, e a quem diríamos: Mas, meu caro, tu tinhas fé, e  a tua inquietação não foi senão a dor da interioridade. » in Journal, op. cit. 10, VI A 107, p. 363.
(74) Do papel de Chantal, poderíamos escrever aquilo que Kierkegaard escrevia do papel da noiva em La Reprise: «Religiosamente falando, tudo se passa como se o próprio Deus se servisse dessa jovem para […] cativar [o seu noivo]. » in La Reprise (sob o pseudónimo de Constantin Constantius) (Paris, trad. e notas de Nelly Viallaneix, Flammarion, 1990, « G.F. »), p. 129. Para uma definição da reparação, cf. esta mesma introdução de Nelly Vialllaneix, p. 19 : «A reparação mais não é que esse novo nascimento, esse renascer, essa vida nova, esse recomeço. É uma categoria religiosa por excelência, uma categoria religiosa cristã.»
(75) Pierre Boutang evoca os complexos laços que, em sigilo, unem Cénabre, Chevance e Chantal ao escrever: «Nos dois pólos encontram-se o abade Cénabre e Chantal de Clergerie ; o abade Cénabre, em quem o orgulho do «mesmo», de ser criado para a salvação, faz esquecer e depois negar a possibilidade radical de se perder, e com isso toda a fé de ser criado; Chantal [...] sobrenaturalmente submetida a esse fatum e a essa graça de depender, para a sua salvação, das coisas mais pobres e mais pequenas do mundo. Entre eles diversos graus de segredo, segundo a modalidade, esquecida ou consciente da salvação, segredo do pecado para Mme. de Clergerie, segredo da angústia na agonia no abade Chevance.» in Ontologie du secret, op. cit. 29, p. 142.
(76) La Reprise, op. cit. 73, pp. 65-6.
(77) Segundo o título de um artigo de Paul Gregor in EB 5.
(78) Journal, op. cit. 10, IV A 103, pp. 278-9.
(79) Philippe LE TOUZÉ, Le mystère du réel dans les romans de Bernanos. Le style d’une vision [3.ª parte da tese] [sem tradução portuguesa] (Paris, Librairie A.-G. Nizet, 1979), p. 31 : «Em Monsieur Ouine, […] o itinerário da redenção não está ausente da estrutura, está presente em negativo».
(80) Max MILNER, Georges Bernanos, op. cit. 44, p. 598.
(81) Ernest BEAUMONT «Le sens christique de l’œuvre romanesque de Bernanos», EB 3-4, pp. 88-100, p. 97.
(82) Pierre GILLE, Bernanos et l’Angoisse (Nancy, Presses universitaires de Nancy, 1984), p. 306.
(83) Fernando PESSOA, Faust [Primeiro Fausto, Primeiro Tema, XXI] (Paris, Christian Bourgois, 1990), p. 162.

Heterodoxia(s)

«[...] Os documentos nunca esclarecem directamente senão as ideologias que correspondem aos interesses e esperanças das classes dirigentes…» Georges Duby

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Seguindo o interessante estudo artístico de P. G. Barbosa e F. A. Baptista Pereira, publicado na revista Prelo, nº 2, Jan/Mar/1984, pp. 41-58, que se inicia com algumas considerações algo «batidas» – vejam-se AA como Enrico Norelli, Martin Hengel, Marie Boismard, Pierre Geoltrain, Daniel Marguerat, Hyam Maccoby et all. – tecidas a propósito das várias heresias, dos problemas das duas naturezas e outros, vamos directamente ao que nos interessa aqui reter: as «verdades» ortodoxas vs heterodoxias (desvios ou heresias). Passamos, pois, a citar alguns excertos que mais respeitam às interpretações traduzidas iconograficamente da morte e ressurreição, sendo que esta última palavra, no Novo Testamento, nem sequer existe, pois os verbos utilizados são dois, um que quer dizer «despertar» e outro «levantar». Adiante:

«Nos séculos XII e XIII as representações iconográficas da Deposição e da Ressurreição de Cristo não possuíam uma longa tradição na arte ocidental (…). Ainda que por razões diferentes, a Deposição e a Ressurreição constituíram, nesses tempos, verdadeiras novidades iconográficas (…). No caso da Deposição, e em especial do momento da Lamentação tratou-se, de facto, de uma novidade do século XII que, só a partir do XIV, se tornou um dos temas favoritos da arte e da própria encenação da morte como espectáculo. (…) entre a morte de Cristo no Gólgota e a sua deposição no túmulo novo que existia perto, cristalizaram-se na iconografia vários actos: a descida da cruz, em que o corpo de Cristo está na vertical, a Deposição propriamente dita, em que o corpo de Cristo está estendido (cena que antecede a lamentação e a deposição no túmulo (envolvendo essa a unção do cadáver, o sepultamento e o amortalhamento). A imaginação artística não recuou perante este desdobramento temático glosando-o em numerosas versões, principalmente ao longo dos séculos XIV e XVI (…).»

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«Insistiu-se então nos sofrimentos de Cristo, nos ultrajes e nos flagelos de que foi alvo, em contraste com o que acontecera até ao século XII, em que se escolhiam, na representação da vida de Cristo e mesmo na Paixão, os temas de glorificação, mais do que os que revelavam um Cristo humilhado ou acabrunhado. Esta mutação na sensibilidade religiosa do Ocidente, preludiando e preparando os grandes movimentos de rectificação religiosa da Cristandade, a partir dos séculos XIII-XIV, particularmente no Norte da Europa, proporcionou o aparecimento da nova iconografia em que o sacrifício de Cristo passará a desempenhar o papel fundamental na justificação e modelação dos comportamentos.
São numerosos os vários casos de Deposição na pintura dos séculos XV e XVI, quase sempre representados pelas variantes Descida da Cruz, Lamentação (Pietà) e Deposição no Túmulo (…) sendo sensível a sua influência em retábulos portugueses ou luso-flamengos do primeiro quartel do século XVI (Capela do Esporão da Sé de Évora, altar-mor de S. Francisco de Évora, Sé de Viseu, etc.).»

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«A cena da Deposição-Lamentação foi particularmente glosada na fórmula da Pietà, tanto na arte flamenga como na arte italiana. Segundo Réau, o primordial factor de influência no extraordinário favor deste tema terá residido nas lamentações fúnebres populares e nos Mistérios.
A referência na Crónica de D. João I de Fernão Lopes às práticas populares de lamentação fúnebre, a propósito de uma determinação da Câmara de Lisboa considerando-as não-cristãs e proibindo-as, levam-nos a aceitar plenamente a justificação de Réau para o caso português. O tema da Deposição, na variante que se nos apresenta na tábua de Setúbal, foi quase repetido no Retábulo de Ferreirim, obra da responsabilidade de uma parceria que integrava Cristóvão de Figueiredo, “parceiro” a que é atribuída a responsabilidade da Série da Paixão de Setúbal.»

Imagens: Retábulo de Setúbal, «Deposição», pormenor: S. João Evangelista apertando o nariz; idem, busto de Cristo morto (insertas na revista acima citada); Enguerrand Quarton, Pietà de Villeneuve-lès-Avignon

O tempo, a casa, as mãos: «Levanta-te e examina também a ampliação fotográfica (…) que reproduz essa mesma paisagem: a moldura dá-lhe um enquadramento semelhante; falta-lhe porém a cor real, e o tempo distinguiu a imagem (…).» *

cumprir-se-á a grandeza do destino

A Ilusão de Ser Sui Generis e Único - II

sinto os ossos do ressuscitado. a realidade idiomática. a geografia do buscado.
occipital colectivo, uma lança num país de bugalhas sobre os costumes. brandos são os enganos. «deus dá o frio conforme a roupa.» estopa, linho, lã. já plínio, pois então:
textor, staminaria, lusitaniae. gracioso requebro o manto de terpsícora.
que é feito da casa portuguesa? com certeza: este verão verei veneza. adeus
tardes cinzentas, a que horas é o rápido?
ah não fora os mouros entrarem em Portugal, mais pura seria a língua!
vários são os homens e os maniganços que os guiam.
soluço de quimeras, as mulheres rezam com três baralhos o purgatório.
recordo o silencioso tempo em que partirei.
pela alva a cotovia há-de entoar o brado da luz.

Da série Trans-Figurações.

Imagem: colagem de Carlos Sousa de Almeida

* Sequência transcrita de Finisterra, de Carlos de Oliveira, de cujas obsessões faço eucaristia e alvíssaras.  Peço-lhe, leitor, indulgências plenárias, atormentado ando com os duros suplícios desta Lisboa no ano Três Mil –  com as «revelações arqueológicas obtidas pela hipnose» do meu aio Cândido Figueiredo – e ciliciado com a Páscoa Feliz do Miguéis – esquecei rituais e bichos empalhados de museu, deus-nos-acuda -, mas por longe que vos pareça, estoutras disciplinas transcendentais têm constituído espórtula bastante para que atinja os astros, sinta as bem-aventuranças e, com tão espinhosa coroa,  creio firmemente reaparecer ao terceiro dia.  Assim seja, haja religião.

Logocentrismo – II

Logocentrismo «Termo usado nas obras pós-modernistas para criticar aquilo que se pensa ser uma confiança excessiva na estabilidade do significado, ou uma preocupação excessiva com as distinções conceptuais, com a validade das inferências, com o uso cuidadoso da razão ou com outros instrumentos tradicionais para destrinçar a verdade da falsidade – ou até mesmo uma confiança excessiva nas próprias noções de verdade e falsidade.» in Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia

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Imagem: Colagem de uma fotografia de Ouka Leele e um retrato de Rogier van der Weyden para cartaz da exposição 80 + 80, fotografismo, organizada pelas galerias Vu e Anatome

Nas malhas dos textos – XXV

«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos» – 8ª parte, por Juan Asensio

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Em La Joie [sem tradução portuguesa] (I, 688) Cénabre diz a Chantal que o segredo de uma alma, de uma consciência, as compromete: «[...] a importância de um segredo avalia-se pelo seu peso, pelo peso que tem na vossa vida, pelo modo como a compromete». Compromisso que seria evidentemente falacioso confundir com uma perda de liberdade; é precisamente o contrário que se dá, visto que o segredo de Chantal, essa alegria que faz a jovem parecer uma santa, é garantia e prova de completa liberdade, «vínculo misterioso em que o ser se abre», como diz Michel Estève em nota (I, 1829, nota da p. 688). Em Monsieur Ouine, o segredo, pelo contrário, é potência deletéria, e não é senão ilusoriamente, para o professor de línguas, o núcleo mórbido em torno do qual a sua personalidade vai poder reconstituir-se: «Preciso de um segredo», diz ele, «[...] o mais frívolo que possa imaginar [...]. Sinto que me reconstituirei [...]» (I, 1555), como, sem razão, espera. A sua pessoa retorna ao nada e, perante o vazio que o consome, só uma efémera reconstituição em torno de um segredo pode retardar-lhe a morte: «Um segredo», diz também a Steeny, «ou seja, uma coisa secreta que valha a pena confiar [...]» (Ibid.). Já não é a dimensão do compromisso que aqui se impõe, mas apenas a possibilidade de uma personagem estabelecer com outra uma relação falsa, visto que baseada no móbil da curiosidade. As relações que unem Monsieur Ouine e Steeny existem com a condição de não serem reveladas; segredo íntimo, orgânico, que une o professor e o adolescente, correspondendo Monsieur Ouine «de uma forma maravilhosa àquilo que ele menos conhece de si próprio, a uma parte de si próprio [...] secreta [...] » (I, 1420). Laço secreto que une o aluno ao seu mestre, laço secreto igualmente que retém Steeny no domicílio do dito professor: «Agora desistiu de perceber que força o retém aí, que encanto, que deus secreto, mais secreto que qualquer dos que outrora lhe falavam [...]» (I,1529). Por fim, se o segredo mantém os laços entre personagens, não o faz, sem dúvida, senão artificialmente: de facto, a sua consistência logo se revela ilusória. Monsieur Ouine di-lo a Steeny (I, 1364): «Os seus segredinhos andam aí por toda a parte [...] vão e vêm como noutros tempos, repetem indefinidamente as mesmas histórias, esquecendo que o escaninho está vazio.» Paradoxalmente, talvez seja Steeny quem mais esteja consciente desse vazio: ele declara a Monsieur Ouine (I, 1553) que este não tem qualquer necessidade dos seus segredos, sem dúvida porque, à semelhança da garrafa vazia que ilustra a parábola contada pelo jovem (I, 1549), os segredos não passam de fumo, de mentira que, como afirma Pierre Boutang, «faz parecer o que não é [...]; já não é então [...] reserva, mas livre aparência, já não há ligação ao ser, mas ao não-ser e com ele coincidindo [...]» (57)

O segredo, sendo afinal vazio, tem o poder de fazer crer àquele que o alimenta que lhe pode dar alguma consistência, pervertida e egoísta, uma vez que vai obrigar o interessado a proteger esse núcleo que julga ser o tesouro da sua personalidade: dessa realidade vai resultar uma dupla consequência. Antes do mais, a personagem vai encerrar-se em si própria: deixará de poder comunicar com o outro – o próprio termo usado por Monsieur Ouine, «confissão», diz bastante do carácter constrangedor, violento, que se liga à comunicação, ou melhor, à extorsão do segredo. Encerrado assim em si próprio, o ser irá manifestar essa modalidade demoníaca que Kierkegaard designa hemetismo. A outra consequência é o facto de, assim, o segredo se opor à transparência, a esse ideal de uma luz recebida e oferecida por sua vez pela personagem. Em La Joie (I, 603), Chantal dirá: «Quão transparentes se tornam os santos! E eu, eu sou opaco, eis o mal [...]. Seria preciso ser cristal, água pura. Seria preciso ver Deus por eles.» Certamente que o santo bernanosiano não provoca então, como vítima de uma pureza escandalosa, uma curiosidade grandemente agradável; esta motiva a conduta de Monsieur Ouine: uma curiosidade diabólica porque, para Bernanos, unicamente animada pela inteligência, desprovida de amor. (58) O estranho, ou antes, o paradoxal, visto que o segredo é vazio, advém «do segredo dos miseráveis», segundo Monsieur Ouine, que «nem a curiosidade nem o amor alcançam» (I, 1467); segredo de uma curiosidade deletéria que Monsieur Ouine não pode revelar [...] a ninguém», atinge-o «um mal-estar inexplicável» ao simples contacto com uma «reunião de homens» (I, 1471) curiosidade intelectual que outra coisa não pode fazer senão arrancar um segredo àquele que o possui, ainda que o pároco do Journal afirmasse (I, 1145) que «só Deus conhece o segredo das almas [...]».

A 1ª parte pode ser lida aqui. A 2ª parte aqui. A aqui. A aqui. A 5ª aqui. A 6ª aqui. E a 7ª aqui. (continua)

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Flávio-Shiró, L’Oeil écoute la nuit

_______________________
(57) Uma curiosidade perversa é sempre, para Bernanos, sinal de uma inteligência fria e sem amor, sinal, no fim de contas, de um orgulho satânico. Lembremos que a personagem Cénabre, em comparação com os santos dos quais conta a história, tem apenas um interesse intelectual: «Acho que ele não ama, dizia [o abade de Saint-Genest]. Nem gosta de si próprio…» (I, 363). Curiosidade à qual Bernanos dá, portanto, um sentido teológico, definido deste modo por Hans Urs von Balthasar: «um saber sem amor [...], esta impaciência daquele que está ansioso por possuir, desde logo, qual fruto proibido, uma visão que só a graça divina pode conceder.» in Le Chrétien Bernanos [sem tradução portuguesa] (Paris, Seuil, 1956), p. 108.
(58) Traité du désespoir, op. cit. 8, p. 145: «O comum dos homens não suspeita minimamente daquilo que um tal hermético [Kierkegaard com o caso de um taciturno] consegue suportar; se o soubesse, ficaria estupefacto. Tanto assim é que, primeiramente, corre o risco de suicidar-se. Que fale com alguém, pelo contrário, que comunique com alguém, e então sentirá, quase infalivelmente, um tal descanso, um tal apaziguamento, que o suicídio deixa de ser a saída do hermetismo.» Sublinhamo-lo.

O coice da crise

Não desejo que tomeis isto como um artiguelho de auto-ajuda. O Paulo Coelho e outros teriam muito mais êxito do que eu. É claro que a palavra palpita ao vento, qual loureiro entrançado em coroa: as televisões e os jornais – por dez réis de mel coado – estão cheios de coisas magníficas.

kanagawa-estacao-nc2ba-4-tokaido Números especiais com os homens mais charmosos de Portugal – não, não estou a falar do Mourinho nem do Ronaldo -, as 7 – número mágico – mais cobiçadas herdeiras do país – também não falo da Playboy portuguesa e creio que a Maya não se inclui neste grupo -, reportagens sobre a forma como os ministros se divertem na hora do recreio, eu sei lá, um sem-número de números…

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Que me proponho eu com esta conversa toda? Não, também não vos quero falar da última entrevista da Clara Pinto Correia, através da qual ficamos a conhecer, pela enésima vez, a história do seu aparelho reprodutor.

hara-estacao-nc2ba14-tokaidoE no entanto, a imaginação, em funcionando, pode levar-nos à beleza de um amplexo, e bem saboreado, é como que a leitura de um livro amado. Depois, bem, depois caminhai, de mão dada, vendo Darwin e dizendo como ele «I think» – gratuita aos domingos na Gulbenkian, e onde podereis sempre morder o companheiro, como se trincásseis suspiros -darwin-i-think

e, estando a coisa açucarada, amar-vos nas 53 estações do Tokaido.

Mais um empurrãozinho? Enrolados, os dois, podereis devorar as carnes em sangue e adormecer enquanto vedes e ledes The Complete Work of Charles Darwin em linha ou espreitar ainda as reproduções acima do «Caminho do Mar do Oriente» em Intermediate Stations and Views of the Narita Highway e muitos outros aperitivos.

Livros? Podeis ir às bibliotecas municipais. O serviço de empréstimos é excelente. Pedi, por exemplo, «Quem tem medo de Charles Darwin?», de Teresa Avelar, Margarida Matos e Carla Rego, uma edição que aqui tenho já de 2004. Esquecei o resto que por aí vos propõem. E de seguida, passai à Complexidade. É uma revolução mais actual e que vos passa por baixo do nariz. «Complexidade, A Vida no Limiar do Caos», de Roger Lewin, ou «O Universo, A Nossa Casa», de Stuart Kauffman. Ide pelos vossos pés. Tonifica os músculos, ama-se melhor e dá-se um coice – ainda que provisório – na crise.

No fim, vereis, é como se vos sentísseis mortos. Mortos, sim, não anestesiados.

PS – Um dia destes explico porque razão o Google não é o Google. Há um mundo profundo (a WEB profunda, dizem os entendidos) e cheio de surpresas que, convenientemente interrogado e explorado, atira com os tilitantes nomes e as suas estocadas para lá do sétimo céu.

Dos autores – VIII – 1º

John (Roderigo) dos Passos

Quem não ouviu já falar de John dos Passos, descendente de um emigrante português, um dos melhores escritores do século XX? Era essa, pelo menos, a opinião de Sartre: «É o maior escritor do nosso tempo.»  A Penguin publicou-lhe as principais obras com uma chamada de atenção: «Dos Passos não é o nome de uma equipa espanhola de futebol, mas o nome de um grande escritor.» E a opinião de outros, como Faulkner, das mãos de quem recebe a medalha de ouro das artes e das letras, afirmando que «ninguém a merecia mais»,  Fitzgerald ou  Hemingway, seu grande companheiro e amigo.

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E no entanto,  que aconteceu a esse homem que foi um ponto de confluência de todas as tendências de uma «estética do Moderno»? Que escreveu obras como Manhattan Transfer: Viagem por Nova Iorque, opondo ao naturalismo americano uma multivisão sinfónica inspirada nas experiências de montagem cinematográfica de Eisenstein e de Griffith, ou a trilogia «USA» – The 42nd Parallel, 1919 e The Big Money – numa escrita tumultuosa que tudo deve à imagem do nosso mundo feito de vidas isoladas, à música e à pintura de ritmos e formas quebradas?

Comecemos talvez por aqui, por The Big Money, 1936:

«Expulsaram-nos das ruas a golpes de matraca. Eles são os mais fortes. São ricos e fecham-nos as portas: políticos, directores de jornais, velhos juízes, homenzinhos famosos, presidentes de universidades, políticos falhados. Ouvi, homens de negócios, presidentes de universidades, juízes: a América não esquecerá aqueles que a traíram. Compram homens armados e de uniforme, carros da polícia e viaturas celulares. Os juízes servem-lhes os intentos e eles banqueteiam-se à conta do Estado. Eles têm os dólares, as espingardas, as forças armadas e as fábricas.  Eles construíram a cadeira eléctrica e contrataram os carrascos para aplicar as descargas eléctricas. Muito bem. Somos dois neste momento. Os homens que estão nos corredores da morte gritaram antes de morrer, mas agora a dor terminou. Os emigrantes, libertos da pressão, imóveis nos seus fatos escuros, repousam na pequena sala mortuária. A cidade está calma. Os homens da nação conquistadora não se vêem nas ruas. Eles venceram. Mas então, por que receiam eles vir para as ruas? Nas ruas vêem-se apenas os rostos dos vencidos. As ruas pertencem à nação vencida. Ao longo de toda a rua, até ao cemitério, onde os corpos dos emigrantes vão ser incinerados, nós enchemos os passeios e aguardamos. Nós somos os vencidos, América.»

Eis John dos Passos entoando um canto fúnebre à memória de dois anarquistas executados nos anos 20, o homem que de 1914 a 1940 gritaria a revolta e clamaria pela revolução incendiando o país com a sua pena e a sua palavra.

Tradução de Carlos  Sousa de Almeida

Imagem: Luis Quintanilla, John dos Passos as a Sunday Painter, óleo s/tela

Mediterrâneo

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carga de subtis matérias
mediterrâneo da alma escorrendo
dos olhos na esquina dos dias antigas liras
expressão brumosa no corpo é
difícil a sabedoria de um amor antigo
a casa inundada a luz da morta natureza o mar
espontâneo errático estala
o silêncio no sol
pão sandália arco de um labor paradisíaco

Da série Mediterrânicas – I

Imagem: Mimmo Jodice, Apollo di Baia

Tu estavas lá

Como

se faz o mundo?

O rio

leva-o a morte.

A noite tem um hálito

da cor do passado.

E as redes lanço

às palavras.

Sou pária. E a dor

voa pelos teus cabelos.

Alexandria.

Tu estavas lá.

Como

se faz o mundo?

Os gregos riem ao longe.

Da série Mediterrânicas – IImimmo-jodice-alba-fugens2

Imagem: Mimmo Jodice, Alba Fugens

Da «cidade que i há»

Da «cidade que i não há»

A Vtopia, a ilha cuja descrição é atribuída por Thomas More (Tomás Moro) ao marinheiro português Hitlodeu (do gr. hythlos, patranha, aldrabice, tolice) é uma terra longínqua, constituída por 54 cidades (à semelhança dos 54 condados ingleses), onde os homens vivem secundum naturam et rationem. Não existe nela a propriedade privada, todos têm acesso aos bens comuns e as leis são formuladas com tal clareza que até os menos inteligentes conseguem entendê-las.

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Hitlodeu, no Livro I, põe em destaque as imperfeições e as injustiças do Estado inglês; e no Livro II traça o quadro de uma organização social eficiente, de severos costumes.

Terá a personagem Hitlodeu existido realmente? Não sabemos. Certo é que Thomas More, com a sua inventio, há-de por certo ter querido, utopicamente, ou seja, ficcionalmente, homenagear as navegações portuguesas.

E que textos terá o autor conhecido? Certamente que as Quatuor nauigationes, que podem ler-se na segunda parte da Cosmographiae introductio, já que são mencionadas no Livro I. Provavelmente, também o Itinerarium Portugalensium, onde há relatos de viagens portuguesas, os Opera omnia, de Poliziano, de quem Erasmo, o seu melhor amigo, lhe falou; e a carta nº 1 do Livro X das Epistolae é, nessa obra, a que Poliziano dirigiu a D. João II propondo-se celebrar em grego ou em latim as viagens dos Descobrimentos portugueses.

Executado, Thomas More foi canonizado por Pio XI em 1935.

A Vtopia, cuja data da primeira edição, em Lovaina, é de 1516, circulou também em Portugal; e foi tal o interesse despertado que, em 1581, passou a fazer parte do Index, sendo declarada uitanda. Proibição que se manteria no Index expurgatório de 1624, alargada a vários outros textos do autor. A ele se referiram os portugueses Damião de Góis, D. Jerónimo Osório, que lhe elogia as virtudes de cristão, João de Barros, na Terceira Década da Ásia (como modelo de administração do Estado), e Frei Heitor Pinto, na sua Imagem da Vida Cristã.

[Relendo Pina Martins: o seu estudo introdutório à Utopia, FCG, trad. de Aires do Nascimento, e Utopia III. Relato em diálogo sobre o modo de vida educação usos costumes em finais do século XX do povo cujas leis e civilização descreveu fielmente nos inícios do século XVI o insigne Thomas More, Verbo, e esta excelente leitura de Fátima Vieira: «Utopia III, de Pina Martins: finalmente o verdadeiro espírito moreano em Portugal».

Imagem: Cruzeiro Seixas, Estória sem princípio nem fim

Passariformes e Personalidades

Por razões que não importa explanar, passei pelo CCB – de que fugi a sete pés – no chamado Dia Mundial da Poesia.  E era digno de ver tão entranhado amor de  homens de letras completos e variados, celebérrimos, acompanhados, em alguns casos, dos respectivos ajudantes, subajudantes e sucessores. Todo um vasto programa educativo. A poesia não poderá renegá-los. Como dizia Alfred Jarry: «O amor é um acto sem importância, pois que o podemos fazer indefinidamente.»

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Entretanto, chegam-me hoje à caixa do correio gritos de Cotovia, entre eles,

IRMÃ COTOVIA
I
Vive rente ao solo e é no solo
que faz o ninho e sacia a fome
com as coisas do chão e em silêncio.
Porém, quando precisa de cantar,
muda de elemento: deixa a terra, sobe ao ar,
altíssimo, até onde
nenhum outro pássaro se arrisca.
Dir-se-ia
que sobe a um palco.
Então, dos limites do voo, quase imóvel,
vai derramando breves, repetidos
jorros de júbilo, assim como quem diz:
vejam como estou alto, sustentada
por tão frágeis asas.
Depois que desafogou o peito
das inadiáveis premências da voz,
apeia-se, torna ao solo,
dissimula-se na cor parda da terra,
como se nunca tivesse voado.

A.M. Pires Cabral, in Arado

E vieram-me ao espírito duas cenas:

1 – Aquela em que diz Julieta:
«Wilt thou be gone? It is not yet near day:
It was the nightingale and not the lark
That pierced the fearful hollow of thine ear;
Nightly she sings in yon pomegranate tree.
Believe me, love, it was the nightingale.»
Shakespeare, Romeu e Julieta, Acto 3, cena 5

2 – E aqueloutra de V. Hugo, nos Miseráveis, em que a menina Cosette, entregue aos cuidados de uma família má, fica muito magra e com um aspecto enfermiço, razão pela qual passa então a ser tratada por Cotovia.

All right, disse a pessoa que ia comigo: passar-te-ia o mau humor se fizéssemos um exercício simples e POÉTICO? Imagina um poema em que descrevesses as parecenças de tais personalidades com uma águia, um cisne ou uma coruja. Qual seria o pássaro migrador? E o caçador? E o mais canoro? E o… E divertimo-nos, de facto, muitíssimo. «Desafogámos o peito.» Viva o Dia Mundial da Poesia!

O cavo roendo

Não se negue o devido

Remnants From Paradise by Werner Durand

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CANTIGUA DE RUY MONIZ A HUA MOLHER QUE ELLE JA CONHEÇEO E MANDOU-LHE HUA MUYTO MAA REPOSTA.

Dama do jentyll despacho,
que pouco days por ninguem
eu sey que vós sabeys bem
se sam femea, se macho.

Eu vos nam auorreçia,
eu sey bem que vos coçaua
e que quando m’aprazia,
em osso vos caualguaua.
Poys sequer auey empacho,
vós molher de pouco bem,
de quem vos em Santarem
caualgou sem barbyquacho.

Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, Rui Moniz, nº 203,  p. 220, texto estabelecido, prefaciado e anotado por A. J. da Costa Pimpão e Aida Fernandes Dias, Centro de Estudos Românicos, Coimbra, 1973

Imagem: Vermeer, pormenor de…

Emplastros do amor

Love in the 20th century:

mucuball-eduardo-baiao

Love in the 21st century and the benefits of the civilization:

Imagem: Mucubais (Angola), fotografia de Eduardo Baião

Emplastros do Sorriso

Conhecê-los-eis, por certo, alguns de vós, mas aqui fica a partilha de dois dicionários a consumir sem moderação:helena-almeida-ouve-me

1 – Le Dictionnaire du Futur (Dicionário do Futuro), com versão em linha, de Anne-Caroline Paucot, uma obra que, através da criação de novas palavras, consegue lançar um olhar divertido e crítico sobre a sociedade de consumo, informação e novas tecnologias.  Abonações:

- Procrastecnicar:  «Procratechniquer, abandonner provisoirement ou définitivement l’usage d’une technologie. (Abandonar provisória ou definitivamente o uso de uma tecnologia. Para agarrados à Internet e particularmente ao Twitter ou ao Facebook, etc.) Si vous êtes accro à Internet et plus particulièrement Twitter ou Facebook… Vous dormez avec votre Iphone… Vous pouvez procratechniquer (…)»
ou estoutra:
- Epidemicar: «Epidémiquer, utiliser la puissance virale du Net pour tenter de se faire connaître. (Utilizar o poder viral da Net para procurar fazer-se conhecido.)»

2 - The Devil’s Dictionary (Dicionário do Diabo), com entradas e definições de Ambrose Bierce, uma obra publicada pela primeira vez em 1906 com o título The Cynic’s Word Book, e que fala por si mesmo. Alguns exemplos:

- Amizade: «Friendship, a ship big enough to carry two in fair weather, but only one in fool. » (Embarcação suficientemente grande para levar duas pessoas com bom tempo, mas apenas uma em caso de tempestade.)

- Epitáfio: «Epitaph, an inscription on a tomb, showing that virtues acquired by death have a retroactive effect.» (Inscrição num túmulo que mostra que as virtudes adquiridas com a morte têm um efeito retroactivo.)

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Helena Almeida, Ouve-me

«It was an imaginary Bone.»

The Two Poets

«Two Poets were quarrelling for the Apple of Discord and the Bone of Contention, for they were very hungry.

“My sons,” said Apollo, “I will part the prizes between you. You,” he said to the First Poet, “excel in Art – take the Apple. And you,” he said to the Second Poet, “in Imagination – take the Bone.”

“To Art the best prize!” said the First Poet, triumphantly, and endeavouring to devour his award broke all his teeth. The Apple was a work of Art.

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“That shows our Master’s contempt for mere Art,” said the Second Poet, grinning.

Thereupon he attempted to gnaw his Bone, but his teeth passed through it without resistance. It was an imaginary Bone.»

Ambrose Bierce, Fantastic Fables

«Le sujet est à la mode.»

Ne hâte pas cet acte tendre
douceur  d’être et de n’être pas

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«Nous venons aujourd’hui vous entretenir de la poésie. Le sujet est à la mode. Il est admirable que, dans une époque qui sait être à la fois pratique et dissipée, et que l’on pourrait croire assez détachée de toutes choses spéculatives, tant d’intérêt soit accordé non seulement à la poésie même, mais encore à la théorie poétique.» Paul Valéry

«All slang is metaphor, and all metaphor is poetry», G.K. Chesterton.

«If I read a book and it makes my whole body so cold no fire can ever warm me, I know that it is poetry. If I feel physically as if the top of my head were taken off, I know that it is poetry. These are the only ways I know it. Is there any other way?», Emily Dickinson

«Experience has taught me, when I am shaving of a morning, to keep watch over my thoughts, because, if a line of poetry strays into my memory, my skin bristles so that the razor ceases to act», A.E. Housman

Imagem:  Walter Shnackenberg, Prominenz

«Esse influxo do tempo»

3ª parte
Casais Monteiro, Manuel Bandeira, Estudo da sua obra poética seguido de uma antologia, Inquérito, Cadernos Culturais, Série G-Crítica e História Literária, XVII

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«Não é contudo apenas sôbre a essência das criações poéticas que se exerce êsse influxo do tempo; não são apenas outros os motivos que se impõem ao poeta, nas horas amargas do mundo. Mais: podem muito bem os seus motivos não reflectir nem directa nem indirectamente qualquer angústia ou qualquer drama, pois nem todos os poetas têm a jurisdição dos mesmos domínios , e a muitos cabe aquela parte da realidade em que a vida não penetra directamente pelos ecos dos sucessos da hora, mas tão só pela aura despida de actualidade que espelha apenas a temperatura, o clima, a pressão atmosférica. Êstes não revelam menos, contudo, o sinal dos tempos, e era aqui precisamente que eu pretendia chegar: por exemplo, não podemos separar das convulsões a que temos assistido e estamos assistindo a renovação que se deu na literatura de quási todos os países do mundo, a qual, sob os mais diversos nomes, modernismo, futurismo, cubismo, vanguardismo, dadaísmo, ultra-realismo, etc., contém sempre um mesmo sentido fundamental. Por muitos dos seus aspectos, tais movimentos não nos dizem nada sôbre as circunstâncias históricas que os condicionaram – mas nem por isso êsse condicionamento  é menor do que nos casos em que é patente. Quere dizer: angústia, drama, incerteza da vida, agiram como um filtro que libertou a poesia das complacências fáceis, das incontinências verbais hugo-junqueirescas, tanto como dos hieratismos parnasianos – em suma, e para evitar enumerações inúteis: de tôdas as riquezas suplementares com que a poesia, em vez de ser enriquecida, empobrece.»

(continua)

A 1ª parte pode ser lida aqui; e a 2ª aqui.

Imagem: W. Abranowicz, Grécia, Escadas

Exercícios de amor – Abertura

Cena 2

Exterior / Noite

Travelling pelas colunas de um edifício.

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Um corpo  desloca-se na semiobscuridade enquanto se ouve  a abertura de Wagner, Rienzi:

Vai correndo um insert em fundo com texto das Confissões de Santo Agostinho: «Chego aos campos e vastos palácios da memória onde estão tesoiros de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda a espécie. Aí está também escondido tudo o que pensamos, quer aumentando quer diminuindo ou até variando de qualquer modo os objectos que os sentidos atingiram. Enfim, jaz aí tudo o que se lhes entregou e depôs, se é que o esquecimento ainda o não absorveu e sepultou.»

Finda a música, voz off com negro: «A lenta queda de uma folha no Outono em Quioto. O sangue, a monumentalidade. A brutal queda da noite com as suas máscaras, devaneios, viajantes.»

Novo insert sobre quadro de Flávio-Shiró durante 30 segundos: «La peinture n’est pas littérature. Les images c’est la vie et les textes c’est la mort.»

Exercícios de amor – Abertura

Argumento original

Cena 1 – Interior / Noite

Uma luz furtiva deixa entrever uma figura.

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No exterior, ouve-se um coro de vozes. Exclamações. Agitação.

Destaca-se uma voz firme que se escuta nitidamente:

- A hora da (ruído)  social ainda não chegou. Vidros quebrados. Soa um hino.

A «koltura» em forma de suplemento

Está a par dos últimos avanços relacionados com a West Coast? Saberia como proceder se encontrasse o barco da mariquinhas forrado a azulejos e que até flutua, podendo, eventualmente, quiçá, um dia destes deslocar-se até ao Allgarve? Conhece as excelências da marmelada BBDO? Está bem informado sobre a nobre  e difícil arte do néctar do comendador?nectar-joana-vasconcelos

O Ípsilon, esse novo órgão em forma de wallpaper, diz-lhe agora que a «proprietária» destas e de outras «obras de arte» é «namorada» de um conhecido  e famoso empresário russo «da bola».

Há quem goste de confundir imaginação com o Walt Disney.  Eu já há muito deixei de ter medo da triste e mesquinha Rosa do Adro que parece continuar a ser rainha.

Imagem: Joana Vasconcelos, Néctar, CCB

«Não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha»

«- Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.

- Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?

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- Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: “a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos…

- É verdade, por que quarenta e cinco anos?

- Não é, como podes supor, um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data normal do fenômeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinqüenta anos, conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinqüenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio.

- Entendo.

- Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.

- Mas quem lhe diz que eu…

- Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança, No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas idéias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.

[...] tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra, razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses – suponhamos dois anos, – reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das idéias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim…» Machado de Assis, Teoria do Medalhão

Imagem:  Jean-Honoré Fragonard, Les débuts du modèle

Bonaparte, Sílvio Pélico e o barão de Rothschild

«Poeta em Anos de Prosa! Oh! Figueiredo, Figueiredo, que grande homem não foste tu, pois imaginaste esse título que só ele em si é um volume! Há livros, e conheço muitos, que não deviam ter título, nem o título é nada deles.
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E há títulos também que não deviam ter livro, porque nenhum livro é possível escrever que os desempenhe como eles merecem.
Poeta em Anos de Prosa é um desses.
Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem verdadeiramente belas, isto é, simples, verdadeiras e, por consequência, sublimes, que não exclame com sincero pesadume cá de dentro: Poeta em Anos de Prosa!
Pois este é século para poetas? Ou temos nós poetas para este século?…
Temos, sim; eu conheço três: Bonaparte, Sílvio Pélico e o barão de Rothschild.
O primeiro fez a sua Ilíada com a espada, o segundo com a paciência, o último com o dinheiro.
São os três agentes, as três entidades, as três divindades da época.
Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rothschild, ou sofrer e ter paciência com Sílvio Pélico.
Todo o que fizer doutra poesia – e doutra prosa também – é tolo…» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra, cap. IX

Imagem: Houdini

Nas malhas dos textos – XXIV

«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos» - 7ª parte, por Juan Asensiofranz-von-stuck-lucifer
«O hermetismo é o segredo, ou antes, o seu lado negro, admitindo que o segredo não é em si manifestação do Mal. É impossível, evidentemente, alargarmo-nos sobre a importância seminal da temática do segredo na obra de Bernanos, claramente devedora da estética desenvolvida por Barbey d’Aurevilly nas suas Diaboliques (48) ou numa obra menos conhecida, Une histoire sans nom [Historia sem nome]. Está por fazer esse estudo. (49) Em Kierkegaard, a temática do segredo está igualmente omnipresente; recordaremos assim essas frases conhecidas nas quais o filósofo deixou na sua existência e na sua obra a marca do segredo, um segredo que, qual nó górdio, foi o núcleo espiritual do seu pensamento: “Depois de mim, não haverá nos meus documentos (é esse o meu consolo) uma só informação sobre aquilo que, no fundo, preencheu a minha vida; não se encontrará no meu íntimo aquele texto que explica tudo e que em geral o mundo qualificaria de ninharias e para mim são acontecimentos, e que por sua vez considero uma futulidade assim que lhe retiro a nota secreta que era a sua chave.” (50) Existe pois aquilo que poderíamos chamar, com o pensador dinamarquês, um “hermetismo do Bem” que pode “significar a suprema liberdade”, como no caso de Brutus ou de Henrique V de Inglaterra (51), hermetismo verdadeiro, posto que contrário ao fechamento demoníaco, hermetismo voluntário e luminosamente ignorado que é também heroísmo da vida do espírito. (52) Jean-Louis Chrétien, numa meditação poética sobre a essência do segredo, afirma que o seu domínio é o domínio da luz, de uma irradiação paradoxal: “O brilho do segredo não aclara apenas o próprio segredo, aclara-nos a nós com ele, e inclui-nos, por assim dizer, nele. Pensar o segredo é pensar também essa inclusão solidária essencial da sua própria clareza.” (53) Esse brilho simples do segredo, essa irradiação que é a própria manifestação do segredo luminoso não está, todavia, segundo Pierre Boutang, do lado da simples claridade: como a alegria de Chantal, o seu domínio é uma obscuridade protectora: “A verdade é que a obscuridade é positiva, protectora do ser e do seu parecer; por exemplo, os ‘anos obscuros de Jesus’, como qualquer infância real, não indicam nada de inerte, nada que pudesse ser aclarado mantendo-se aquilo que é, mas um segredo activo, um ser que não pode amadurecer senão separado, recolhido, protegido.” (54) Em suma, poderíamos aproximar o segredo luminoso do mistério e o segredo tenebroso de um mistério desvalorizado. De facto, nada se afasta mais do segredo que o mistério: o segredo confia-se, o mistério revela-se, não podendo, portanto, ser objecto de indagação; radical diferença que Bernanos sublinha em Nous Autres Français [sem tradução portuguesa] (II, 619) : “[...] não negamos o mistério, desejamos apenas fazer a distinção entre o mistério e o [segredo] – aqui Bernanos usa a palavra ‘misterioso’, equivalente de ’segredo’ –, do verdadeiro mistério e do inconhecível ou do indeterminado”. O misterioso, por sua vez, já não é o mistério, ou não passa então de um mistério decaído, aviltado: de algum modo, Monique Gosselin afirma-o: “o mistério [do] místico avilta-se numa pluralidade de segredinhos [...]” (55) aos quais por certo Bernanos não reconheceria sequer o direito de se aproximarem do “inconhecível”, do “indeterminado”. O misterioso, por consequência, já não passa de um segredo cuja chave interpretativa é recusada à personagem que observa o outro, sujeito o primeiro a essa mesma possibilidade de forçar a confissão do segundo: “Assim, o animal espreita no rosto misterioso do dono os sinais sagrados nos quais vão nascer o seu sofrimento ou o seu prazer” (I, 1405). Dessa evolução, ou melhor, desse declínio, do mistério no misterioso, o qual se confunde por sua vez com um segredo que já não passa de um singular objecto de avidez, encontramos um exemplo na longa cena em que o doutor Malépine e Arsène rodeiam o cadáver do jovem vaqueiro, procurando Malépine abrir a mão cerrada deste. A propósito desta cena, Gérard Hoffbeck (56) fala do “último mistério [que] é o das mãos vazias. Vazias e não obstante cheias de uma plenitude que não é deste mundo, de um além de mistério que o homem não alcançaria [...].” Pensamos, pelo nosso lado, que a mão do criado que cede contra vontade não revela um mistério, antes comunica um segredo, aliás inexistente.»

A 1ª parte pode ser lida aqui. A 2ª parte aqui. A aqui. A aqui. A 5ª aqui. E a 6ª aqui. (continua)

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Franz von Stuck, Lúcifer

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(48) Mesmo se muitos comentadores sublinharam diversos paralelos entre as obras aurevillyana et bernanosiana; ver Hermann Hofer, «Bernanos et Barbey d’Aurevilly romanciers», in Georges Bernanos (op. cit. 47) e a discussão que acompanha esse artigo. Cf. Willy Burkhard, La genèse de l’idée du Mal dans l’œuvre romanesque de Georges Bernanos [sem tradução portuguesa] (Zurich, Juris Druck + Verlag, 1967), p. 212. Por fim, Michel Estève (Bernanos. Un triple itinéraire [sem tradução portuguesa], Paris, Minard, 1987), pp. 55 e ss, fornece alguns apanhados úteis.
(49) KIERKEGAARD, Journal, op. cit.10, IV A 85, p. 273.
(50) Le concept de l’angoisse, op. cit. 7, p. 293.
(51) Sören KIERKEGAARD, La Reprise [sem tradução portuguesa] (Paris, Garnier Flammarion, « GF », 1990), p. 134: «Ser assim um herói, não aos olhos do mundo, mas no seu foro íntimo; não poder alegar nada contra os homens, mas isolar-se em vida na sua personalidade juntando em si mesmo o seu próprio testemunho, o seu próprio juiz, o seu próprio procurador, porque são os três senhores de si!», em que vemos transparecer, no entanto, uma vontade de fechamento que podemos aparentar à do demoníaco.
(52) Jean-Louis CHRÉTIEN, Lueur du secret [sem tradução portuguesa] (Paris, L’Herne, «Bibliothèque des mythes et des religions», 1985), pp. 8-9.
(53) Pierre BOUTANG, op. cit.29, p. 33.
(54) Monique GOSSELIN, L’Écriture du Surnaturel dans l’œuvre romanesque de Georges Bernanos [sem tradução portuguesa] (Lille III et Honoré Champion, 1977, t. 1), p. 648.
(55) Gérard HOFFBECK, «Le Regard et la Parole du Témoin» [sem tradução portuguesa], in EB 16, p. 158.
(56) Pierre BOUTANG, op. cit. 29, p. 78.

«Do poeta que se deitou à sombra porque a vida o deixou adormecer»

2ª parte
Casais Monteiro, Manuel Bandeira, Estudo da sua obra poética seguido de uma antologia, Inquérito, Cadernos Culturais, Série G-Crítica e História Literária, XVII

a-cavalo «As épocas de grande angústia são as épocas eleitas da poesia, como os momentos de grande angústia são em cada homem os momentos eleitos da poesia. A mais alta poesia é a que, sob qualquer das suas mil formas, exprime a tragédia (e entende-se aqui por trágica tôda a expressão de incompletude, de insuficiência, de inconformidade, sentidas e pensadas pelo homem). E é quando a cada passo se sente, ao nosso lado, o abismo hiante, que a poesia se liberta e depura das fáceis vitórias formais, dos enternecimentos palacianos, dos jogos pueris, das glórias acrobáticas… Então a poesia despe-se de ouropéis, abandona o flirt com os prestígios da criação puramente verbal, deixa-se de fogos de artifício. Embora, evidentemente, nessas mesmas épocas continuem a desfiar as contas dos seus versos os talentosos cultoras da lágrima fácil, os descrevedores da natureza, os adoradores e os explicadores em verso de tôdas as mitologias, raciais e divinas, os choramingas das paixões fatais, dos amores eternos, das adorações infinitas, etc. Todos êsses existem afinal à margem da poesia, e só têm de comum com a dos poetas o facto de se exprimirem igualmente em verso. À margem da vida, todos êsses se repetem, mutatis mutandis, de geração em geração, como se o mundo fôsse sempre o mesmo. E para êles é-o, de facto, tão longe estão e estiveram sempre dêle. Dêste àparte deve concluir, quem porventura o não tenha feito ainda, que, ao referir-me à libertação das “fáceis vitórias formais, etc.”, tinha em vista a verdadeira poesia e as suas fraquezas; pois não posso deixar de considerar, num Camões como num Junqueiro, por exemplo, como transigências e fraquezas, certas partes da obra, partes que são o sinal do poeta que se deitou à sombra porque a vida o deixou adormecer. Ora o paroxismo e a crise erguem o poeta à sua maior altura – lavam-no das pequenezas que atacam os seus confrades das épocas mais descansadas, em que a angústia espreita, mas não pesa como uma garra constante sôbre as suas noites e os seus dias.»
(continuação da 1ª parte aqui.)

«Complemento circunstancial»

«Desprendido insensato do aparente, /O que na vida perco em tinta o acho.», Vitorino Nemésio, Andamento Holandês – 12.

Vá lá, diga comigo, ledice; está a ver? Ora aqui vai, com a epígrafe do… sim, desse: «Se bem me lembro…» Em várias partes, que é longo o texto:pessego-aberto

1ª parte
Casais Monteiro, Manuel Bandeira, Estudo da sua obra poética seguido de uma antologia, Inquérito, Cadernos Culturais, Série G-Crítica e História Literária, XVII

«Que seja possível, apesar da incerteza e da angústia desta hora grave e dramática (1), ler poetas e falar de poesia, eis um sinal bem revelador de quanto é errada a opinião dos que julgam poder livrar-se dela apodando-a de inútil jôgo, de simples passatempo agradável – espécie de “complemento circunstancial” cuja ausência não modificaria em nada a face espiritual da terra. Podemos, pelo contrário, constatar que é nas fases agónicas da sua história que o homem mergulha mais profundamente na poesia, nela se revelando o que é ou não indestrutível, e inseparável do homem. E acentue-se: mais profundamente mergulha, como criador tanto como leitor. Não há criação poética que, por uma ou outra razão, não venha a sossobrar completamente – é questão de milhares de anos, de mais ou menos quedas de civilizações. E ainda que se salvasse alguma, por qualquer razão que é sempre possível imaginar, lá estará o fim do homem para dar a tôda ela irremissível fim. Mas o que não é crível é que existindo o homem deixe de existir a poesia. A POESIA. Não qualquer das suas formas, das suas encarnações. Mas a própria poesia, ou seja aquela necessidade de corporizar e de comunicar, de fixar em formas belas e vivas sonhos, visões, angústias, enternecimentos… A “arte de fazer versos” pode morrer, deve e tem de morrer, porque é uma técnica, e as técnicas são o que há de mais perecível. A própria poesia como arte pode morrer, a poesia como beleza procurada e achada… Sabemos lá que formas insuspeitadas ela poderá tomar? Mas perdurará enquanto no homem perdurar a necessidade de expressão de uma vida secreta que porventura todos têm mas só a alguns é dado exprimir. E tôda a ansiedade poética é dolorosa busca de expressão, é exigência de expressão, e o homem acaba sempre por encontrá-la, por inventá-la, com qualquer material que seja.»
(continua)
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(1) Escrito em 1938

Michel Vinaver e o Capitalismo

Michel Vinaver, o maior dramaturgo francês vivo, já apresentado em Portugal pelo menos por duas ou três vezes, que me lembre. Nas suas peças, o que conta é o presente imediato, urgente, feito de uma sucessão de momentos interligados. A estrutura fragmentada da sua escrita segue fielmente a fragmentação do quotidiano. Com um texto feito habitualmente sem sinais de pontuação, salvo o de interrogação, leva o leitor a ter de enfrentar um desafio que, se aceite, fará dele um receptor e um criador, o encenador daquilo que ele próprio consegue ler.

A escutar em Arrêt sur Images: aqui.

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Traduzindo: «O estado-maior de uma multinacional americana, ao voar num pequeno avião de negócios entre o Brasil e o Chile, cai na cordilheira dos Andres. Para sobreviverem, esses altos dirigentes, as suas esposas, amantes e assistentes recorrem ao canibalismo. “L’Ordinaire”, uma peça de teatro de Michel Vinaver escrita em 1982, actualmente em cena na Comédie Française em Paris, é uma parábola particularmente oportuna neste período de crise financeira sobre o capitalismo.» Com Judith Bernard (bem), Frédéric Ferney (razoável) e Eric Naulleau (um desastroso e arrogante literato). Mas é bom de ver, sobretudo, um autor sereno, que sabe escutar e responder, de forma segura, elegante e inteligente. E politicamente, um fino observador e um inovador.

Parlons net. Le livre et le Web.

Nada de novo na frente ocidental:  «[...] em tempo de guerra a mentira é terra [...] e de repente me vi repetindo o que disse meu pai sobre a loucura do tio Garibaldi: Vai passar, mãe. Tudo isso vai passar.» Lygia Fagundes Telles, Invenção e Memória, «Nada de novo na frente ocidental».

Nas malhas dos textos – XXIII

«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos» - 6ª parte, por Juan Asensio
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II O HERMETISMO EM MONSIEUR OUINE

Em Monsieur Ouine, o hermetismo, podemos dizê-lo, é exactamente o oposto da sua definição etimológica, que liga a palavra a uma noção de comunicação e de troca. Se se adequa tão perfeitamente à análise do último romance de Bernanos, isso acontece, pensamos nós, porque a figuração do Mal, na obra do romancista, obedece a uma evolução que o interioriza, que lhe impede manifestações demasiado espectaculares, como era o aparecimento do alquilador em Sous le soleil de Satan [Sob o Sol de Satã, tradução brasileira]. Esta evolução da representação literária do Mal não é manifestamente favorável a Bernanos. Jean Decottignies, citando Eliphas Lévi, célebre ocultista de fins do séc. XIX, explica-nos que «o Diabo é formado pelos dilaceramentos de Deus», e prossegue afirmando que esta asserção mais não faz que reflectir um movimento essencial no século XIX: «a abolição do Diabo como pessoa.» (42). Assim, fácil é constatar-se, já o dissemos, que o Mal, tal como a sua acção é descrita em Monsieur Ouine, é sensivelmente diferente daquele que o romancista figurava no seu primeiro romance. (43) Com efeito, se em Monsieur Ouine o Mal é continuamente descrito através de imagens tumultuosas, de podridão activa, somos obrigados a constatar que ele, falando com propriedade, nada é, é o vazio que rompe a trama romanesca. Por consequência, compreende-se que Bernanos não lhe tenha concedido qualquer lugar definido; o Mal necessita da presença do ser para se lhe opor, para lhe romper a continuidade. Falávamos de vazio a respeito do Mal; talvez fosse mais adequado empregar o termo «não-ser». Merleau-Ponty di-lo, é precisamente porque o Ser e o Não-Ser, «o sim e o não, não podem ser misturados como dois ingredientes que, quando vemos o Ser, o [Não-Ser] está presente no mesmo instante, e não à margem [...], mas a toda a extensão daquilo que vemos [....]». (44) O vazio do Mal – o artigo é supérfluo, devia poder dizer-se o vazio é Mal -, vai, em Monsieur Ouine, confirmar plenamente esta frase de Bernanos, extraída do Journal em que o abade de’Ambricourt declara que a luxúria está para o instinto sexual como o tumor «para o órgão que ele devora, de que acontece que a sua disformidade reproduz terrivelmente o aspecto» (I, 1126). O Mal é o vazio, o não-ser e Monsieur Ouine, ao descrever-se, usa uma série de imagens que se atêm ao nada: «Estou vazio, também eu [...]. Vejo-me agora até ao fundo, não há nada que me impeça a vista, nenhum obstáculo. Não há nada. Fixai esta palavra: nada!» (I, 1550). O Mal é, por conseguinte, ilusão, visto que não é ser mas parecer; ele não passa, afinal, de uma maligna intumescência, inchaço vaporoso de uma matéria em fermentação. Esta característica principal do Mal em Monsieur Ouine não é uma novidade na tradição cristã: não é assim estranho constatar que é idêntica à que os teólogos sempre lhe atribuíram. Para Karl Barth, citado por Paul Ricoeur (45), «o nada é aquilo que Deus não quer.» E o autor comenta esta asserção dizendo que «o domínio [de Deus] sobre o nada se mantém incoordenável com o domínio da beleza sobre a boa criação.» Do mesmo modo, encontramos a imagem do vazio que cria o Mal na substância do ser em S. Basílio, citado por Henri-Irénée Marrou : «Não imagines que o Mal tem uma substância própria: a perversidade não subsiste como se fosse algo [...], pois o Mal é privação do Bem.» (46) E Marrou conclui, servindo-se de uma imagem usada por Santo Agostinho – no sétimo capítulo das suas Confissões -, que «o Mal corresponde aos orifícios, às lacunas: ele é o vazio, a não-plenitude. Se a esponja existe, é pelas partes dela própria, pelo tecido sólido». (47)

A 1ª parte pode ser lida aqui. A 2ª parte aqui. A aqui. A aqui. E a 5ª aqui. (continua)

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: The Nightmare,   J. Cazotte, Le Diable Amoureux, Paris: n.p., 1845. Page 3.

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(42) Jean Decottignies cita Éliphas Lévi (Dogme et Rituel de Haute Magie), no seu artigo «Là-Bas ou la Phase démoniaque de l’Écriture » publicado na Revue des Sciences Humaines, nºs 170-171 (pp. 69-79, p. 74) dedicada a Huysmans.
(43) Cf. Bernard SARRAZIN: «A ousadia da técnica romanesca de Monsieur Ouine […] permitiu certamente a Bernanos chegar mais longe do que qualquer dos nossos escritores nesta experiência do mal […]», in L’interprétation symbolique de la Bible par Léon Bloy (Thèse d’Etat, Lille, Université de Lille III, 1976), p. 489. Max Milner, em «Le dialogue avec le diable d’après quelques œuvres de la littérature moderne», in Entretiens sur l’homme et le diable [sem tradução portuguesa] (Paris, Mouton & Co, 1965, pp. 235-264) considera também que o último romance de Bernanos é a demonstração de uma evolução radical da figuração do Mal e de Satanás.
(43) Maurice MERLEAU-PONTY, Le Visible et l’Invisible [O Visível e o Invisível] (Paris, Gallimard, «Tel», 1988), p. 94
(44) Paul RICOEUR, Le Mal [Paul Ricoeur e a Simbólica do Mal] (Genève, Labor et Fides, 1987), p. 36, em que o autor lembra a Dogmática de Karl Barth no artigo Dieu et le Néant.
(45) Henri-Irénée MARROU, «Un ange déchu, un ange pourtant», Satan [sem tradução portuguesa] (Paris, Desclée de Brouwer, «L’Ordinaire», 1978, pp. 28-44, p. 40.
(46) Ibid., p. 43.
(47) Ver a excelente introdução de Pierre Glaudes a Diaboliques [As Diabólicas] (Paris, Le Livre de poche, «Classiques de poche», 2000), p. 23 : «Barbey, ao encher de brancos as suas narrativas decepcionantes, solicita a cooperação interpretativa do público ao qual se dirige: o leitor tem de recorrer às suas próprias representações, beber na reserva dos seus afectos para prolongar a narrativa através da rêverie e completá-la segundo os caprichos da sua imaginação.» Não há dúvida de que o leitor de Monsieur Ouine, confrontado com a escrita lacunar e elíptica do romance, tem de, como observa Gérard Bucher (na discussão que se segue ao artigo de Jessie Hornsby, «Vide spirituel et technique lacunaire dans Monsieur Ouine» in Georges Bernanos [Actas do Colóquio de Cerisy-La-Salle, dirigido por Max Milner, Paris, Plon, 1972], p. 547 e a resposta de Denis Guénoun, p. 548), preencher por sua vez os não ditos bernanosianos.

um dente cariado

dentesamigo não amimes versos como se foram amarelos

fecha a janela e amanceba-te -

verás antes as luzes rútilas.

amigo não ajuntes versos como se foram arames

tão instáveis vão o euro o dólar o iene -

arranja antes brush e faz-te

carvalho, é forte  -

e dá farelo como as mulheres na cama

em dias de vento.

são cada vez mais os versos a precisar de barrela

os poemas de corar ao sol

e a vida está tão difícil.

fecha a janela vá

vê-se já um dente cariado

a rir-se dos outros -

e os poemas e os versos dentro

deles querem sossego.

«Pergunta»

«Eu gosto de pessoas que fazem perguntas e que quando as interrogamos não se furtam a responder-nos. Quem não fala connosco, em certo sentido é como se não existisse ou nos recusasse a nós a existência. É como se tivesse decidido desprezar a pessoa que nós somos.» Gonçalo  Matiasanne-marie-schneider-s-t

Sem retórica: Tal como gosto de ler Dostoievski, para não ir mais longe, porque me deslumbra, pois é ele próprio uma das suas personagens.

Já com alguma retórica: Porque a leitura é o acto simétrico da escrita, o leitor – e escritor  que também sou – enfrenta no processo três tipos de constrangimentos, a saber: a estratégia oculta do autor (com todos os etcaeteras);  o próprio texto; e por fim, as rupturas introduzidas no texto para que ele exista como original (e a desestabilização que provocou nas minhas expectativas).

E poucas vezes me reforçou nas minhas convicções.

Imagem:  Anne-Marie Schneider, s/t

Vous connaissez la craduction?

«Et l’étranger a toujours été inquiétant: il y a donc d’autres façons de vivre que la nôtre ? C’est à cette « épreuve de l’étranger » que la traduction a toujours été une réponse partielle.» Paul Ricoeur, Sur la traduction

alice

«Poème de Federman : Journey
” day peach twat
Heure I hop
Toot sweet
We part on
En cyberry. “

Craduction de Le Pillouër : Vois Age
” dépêche toi
Sœur salope
Tout de suite
Oui partons
En cybérie. “» in Raymond Federman, Chair jaune, craductions de Pierre Le Pillouër.

Visitez Bartleby ici pour le reste. Ou encore Philippe Boisnard - ici - pour une autre lecture.

Nas malhas dos textos – XXII

«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos» - 5ª parte, por Juan Asensio

behemoth

A segunda característica do demoníaco kierkegaardiano é o “súbito”, a sua falta de continuidade: “Supõe-se o hermetismo de uma extraordinária continuidade, mas é exactamente o oposto, embora ao lado da insípida e indolente dispersão do eu, vítima contínua das impressões, ele tenha uma aparência enganosa de continuidade.” (32) De novo, a dialéctica do ser e do parecer é sublinhada pelo filósofo que, para melhor delimitar o conceito de demoníaco, o aproxima para lhe opor a constância e a continuidade, tradicionalmente associadas à temporalidade do homem santo, formada de instantes cuja plenitude espiritual se funda na eternidade. Pelo contrário, o súbito, como sinónimo da inconstância (33), é “o arranque total da continuidade, do que antecede e do que segue.” (34) Inconstância do aparecimento do diabólico presente desde o primeiro romance de Bernanos, quando Donissan está perante o Diabo, cujos saltos podem aproximar-se dos que, segundo Kierkegaard, Mefisto dá: “Ainda não vimos que ele está aqui” (35); esta frase encontra uma ressonância espantosa nas palavras do romancista que descreve o súbito aparecimento do alquilador junto de Donissan (I, 167). O súbito demoníaco está também, seguramente, presente em Monsieur Ouine: a ausência de qualquer continuidade puramente cronológica entre diferentes cenas do romance foi comentada já diversas vezes, mas podemos, através do súbito que é característico do demoníaco, caracterizar vários aparecimentos, melhor dizendo, intrusões do antigo professor de línguas: “Vamos entrar pelos pastos, Steeny, temos de o fazer”, diz a castelã ao seu jovem companheiro (I, 1361), e, algumas linhas mais abaixo, abre-se a descrição do quarto do professor de línguas, sem que tenhamos sido convidados a entrar nele, ou antes, a transpor a entrada da fascinante habitação. A entrada foi evitada, como o será no início da página 1417, quando, uma vez mais, penetramos na habitação do velho podagra. Esta característica do súbito a par da continuidade e da constância do santo, podemos aproximá-la de uma forma de humor que se assemelha muito ao sentimento de “inquietante estranheza” ou do grotesco, ilustrada, por exemplo, em Monsieur Ouine através do motivo do chapéu do antigo professor de línguas. (36)

A terceira e última característica do demoníaco segundo Kierkegaard é o vazio, o tédio. Tédio que o filósofo liga a uma temporalidade desbussolada, seca, não sendo o tédio outra coisa senão “a continuidade no nada” (37), encontrando o vazio, por seu turno, a sua paradoxal forma no hermetismo, que encerra uma ausência ou antes, um segredo ausente, pois o demoníaco “não se fecha com algo, mas sozinho […]” (38), asserção que Jean-Louis Chrétien comenta escrevendo que o inconfessável, “desesperadamente oculto pelo demoníaco, é não ter nada a confessar”. (39) Do tédio bernanosiano podemos observar, com Michel Estève (40), que se aproxima do de Pascal, que fala desses homens que se aborrecem de tédio: “Sentem então o nada sem o conhecer [...].” (41)»

A 1ª parte pode ser lida aqui. A 2ª parte aqui. A aqui. E a aqui. (continua)

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Béhémoth, do livro de  J.A.S. Collin de Plancy. Dictionnaire Infernal. Paris : E. Plon, 1863. Page 86.
Notes:   A heavy, stupid demon, despite his dignities)….his powers are in the gluttony and the pleasure of the belly.”

—————————————-

(32) Le concept de l’angoisse, op. cit. 7, p. 300.
(33) Ver o tratado de Atanásio de Alexandria intitulado Sur l’incarnation du Verbe [Sobre a Encarnação do Verbo, trad. brasileira] (Paris, Cerf, «Sources chrétiennes» n°199, 1973), 25,5 p. 357. Lembremos igualmente que um dos lugares-comuns da literatura demonológica, pelo menos desde os Doutores da Igreja, é a inconstância do Diabo, príncipe das potências versáteis do ar, inconstância admiravelmente ilustrada pela obra de Pierre de Lancre quando, em luta com as bruxas bascas do Labourd, sentiu grandes dificuldades para definir a personagem ambígua (o Diabo) que perseguia, através de uma longa frase cujo próprio ritmo e sonoridades serão como que uma tentativa puramente literária de imitar o extraordinário poder da metamorfose satânica: “Peço-lhe o favor de dizer-me para que servem tantas formas disformes, tantas figuras diversas e desfiguradas, tantos véus e máscaras de todo o tipo, tantas licenças perniciosas e abomináveis, liberdades, volúpias, prazeres contra a natureza [...] se não para nos perdermos?”, in Pierre de LANCRE, Tableau de l’inconstance des mauvais anges et démons [sem tradução portuguesa](Paris, Aubier, «Palimpseste», 1982), pp. 57-8.
(34) Ibid., p. 302.
(35) Ibid., id.
(36) Chapéu que é constantemente nomeado quando da primeira conversa entre o professor de línguas e Steeny, mencionado ainda durante o encontro de Ouine com o prior de Fenouille. Nos dois casos, esse chapéu é uma presença terceira, grotesca porque ridícula, grotesca também porque estranha: continuamente, Monsieur Ouine “afaga o seu chapéu” (I, 1363), esse “ridículo chapéu de feltro” (I, 1365), esse “ridículo globo preto”  (I, 1368) segundo Steeny, o qual não consegue deixar de perguntar-se maliciosamente se Monsieur Ouine dormirá com ele (Ibid.). O próprio Kierkegaard aproxima o hermetismo de uma forma de humor no seu Journal (op. cit. 10, cf. IV A 94, p. 276).
(37) Le concept de l’angoisse, op. cit. 7, p. 304.
(38) Ibid., p. 294.
(39) Jean-Louis CHRÉTIEN, loc. cit.1, p. 173.
(40) Michel ESTÈVE, nota de Dialogue d’Ombres [sem tradução portuguesa](I, 1772): “Três séculos depois de Pascal, Bernanos confere uma dimensão metafísica ao tema do tédio [...].”
(41) Blaise PASCAL, Pensées [Pensamentos] (Gallimard, «Folio», edição de Michel le Guern, 1992). O Fragmento 33 desta edição corresponde ao Fragmento 164 da edição Brunschvieg e ao Fragmento 36 da edição Lafuma.

«Siempre creí que “ne me quitte pas” quería decir “déjame en paz”»

Só para registo pessoal

[Hoje enviaram-me esta ambrosíaca entrevista. Terá o plumitivo, natural de Angola, clamado contra este maiuscular indiscriminado,  escrito uma carta ao director exigindo reparação e publicação com igual destaque? ]:

Correio da Manhã, 28 Fevereiro 2009

«30 Anos, 30 Nomes: Valter Hugo Mãe» (Letras e Artes Plásticas)

“Podia ler-se mais e melhor em Portugal”
Valter Hugo Mãe, escritor premiado, considera que há falta de críticos ‘apaixonados’ em Portugal e acredita que os livros em suporte de papel têm os dias contados.
Correio da Manhã – Como vê o actual panorama das artes em Portugal?
Valter Hugo Mãe – Na prática todos os tempos são difíceis para a arte. Na verdade, do que sinto falta é da crítica reiterada e imparcial. Temos crítica quase nenhuma, apenas amigos e admiradores que se posicionam como divulgadores ou apoiantes.
– O que pode ser feito para melhorar esse panorama?
Arranjar uma mão cheia de críticos. Gente apaixonada mas séria, que não escreva por interesses pessoais e valorize o que tem de facto valor. Ler mais…

A choldra, o sublime ou a merda

«[...] 4. Moral desta história: a realidade está lá em todo o seu esplendor de encantamento e merda. Aquilo que determina o olhar, a sua qualidade, é a posição do observador em relação ao mundo. O olhar efectua uma selecção com base no que tem dentro de si, da sua capacidade de ver. No mesmo sítio onde aquele holandês escolheu ver o sublime aqueles portugueses escolheram ver o túnel e a merda. Pode-se escolher entre o horizonte largo e o foco estreito.

5. Na actual circunstância histórica, ser músico é estar permamentemente entre esses dois pólos. Há coisas que vistas de Portugal parecem ser de uma maneira, de fora parecem de outra e cá, depois de lá, ainda de uma outra. Depois das viagem feitas muitos dos mitos imaginados caem fragosamente da construção “sublime” laboriosamente construída pelos países do centro – aqueles que Eduardo Lourenço designa de “mais europeus do que o resto da Europa”- e que todos recebemos desde muito cedo como “lá fora”, como “uma imaginação do centro”. Como é que se pode  conceber que cheira mal no metro de Paris a ler o “Le Monde de la musique”, ou que cheira mal mesmo cá fora em Londres a ler o Grammophone, ou nos canais de Amesterdão a ler um catálogo de uma exposição de Van Gogh? [...]» António Pinho Vargas, em «As Viagens e os Erros», via Eduardo Brito.

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«Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas suspeito aos democratas; quando se soube porém que o dono d’estes confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava tambem o paiz uma choldra ignobil — os mais rigidos revolucionarios começaram a vir aos Paços de Cellas tão familiarmente como ao quarto do Trovão, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia uma enxerga e uma Biblia.

Ao fim d’alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, conciliára Dandys e Philosophos: e trazia muitas vezes no seu break, lado a lado, o Serra Torres, um monstro que já era addido honorario em Berlim e todas as noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a Morte de Satanaz, encolhido no seu gabão d’Aveiro, com o seu grande barrete de lontra.

Os Paços de Cellas, sob a sua apparencia preguiçosa e campestre, tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fôra convertida em sala d’armas — porque n’aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um whist sério: e no salão, sob o lustre de crystal, com o Figaro, o Times e as Revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas poltronas — havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a Evolução, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo tão ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metaphysicas, as proprias certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo croquettes.

Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob todas as fórmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no Instituto — e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n’um atelier improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a influencia da Salammbô.» Eça de Queirós, Os Maias

Imagem: Pages issues du Recueil des voyages du roi au château de Choisy, avec les logements de la cour et les menus de la table de sa majesté par Brain de Sainte Marie, condamné à orner chaque fois différemment les menus des repas de Louis XV à Choisy.

Da pintura XVIII – (2º de 2)

Alexei von Jawlensky,  1864-1941

«Percebo agora», disse Jawlensky, «que não devo pintar o que vi nem o que observei, mas unicamente o que existe no meu íntimo, nas profundezas da minha alma.»

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Cabeça de jovem (aqui, a primeira da sequência de quatro), 1912: uma dívida para com Matisse. Como  um ícone medieval, olhar absorto, «um ser de outro mundo». Um ano depois, pinta Mulher Espanhola, e a influência de Matisse é ainda mais forte. Os contornos  são firmes. As manchas de cor vivas. Os cabelos negros caem em cascata. Talvez este seja o Jawlensky extremo, que se afastou da visão mística que trouxera da Rússia.

Em 1918, no entanto, o pintor procurava já um caminho cada vez mais pessoal, afastando-se dos retratos realistas. Um certo número de acontecimentos parece ter conduzido a esse afastamento: a I Guerra Mundial – que o levou a refugiar-se na Suíça – e uma nova relação com a pintora Emmy Scheyer. Muitas das cabeças pintadas nessa altura parecem ter sido inspiradas por essa musa. Outra inspiração, mais óbvia, particularmente nos olhos e no nariz, foram as cabeças de Picasso, cerca de dez anos antes, nos começos do Cubismo, sob o impacto das máscaras tribais.

Jawlensky permaneceu na Suíça até 1921. Tinha até então um pequeno círculo de amigos. O antigo grupo de Munique desmembrara-se e alguns deles haviam sido mortos. Durante um certo período, em torno  do lago Genebra, dedica-se a fazer variações sobre paisagens.

Fora o impressionista Claude Monet  quem, com os seus estudos da Catedral de Rouen - mais de 30 -, estabeleceu a prática de fazer numerosos quadros sobre um só motivo, variando com a luz e o tempo. Essa ideia e esse processo de trabalho cativaram Jawlensky.

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Meditação (ou Prece): 1922. A face humana torna-se cada vez mais uma espécie  de armação na qual o artista pendura formas, linhas, cores, como se imagens muito diversas tentassem emergir. E como a face se tornasse cada vez mais abstracta, as fortes linhas verticais e horizontais começam a revelar-lhe o que essa nova imagem haveria de ser.
No século XX, talvez apenas Rouault e Rothko – outro  russo – haviam transmitido uma tal intensidade por meios tão perfeitos e simples: variações sobre um modelo de linhas e cores.
Jawlensky começara, entretanto, a sofrer de artrite nos anos 30. Em 1937, na casa dos 70, ficou paralítico, mas continuou a trabalhar até à morte.
«Cada um de nós descobre em si como cada obra de arte se prepara no seu íntimo. E nem sempre é necessário àquele que observa perceber a intenção do artista. Porque este cria mais ou menos inconscientemente; e nesse processo, parece comunicar muito mais do que , na realidade, teve intenção de fazer.»

Imagens: Cabeça de jovem, 1912; Cabeça mística, c. 1917; Face do  salvador, c. 1917; Cabeça abstracta, 1919

Asiatismos (e correio electrónico, vulgo «e-mail»)

NOTA: Na impossibilidade de responder ao pedido que me formularam, pois apaguei a mensagem inadvertidamente, aqui ficam os nomes de algumas obras a consultar, compradas ou compulsadas em biblioteca:

livros

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Nas malhas dos textos – XXI

«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos» - 4ª parte, por Juan Asensio

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Depois desta breve e sumária exposição, detenhamo-nos agora na primeira das características que Kierkegaard atribui ao demoníaco. As linhas precedentes, a bem dizer, já nos familiarizaram amplamente com a categoria do «hermetismo», que o filósofo, contudo, não desliga do seu corolário, ao qual chama «a abertura involuntária». O hermetismo, que é o «mutismo» de que também já falámos graças a Jean-Louis Chrétien, tem, no entanto, de exprimir-se: essa expressão só pode realizar-se de uma maneira expedita, violenta, não desejada, porquanto, explica-nos Kierkegaard em frases cheias de densidade, a «liberdade» do demoníaco, que é uma liberdade ilusória, uma «não-liberdade», quando entra «em comunicação com a liberdade exterior, revolta-se e trai então a não-liberdade». (27) Kierkegaard precisa mesmo que o «mais pequeno contacto, um olhar de passagem, etc., bastam para desencadear essa ventriloquia, terrível ou cómica conforme o conteúdo do hermetismo.» (28) Um estudo assim excede claramente o nosso propósito, mas pensamos que seria muito interessante analisar a cena do encontro entre Cénabre e o mendigo (I, 451-479) a uma tal luz, que desenvolveria a complexa relação entre dois tipos de demoníaco, aquele, sério, de Cénabre, e o outro, cómico, do mendigo. A personagem de Cénabre mereceria igualmente toda uma análise que a encarasse do ponto de vista da categoria do demoníaco kierkegaardiano, essa vontade de mutismo irremediavelmente acompanhada, em certos momentos decisivos, de um desejo irreprimível da palavra, ainda que a do inimigo luminoso e humilde, Chevance. (29) Contentemo-nos com relacionar esta primeira característica do demoníaco tal como Kierkegaard o definiu com a desvalorização do segredo a que, lembra Pierre Boutang num esplêndido e difícil livro, todo o segredo está intimamente sujeito: «Uma queda […], uma perda, está no campo de possibilidades do segredo, mantém-no vivo […] esse pretexto para dizer seja o que for, de que maneira for, essa potencialidade cadaverosa, indefinidamente decomponível, é a sombra, o tecido da sombra do ser e do calar-se […]. » (30) Ao contrário do segredo do santo, o de um Ouine está incessantemente pronto para revelar-se, para trair-se, caindo por conseguinte numa lastimável banalidade reconhecida pela própria personagem quando afirma, por exemplo, a Steeny , que está vazio (I, 1550). Poderíamos também mostrar como Peredonov, no romance de Sologub titulado Un Démon de petite envergure [A loucura de Peredonov], está igualmente pronto para a confissão involuntária que, no ridículo professor, se aproxima de uma espécie de verdadeiro desdobramento.(31)»

A 1ª parte pode ser lida aqui. A 2ª parte aqui. E a aqui. (continua)

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem:  João Queiroz, s/t

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(27) Le concept de l’angoisse, op. cit. 7, p. 293.
(28) Ibid., p. 299.
(29) Creio que estas poucas frases de Kierkegaard, bem mais que qualquer outra glosa erudita, alcançam de imediato o núcleo ontológico do drama e da personagem de Cénabre, a sua dialéctica infernal: «Demais a mais o demoníaco pode, nos domínios da religião, parecer-se, confundir-se até, com o escrúpulo religioso. É impossível discriminar a sua natureza in abstracto. Deste modo, um crente praticante pode encontrar-se subitamente angustiado por recear a comunhão. Aí está um escrúpulo […]. Uma natureza demoníaca, pelo contrário, pode ter ido tão longe na religião, a sua consciência religiosa ter-se tornado tão concreta, que a interioridade da qual esse demoníaco tem medo, e que na sua angústia procura evitar, constitui uma compreensão realmente pessoal do sacramento. Mas só quer ir até um certo ponto, por isso, detém-se, isolando-se doravante numa atitude de saber […]. », ibid., nota 1 p. 314. Esta passagem deve ser relacionada com uma outra do Journal (op. cit. 10, IV A 68, p. 268) em que Sören Kierkegaard imagina a dialéctica subtil de um homem enlouquecido que, sendo possuidor de um segredo, não o tivesse confidenciado, ainda que perdido na loucura. «[…] é como se tivesse um destino que o obriga a manter o segredo e a recusar revelá-lo», comenta o pensador, acrescentando estranhamente que talvez esse segredo, desaparecido com a própria loucura, fosse uma bênção.»
(30) Pierre BOUTANG, Ontologie du secret [sem tradução portuguesa],(Paris, PUF, «Quadrige», 1988), p. 132.
(31) Fédor SOLOGOUB, Un démon de petite envergure [1905] (traduzido do russo por Georges Arout, Lausanne, L’Âge d’Homme, Classiques slaves, 1977), p. 304 : «Essa carta saíra-lhe por acaso, assim como muitas outras atitudes que Peredonov tomava inconscientemente — qual cadáver animado por forças exteriores, forças que pareciam resolver rapidamente as coisas que lhe diziam respeito: uma troçava dele e passava-o de novo para a outra.»

Da Pintura XVIII – (1º de 2)

Alexei von Jawlensky,  1864-1941

Nascido na Rússia em 1864, Alexei von Jawlensky foi viver para Munique em 1896. Aqui, nos primeiros anos do século XX, o artista fazia parte de um círculo de pintores de vanguarda que se reunia em torno de outro emigrante russo, Kandinsky.
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No entanto, ao contrário de Kandinsky, cuja imaginação e inteligência se estendiam por variados campos, Alexei concentrou-se quase toda a vida num único tema: a face humana. «Uma face», dizia, «nunca é uma simples face para mim, é o universo inteiro.»

Jawlensky era um aristocrata e a sua família ambicionava muito que ele seguisse a carreira militar. Entrou, por isso, para a Escola de Cadetes de Moscovo, mas aos domingos, o seu dia livre, costumava frequentar a famosa Galeria Tretyakov, de onde lhe veio o fascínio pelos ícones russos. Posteriormente, trabalhou para se libertar dos estudos militares e ingressar na Academia de Artes Imperial, em S. Petersburgo, de onde  sairia depois para Munique. Em poucos anos, tornou-se uma figura central do novo movimento expressionista alemão, afastando-se das tradições do Realismo académico. A Nova Associação dos Artistas, que se congregava em torno de Kandinsky, agitava a bandeira do Modernismo.

No entanto, pouco  contribuiu para os agitados debates acerca dos caminhos futuros da arte. Não obstante, absorveu a atmosfera e partilhou a paixão colectiva. Gabrielle Münter (aqui, aqui e aqui)  intitulou o retrato de Jawlensky simplesmente de Escuta.

A pintora russa – que fora para Munique com Jawlensky e falou muitas vezes em nome dele nesses debates, Marianne von Werefkin – entendeu a preocupação dele com a arte religiosa russa, o poder místico do ícone: a face, não como um retrato, mas como uma imagem devota.
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E foi assim que Jawlensky intentou uma abordagem da imagética humana, trazendo a Idade  Média até ao século XX. Os seus quadros tornaram-se os ícones do século XX, usando a cor e a distorção dos expressionistas para reanimar uma tradição mística.

Imagens: 1 – Cabeça de italiana com cabelo preto,  1910; Meditação, 1934.

«Esta mealha de serviço»

«Portanto me ofereci a lhe fazer esta mealha de serviço, o qual direi por estar corrente na sabedoria de quanto cada renda rende[...]»

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No manuscrito de João Brandão (de Buarcos),  «Grandeza e Abastança de Lisboa em 1552», o autor vitupera vários grupos profissionais, e entre eles, o dos homens da pena, livreiros e outros mais, os intelectivos, digamos, em suma. Afora os ademanes da fantasia poética, como o de ser a cidade «a flor de todas as flores», certo é que os vícios e males são antigos. Senão vejamos:

«Da livraria que vem a esta cidade
E, se se pudera tomar cópia no certo da livraria que entra nesta cidade, o que não pode fazer por não pagar direitos, nem terem com os livreiros receita. E porém vistas as lojas que tem na Rua Nova e a grossura delas, e valia, e os alugueres que pagam, e como a mór parte dos livreiros todos são ricos, eu ousaria afirmar, vistos os respeitos que tenho dito, valerem as livrarias que na cidade se gastam, em cada um ano, vinte mil cruzados.»

e para não ser enfastiante a ledores apressados, apenas mais uns excertos:

«[...] mais de trezentos homens que ganham dinheiro por escrever», ou que «ganham dinheiro por pena», «dez homens, com suas mesas, a escrever cartas e petições» e «nunca estão vagos»; «e entre eles há homem que ganha com que casa filhos e filhas, e compra propriedades.»

Poderíamos continuar com o caso por junto de advogados, juízos e juízes, escrivães e contadores, mas ficar-nos-emos tão-só pelo dos letrados, que são de 1º, 2º e 3º (grupos):

«… e levam parte da grossura da terra.»

É claro que também as «couveiras» são alvo de embirração de João Brandão, «as quais ganham quanto largo têm as consciências, porque dão aos donos das hortas o que querem e lhes bem parecem.», mas isso, isso já é outra história.

Os sublinhados são meus.

Imagem:  William Hogarth, Taste in High Life

Trouxeste a chave?

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Schneider, Norbert, Vermeer: a obra completa, tradução de Carlos Sousa de Almeida

O Chico do Cachené, com gagé

Macomboa, de mestre de carpintaria a mestre arquitecto

«Com Elsden, chegaram a Coimbra inúmeros oficiais com a missão expressa de dar cumprimento à reforma que se preparava trabalhando sob a orientação do engenheiro. Em redor das obras da Universidade se junta toda uma plêiade de artistas, uns locais, outros enviados de Lisboa, erguendo uma “nova” Universidade liberta do obscurantismo escolástico e encontrando a sua expressão nas linhas claras, definidas e vigorosas das fórmulas clássicas. [...] A nossa finalidade, é tão só dar a conhecer a obra de um artista que se manteve ao serviço da Universidade durante mais de três décadas, avaliando custos, emitindo pareceres, dirigindo e fiscalizando obras, fazendo desenhos e projectos, fornecendo apontamentos.» Lurdes Craveiro, Da Nota prévia

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Nas malhas dos textos – XX

«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos»- 3ª parte, por Juan Asensio

angel-caido-madrid3Fechado e concentrado em si mesmo, no seu próprio vazio, o demoníaco, segundo Kierkegaard, não está, no entanto, irremediavelmente arredado para sempre da relação com o Bem, neste caso pura abertura, libertação.(22) Este ponto essencial da definição kierkegaardiana do demoníaco, encontrá-lo-emos no final do nosso artigo, quando evocarmos, para personagens como Cénabre ou Ouine, a possibilidade de uma Reparação, no sentido eminentemente religioso em que a entendia o pensador dinamarquês. Esta espantosa particularidade da esfera demoníaca, hermeticamente fechada, embora nunca ao ponto de o Bem não poder romper-lhe a membrana estanque, pode parecer-nos contraditória por pertencer ao domínio, tão intimamente analisado por Kierkegaard, do paradoxo. É em Crainte et tremblement, a propósito do exemplo do tritão sedutor da inocente Agnés, que Kierkegaard vai desenvolver a ideia de uma estreita ligação entre a esfera demoníaca e a esfera divina: porque é vítima dos maiores tormentos, porque se censura continuamente de ter seduzido a jovem e depois ter-se apaixonado por ela, o espírito do demoníaco tritão não consegue libertar-se do remorso. Este último poderá servir ao vil sedutor para tentar salvar das suas próprias garras a jovem seduzida: assim, se o tritão se submete ao demoníaco, “talvez venha ainda a tentar salvar Agnés, um pouco como, num certo sentido, é possível salvar um homem por meio do mal.” (23) Essa tentativa é, porém, tudo menos certa, pois o tritão, caso se arrependa efectivamente, pode escolher vários caminhos: o mais raro, aquele que, segundo Kierkegaard, é excepcional e constitui o salto para a fé (24), consiste em “deixar-se salvar por Agnés”, sendo, pelo contrário, o caminho mais comum manter-se escondido dos olhos dos homens, tornar-se um “demónio” para sempre assediado pelo remorso, mas um remorso maléfico, que recusa ser, literalmente, descoberto, libertado do seu invólucro por aquela que tem o poder de o fazer. No entanto, mesmo encerrado na prisão do mutismo hermético, aquele que se submete ao demoníaco continua a estar em relação com Deus. Esta ideia admirável de Kierkegaard explica-se pelo facto de, aos seus olhos, o tritão, pelo exercício contínuo das suas faculdades intelectuais, pelo facto de se ter tornado, por um incessante frente-a-frente, o héautontimorouménos evocado por Baudelaire(25), se elevar acima dos outros homens, acima do «geral» porque, escreve o filósofo, o demoníaco “tem a mesma propriedade do divino, permite ao indivíduo entrar numa relação absoluta com ele.” (26) Não é preciso insistir na íntima conexão que liga inextricavelmente, em Bernanos, mas igualmente em obras de predecessores seus como Barbey d’Aurevilly, Ernest Hello ou Léon Bloy, os destinos do santo e do pecador.»

A 1ª parte pode ser lida aqui. A 2ª parte aqui. (continua)

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Ricardo Bellver, Angel caido (pormenor), Parque del Retiro – Madrid

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(22) Cf. Le Concept de l’angoisse, op. cit. 7, p. 294, em que o autor escreveu: «O demoníaco é o hermetismo, a angústia do Bem. Se designarmos por X o hermetismo e o seu conteúdo for X, quer dizer, terrível ou insignificante no seu grau mais elevado, […], que significa então este X que é o Bem? Significa abertura.»
(23) Crainte et tremblement, op. cit. 8, p. 169.
(24) A alusão à experiência biográfica de Sören Kierkegaard é aqui evidente; sabemos que é numa carta à sua noiva, Régine Olsen, datada de 9 de Dezembro de 1840, que o filósofo menciona pela primeira vez a história do Tritão e de Agnés. Além disso, é o próprio Kierkegaard quem, no seu Journal (op. cit. 10, IV A 107, p. 280), lembra que foi incapaz de levar o seu arrependimento até ao fim depois de ter abandonado a noiva. «Se tivesse tido fé, não teria deixado Régine». Sim!, mas poderíamos completar esta frase lapidar do filósofo acrescentando que, se Kierkegaard tivesse tido fé, teria aceite que Régine o libertasse dos seus próprios tormentos, os quais evoca deste modo (IV A 107, p. 281): «Se tivesse tido de me explicar, teria tido de admitir coisas pavorosas, a relação com o meu pai, a sua melancolia, a noite eterna que nele lavra, o meu descaminho, os meus desejos e excessos, que talvez não sejam afinal tamanho ultraje aos olhos de Deus […].»
(25) Na recolha intitulada «Spleen et Idéal» das Fleurs du Mal [As flores do mal]. Como não pensar, ao ler a antepenúltima estrofe do poema, numa ilustração do fechamento especular ao qual, voluntariamente, se submete aquele que se fecha no demoníaco?
«Eu sou a ferida e a faca! / Eu sou a bofetada e a face! / Eu sou os membros e a roda, / E a vítima e o algoz!»
(26) Crainte et tremblement, op. cit. 9, pp. 169-70.

«¡una porra!»

«Wagner: Come hither, sirrah boy.
Clown: Boy? Oh, disgrace to my person! Zounds! ‘Boy’ in your face! You have seen many boys with beards, I am sure.» Marlowe, (Acto 1, cena 4)

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«En Occident se déroulaient surtout dans la période du carnaval.»

A propósito de Carnaval e do Casamento Homo:

«Sébastien au cloaque

Ce qui est frappant, c’est que les mariages en Occident se déroulaient surtout dans la période du carnaval. Le saint patron qui apparaît à ce moment, c’est saint Sébastien. Or Sébastien est envoyé au cloaque. Il est en rapport avec la mort et l’homosexualité. On note sur ses représentations qu’il montre toujours son aisselle. Ce creux me paraît très féminin.

Tous ces éléments relient le mariage, la mort, et les rites scatologiques : je pense au rituel plus connu où on porte aux mariés un pot de chambre et des choses qui miment les excréments.

Alors quel sens donner à ceci ? Faut-il penser que les Dieux n’acceptent le mariage que s’il reste d’une certaine manière infécond ? Sodomie et scatologie jouent un rôle constant. On a des allusions aussi, dans l’expression latine « ganyméder », faire comme Ganymède : c’est un conseil donné aux jeunes mariés de passer lors de la nuit de noces du registre anal au registre sexuel.» O resto, já a seguir, numa entrevista com o etnólogo Claude Gaignebet:

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A palingenesia, o mundo e os blogues


Nihil. Nada. O progresso é uma ilusão. Como disse Heidegger: «A posição metafísica básica de Nietzsche pode ser definida por duas afirmações. Primeira: o carácter básico dos seres é do tipo “vontade de poder”. Segunda: o Ser é o “eterno retorno do mesmo”». E Nietzsche escreveu: «Após a visão do Übermensch na terrível forma de doutrina da recorrência: agora suportável!»
No Ecce Homo, afirmou que só os «ruminantes académicos» (como eu gosto desta expressão!) podiam interpretar o seu super-homem darwinisticamente como um membro de uma espécie superior ao homem. E assim se chega à
Decadência do Ocidente, de Spengler. A história humana, tal como os blogues, seria uma série de ciclos infinitos de nascimento, crescimento, decadência e morte. Um epítome clássico? Sísifo. Camus lembra um dos Super-Homens de Nietzsche: «A dor também é uma alegria.»
E nisto estamos e vamos: «O esforço de se elevar a si mesmo até ao cume é suficiente para preencher o coração de um ser humano. Temos de imaginar Sísifo feliz.» Camus dixit.


E recorrentemente, vem-me à ideia a palavra basbaque (a verde, que ainda há esperança).

Sim, também é esse o significado… mas aquele que mais me martela o cérebro e as mãos ao abrir o dicionário na letra B é outro: «o homem que está espiando o cardume de peixe, ou arribação, junto das armações, para lhe lançar as redes em cerco».


Imagem: Zhang Lin Hai, Paradise Series No. 24, óleo s/tela, 2004

Yu Chen, Red Babies 2005 Series No. 13, óleo s/tela, 2005

Mais um Papa que trata da sua existência

«There is no exquisite beauty without some strangeness in its proportions.», Edgar A. Poe

É TODA UMA ARTE COMANDADA PELA INTELIGÊNCIA

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Um hábil artista… da fina intelligentsia portuguesa – ou porque são cada vez mais de recear os bêbedos temerários quando jogam ao boxe com a sua própria sombra: brilham-lhes as manápulas, contorcem-se desvairados, soltam esgares, saltam vedações, sobem avenidas e debitam como distribuidores automáticos o dealbar de novas filosofias com a luz de outros mundos.

Na «língua culta e burilada» do ilustre falastrão: «A skilful literary artist has constructed a tale. If wise, he has not fashioned his thoughts to accommodate his incidents; but having conceived, with deliberate care, a certain unique or single effect to be wrought out, he then invents such incidents — he then combines such events as may best aid him in establishing this preconceived effect. If his very initial sentence tend not to the outbringing of this effect, then he has failed in his first step. In the whole composition there should be no word written, of which the tendency, direct or indirect, is not to the one pre-established design.» Edgar A. Poe

E porque toda a tradução é tolice, oremos e estrepitemos com ele. Ajeitemos o lornhão e traduzamos pedindo, com pudor cenobítico, autorização para a sua adaptação, com fulgor, como é de sua feição:

«Um hábil artista… prepara um post. Se é douto, não tratará de formar os seus pensamentos para os adaptar aos acidentes dele: mas depois de ter concebido, com deliberado propósito, produzir um único e simples efeito, é certo e sabido falhar logo no primeiro passo. Em toda a composição, nem uma só palavra se deve escrever cuja tendência, directa ou indirecta, não obedeça ao desígnio preestabelecido.»

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PS - Aqui foram segregadas algumas toxinas. É má vontade, é bem de ver!

E já que estamos em maré de panfletarismos, Laurent Margantin reflectiu  - é de rebentar! – sobre «O Intelectual e a Sua Sombra» em França, a propósito do último livro de Régis Debray, I.F. Suite et fin, nestes termos:

«Il est question ici de quelques « types » : l´I.O., ou « intellectuel original » ; l´I.F., ou « intellectuel français » (qui curieusement semble être le meilleur représentant de l´intellectuel moderne[1]) ; l´I.T, ou « intellectuel terminal », inséparable du J.F, ou « journaliste français ». Debray constate en effet que depuis l´acte fondateur que représente le fameux article de Zola de 1898 lors de l´affaire Dreyfus de l´eau a passé sous les ponts, et que l´engagement de l´intellectuel s´est transformé en une sinistre singerie. D´I.O., l´écrivain engagé (« l´ami des idées atteint du virus politique ») est devenu un I.T, « terminal » en ce qu´il ne sait que ressasser les mêmes vieux mots d´ordre humanitaires et répéter les mêmes actes symboliques, soutenus par le pouvoir médiatique, lui-même financés par les puissants. Un tableau clinique est dressé, caractérisant les maux dont souffre l´I.T. sans s´en rendre compte : autisme collectif, déréalisation grandiloquente, narcissisme moral, imprévision chronique, instantanéisme.

L´existence de groupes d´intellectuels assez fermés, et se déplacant dans un cercle réduit de journaux et de revues, n´est pas nouvelle. On pourrait seulement dire qu´avec l´augmentation violente du bruit médiatique les règles de fonctionnement de ces groupes ou tribus sont devenues plus connues, tandis qu´il y a encore trois ou quatre décennies elles paraissaient moins exposées au grand public, qui percevait avant tout des échos de la caste intellectuelle, caste qui se tenait encore raisonnablement à l´écart de la foule. Or ce que critique Debray c´est la transmutation de l´intellectuel en journaliste (il est clair que certains philosophes médiatiques d´aujourd´hui n´auraient jamais atteint le statut d´ «intellectuels » il y a un demi-siècle). En ce qui concerne ce dernier point, il semble que le livre de Debray vient un peu tard. Voilà trente ans que des philosophes et des poètes (Gilles Deleuze, René Char, Kenneth White pour n´en citer que quelques-uns) ont fait le constat d´un dévoiement généralisé de ce qu´on entendait et respectait à travers la figure de “l´intellectuel engagé”, figure au nom de laquelle une génération d´auteurs a réussi à se placer en première ligne sur le marché de l´édition et des médias. Debray stigmatise aujourd´hui l´absence de rigueur et le manque de distance sur les événements de ces nouveaux intellos, mais toute personne un peu lucide qui a vu progresser la discussion intellectuelle vers les seules questions d´actualité dans les annés 50 et 60 (Algérie, Vietnam par exemple) a pu prévoir que l´espace du débat d´idées allait se rétrécir et s´appauvrir à grande vitesse en France (et ailleurs faut-il ajouter).» et caetera

Imagens: Bugiada e  Machine manifesto

Nas malhas dos textos – XIX

«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos»2ª parte, por Juan Asensio

Outra observação: os múltiplos pseudónimos mostram-nos que a análise do conceito de demoníaco não poderia ser unívoca. Depois, o último pseudónimo mencionado, Johannes de Silentio, constitui uma indicação preciosa relativamente à problemática do nosso estudo, já que, uma vez mais, a temática que nos ocupa está indubitavelmente ligada ao mutismo. Por fim, o facto de este conceito ser eminentemente literário, como o demonstra a reflexão de Kierkegaard sobre a personagem de Fausto, pode afastar as eventuais críticas que poderiam ser feitas sobre a abordagem, aparentemente pouco rigorosa, e que consiste em aplicar a uma obra literária, como nós o fazemos, uma categoria filosófica. Clair lembra-o, de resto, sublinhando que o Fausto, na obra do pensador dinamarquês, “se refere à via estética”, da mesma maneira que D. Juan, sendo, diferentemente deste último, “uma expressão menos pura da estética, [...] mais indirecta, mais tensa, mais torturada.”(14)

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Antes de definir as características principais que Kierkegaard reconhece ao demoníaco, detenhamo-nos brevemente na definição deste conceito, agora aplicado à investigação no campo da literatura, depois de termos afastado aquela que dá Michel Guiomar (15), definição a nosso ver bastante vaga. De imediato, uma forma fácil de tentar defini-lo seria transpor para a literatura a dialéctica do parecer e do não-parecer, do visível e do invisível, dialéctica por que muitos autores abordaram o demoníaco que, segundo Myriam Watthee-Delmotte, continua a ser uma das invariantes de qualquer manifestação literária (e talvez, mais largamente, artística) do Mal. (16) Enrico Castelli, na perspectiva de um estudo do aparecimento do Diabo nas obras pictóricas ocidentais, define o demoníaco dizendo que ele é “uma surpresa não absoluta, a surpresa da sedução” (17), aproximando este último da categoria do oculto o qual, precisamente por não constituir uma «surpresa absoluta», pode soltar o arsenal diabólico da tentação, do entremeio e da dúvida, numa palavra, da curiosidade, diante dos olhos deste ou daquele santo que, como Santo António, importará fazer sucumbir. Em suma, o demoníaco, como nunca é directamente visível, dissimulado que está no torvo e no oblíquo (18) do oculto, “aflora para que perseveremos na [sua] procura”, sendo o sinal que constitui a sua afloração “feito para ocultar, não para revelar.” Deste modo, prossegue o autor, “ocultar” é realmente “a positividade do nada” (19), não se dando jamais o demoníaco senão por indícios dificilmente interpretáveis, numa presença ambígua que, ao contrário da carta roubada do conto de Edgar Poe (20), nunca é tão manifesto a não ser pelo próprio facto de não se oferecer ao olhar de todos. Retomando esta análise da dialéctica do visível e do invisível, do oculto e do manifesto, e transpondo-a para o estudo do discurso de quatro famosos “demonógrafos”, Sprenger, De Lancre, Boguet e Bodin, Sophie Houdard definirá, por sua vez, o demoníaco afirmando que ele “cobre todas dimensões, as visíveis e as invisíveis”, estando, com efeito, “lá onde o vemos”, “nada provando no entanto a sua ausência “logo que deixamos de o discernir”: comanda assim “todos os caminhos do equívoco, da dúvida e do erro, pois que ao reconhecermos a sua marca, estamos provavelmente a ser vítimas da ilusão dos sentidos que ele manipula, e ao não o vermos ou ao negá-lo, estamos por sua vez a ser objecto de outra das suas mistificações”. (21) De certo modo, poderíamos dizer que o demoníaco investe inteiramente, para o fazer seu, no domínio da fantasmática ou, diria Georges Bernanos, dos “maus sonhos”. Porque a sua particular deiscência, de facto, a sua presença, a qual nunca podemos garantir que é plenária, verdadeira, “real”, disse George Steiner, favorece a queda contínua da personagem que é sua vítima num fechamento tanto mais definitivo quanto é certo as barreiras não existirem, mergulha-a nesse estado de eterna queda  evocado por Aloysius Bertrand no seu Gaspard de la nuit [Gaspard de la Nuit: fantasias à maneira de Rembrandt e de Callot, tradução brasileira], não sendo o cárcere outra coisa senão a própria liberdade daquele que sonha, mas uma liberdade vazia que não encontra  nenhum limite real que a determinaria pela realidade imprescritível da decisão, porque o particular aparecimento do demoníaco suspende a intrusão benéfica da realidade. O demoníaco, quer para Bernanos quer para Kierkegaard, fecha-se no seu pesadelo como Lady Macbeth, na tragédia de Shakespeare, se enclausura viva  no entremeio da insónia.»

A 1ª parte pode ser lida aqui. (continua)

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Fausto,  F.W. Murnau, fotograma

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(14) CLAIR, op. cit., p. 117 ss.

(15) Michel GUIOMAR, Principes d’une esthétique de la mort [sem tradução portuguesa] (Paris, Le livre de poche, «Biblio essais», 1993), p. 144 : «Poderíamos […] chamar-lhe [ao Demoníaco] Crepuscular das profundezas. Ele é a tomada de consciência do artista do antagonismo revelado pelas categorias fantásticas, de um antagonismo essencial, irredutível, do Bem e do Mal no Mundo, antagonismo sentido pela dualidade do seu daimon interior, aqui suposto como fonte primeira da sua arte.» Conservámos a grafia do autor.

(16) Myriam WATTHÉE-DELMOTTE (sob a direcção de), «Introduction» à Le Mal dans l’imaginaire français (1850-1950), (Paris, L’Harmattan et les éditions David, 1998), p. 22 : «O imaginário do Mal, no seu fundamento, mantém-se essencialmente dual, e as dicotomias do verdadeiro e do falso, do real e do ilusório […] continuam a estruturá-lo.» [Sem tradução portuguesa.]

(17) Enrico CASTELLI, Le démoniaque dans l’art, sa signification philosophique [sem tradução portuguesa] (Paris, Vrin, 1958), p. 30.

(18) André Clair, ao falar da personagem de Fausto, tal como é analisado por Kierkegaard, evocará o seu carácter oblíquo ou torvo; cf. loc. cit.11, p. 128. Acrescentemos que, segundo Jean-Louis Chrétien, a atenção prestada por Kierkegaard à obliquidade, ou seja, a uma manifestação fenomenológica sobre um modo não óbvio, será um dos traços distintivos da sua filosofia, cf. Lueur du secret [sem tradução portuguesa] (Paris, L’Herne, 1985), p. 58. Extrairemos desta obliquidade uma consequência extrema a propósito da personagem de Monsieur Ouine.

(19) CASTELLI, op. cit.16, pp. 33-3.

(20) La Lettre volée [A Carta Roubada (The Purloined Letter)], conto inserto na recolha intitulada Histoires extraordinaires [Histórias Extraordinárias].

(21) Sophie HOUDARD, Les sciences du diable. Quatre discours sur la sorcellerie [sem tradução portuguesa] (Paris, Cerf, 1992), p. 222.

Do poeta maldito e outros mitos

«Eh! quoi! vous ici, mon cher? Vous, dans un mauvais lieu! vous, le buveur de quintessences! vous, le mangeur d’ambroisie! En vérité, il y a là de quoi me surprendre.

– Mon cher, vous connaissez ma terreur des chevaux et des voitures. Tout à l’heure, comme je traversais le boulevard, en grande hâte, et que je sautillais dans la boue, à travers ce chaos mouvant où la mort arrive au galop de tous les côtés à la fois, mon auréole, dans un mouvement brusque, a glissé de ma tête dans la fange du macadam. Je n’ai pas eu le courage de la ramasser. J’ai jugé moins désagréable de perdre mes insignes que de me faire rompre les os. Et puis, me suis-je dit, à quelque chose malheur est bon. Je puis maintenant me promener incognito, faire des actions basses, et me livrer à la crapule, comme les simples mortels. Et me voici, tout semblable à vous, comme vous voyez!

– Vous devriez au moins faire afficher cette auréole, ou la faire réclamer par le commissaire.

– Ma foi! non. Je me trouve bien ici. Vous seul, vous m’avez reconnu. D’ailleurs la dignité m’ennuie. Ensuite je pense avec joie que quelque mauvais poëte la ramassera et s’en coiffera impudemment. Faire un heureux, quelle jouissance! et surtout un heureux qui me fera rire! Pensez à X, ou à Z! Hein! comme ce sera drôle!»

Baudelaire, Le Spleen de Paris, 46. Perte d’Auréole

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«Hypothèses de recherche sur les origines d’un mythe

[...]  Peut-on vraiment parler d’un mythe du poète maudit ? Mais pour désigner quoi, exactement ?

Poète malheureux, poète maudit, malédiction littéraire
[...]
3
En 1980, Diana Festa-McCormick faisait paraître dans un recueil d’études sur la littérature du xixe siècle un essai où elle cherchait à remonter aux sources de ce mythe que Verlaine avait selon elle consacré avec ses Poètes maudits, mais qu’il n’aurait pas forgé de toutes pièces. Pour Festa-McCormick, la plupart des matériaux du mythe auraient été rassemblés au lendemain de la révolution de Février par des écrivains déçus de la Deuxième République et du climat du Second Empire. Cette déception se serait accompagnée, chez plusieurs poètes de l’époque, d’une perte de confiance à l’endroit de la bourgeoisie et d’une envie de séparer définitivement l’ordre littéraire du politique. Certains se seraient enfermés dans la solitude et se seraient désignés comme les martyrs d’une civilisation industrielle méprisant l’art pur :

The middle of the nineteenth century was a period that gave rise to the phenomenon of the poètes maudits, driven to Bohemia and to starvation by the creed of a materialistic society. It constituted the disillusioned answer of authors to the boastful or prophetic claims of romantic poets to be “the unacknowledged legislators of the world” (Shelley)

4
Parmi ces poètes, un nom surtout retient l’attention de Festa-McCormick, celui de Baudelaire, auteur non seulement des Fleurs du mal, mais aussi, dès 1852, d’un article important sur Edgar Allan Poe. Festa-McCormick rappelle que le poète américain devient sous la plume de Baudelaire la victime expiatoire d’une société toute positive, matérialiste, croyant au progrès et aux bienfaits de l’industrie, persécutant ceux qui rêvent et qui se consacrent corps et âme à la Beauté idéale3. Festa-McCormick ne limite pas son enquête au corpus français ; elle montre parfaitement bien que le concept de « poète maudit » traverse la Manche et en vient à définir l’expérience de poètes anglais, tel Ernest Dowson, lui-même traducteur et introducteur de Verlaine en Angleterre.
3 Ibid., pp. 206-207.icare-bas-relief

5
L’un des aspects peut-être les plus étonnants de cette étude sur les poètes maudits, qui attribue à la révolution de Février et à Baudelaire un rôle de premier plan dans l’émergence du mythe, est justement l’importance accordée par l’auteure à ses manifestations littéraires avant 1848. La première moitié de l’article est en effet consacrée pour l’essentiel à montrer que plusieurs poètes (anglais, allemands, français) de la première moitié du xixe siècle ont exploité diversement la thématique du malheur poétique4. À quoi attribuer l’omniprésence de ce thème dans la poésie romantique ? Les nombreux poèmes cités dans cette première partie de l’essai participent-ils déjà de ce mythe qui ne doit pourtant se former, selon l’auteure, qu’au lendemain de Février ? Et si c’est le cas, de quelle manière y participent-ils ? Sur ces questions, Festa-McCormick reste évasive. En l’état, la première partie de l’étude paraît miner par avance la thèse avancée et soutenue dans la seconde. [...]

À peu de choses près, c’est ici la thèse défendue et illustrée par Claude Abastado dans Mythes et rituels de l’écriture28. Abastado considère, à l’encontre d’Eliade, que les mythes peuvent être dépassés par les événements qu’ils sont sensés expliquer, de sorte qu’aucun mythe ne serait immortel. Les mythes du Poète et du Livre qu’étudie Abastado dans son ouvrage seraient liés à la transformation significative des pratiques littéraires et des conditions de production au xixe siècle. Le développement de la fonction d’éditeur, le déclin du mécénat au lendemain de la Révolution, la transformation des publics par suite du développement de l’instruction, la multiplication des postulants à la fonction d’écrivain, l’entrée de la littérature dans l’économie de marché sont autant de facteurs conjoncturels qui auraient jeté la littérature dans une crise sans précédent et auraient contribué à sa marginalisation sociale. Devant ce phénomène, les écrivains auraient réagi par l’élaboration et la diffusion de mythes reflétant certes l’état de crise, mais offrant de cette crise une image déformée et valorisante pour la littérature et les écrivains (ce n’est pas la littérature qui serait rejetée par l’économie de marché, mais elle qui s’en exclurait au nom de principes supérieurs). Le mythe aurait donc une double fonction, mystificatrice et légitimatrice, puisque tout à la fois il se substituerait à l’image fidèle de la réalité historique, empêchant ainsi les écrivains d’en prendre conscience et d’agir en conséquence, et projetterait de la collectivité et de l’activité littéraires une image positive et conquérante (le Poète serait un héros solitaire poursuivant, ” dans un monde dégradé, des valeurs perdues29 “). Ces deux fonctions sont évidemment indissociables, puisque c’est précisément ce reflet faux, mais édifiant qui ” dispense[rait] de l’action efficace30 “. [...]» in Contextes, Pascal Brissette

(Os sublinhados são meus.)

Imagens: Magritte, O bom exemplo – Retrato de Alexandre Iolas; Ícaro, baixo-relevo

«O herói é um rapaz comme il faut»

umberto-brunelleschi3

Da leitura, entre outras coisas, por exemplo, de uma tal PNETliteratura / literatura pnet (É um dó d’alma ver o Almeida Faria ali, valha-nos S. Pancrácio! – eu explico qq coisita, as orações a este santo são muito eficazes para se obter um bom trabalho e uma ocupação honesta, além de ser o santo protector dos aflitos.):

Ao menos vão ler os clássicos, homes de boa vontade, que sempre aprenderiam algo e desentupiam as prateleiras das livrarias e do espaço ref(V)erencial e desatravancavam os cérebros, os deles e os dos aprendizes de feiticeiro. A citação acima, em título, é de Álvaro de Carvalhal.

umberto-brunelleschi2«Todo o drama e todo o romance precisa de: / Uma ou duas damas, [mais ou menos ingénuas,] / Um pai, [nobre ou ignóbil,] / Dois ou três filhos de dezanove a trinta anos, / Um criado velho, / Um monstro, encarregado  de fazer as maldades, / Vários tratantes e pessoas capazes para intermédios [e centros]. / Ora bem, vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eug. Sue [sic], de Víctor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles,  as figuras que precisa [...] forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados.»  Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra

Imagens: Umberto Brunelleschi, Le Malheureux Petit Voyage

Nas malhas dos textos – XVIII

Passaremos, de seguida – antes de voltar a uma reflexão mais pessoal sobre o Fantástico – a traduzir alguns textos do crítico e ensaísta francês Juan Asensio (grand merci), com excelentes reflexões sobre o Mal, a literatura e a filosofia . Este é o primeiro de um extenso artigo, por isso, dividi-lo-emos em várias partes. Eis Mr. Ouine (Oui ou Non):  «O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos» [este artigo foi publicado no n°23 dos Études bernanosiennes, ed. Minard (2004).] O conceito de hermetismo aplicado ao estudo de Monsieur Ouine, o último romance de Georges Bernanos.
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«O Demoníaco segundo Sören Kierkegaard em Monsieur Ouine de Georges Bernanos»

«I APROXIMAÇÕES E DEFINIÇÕES DO DEMONÍACO1ª parte

Seja-nos permitido, à maneira de preâmbulo, manifestar o nosso reconhecimento para com dois filósofos que, primeiramente, nos deram a ideia de aplicar a Monsieur Ouine [sem tradução portuguesa] a categoria de demoníaco (1) tal como Kierkegaard a definiu. O primeiro desses pensadores é Jean-Louis Chrétien, que evoca explicitamente o romance de Georges Bernanos relacionando-o com as páginas em que o pensador dinamarquês se interroga sobre o conceito de hermetismo infernal. (2) Não é vão lembrar que, neste artigo, Jean-Louis Chrétien liga a temática do demoníaco à perda da palavra, à sujeição voluntária a uma afasia que é a consequência final de um “distanciamento tomado para com a palavra, pelo silêncio, a mentira, a reticência ou a maledicência” (3), voltando o filósofo, numa das suas recentes obras, L‘arche de la parole [sem tradução portuguesa], a esse silêncio demoníaco, “silêncio das trevas e da morte [...] do revés e do isolamento, [...] grande silêncio glacial dos infernos que Bernanos reflectiu [...]” (4), declarando que não são “já o que ameaça a palavra, como à sua volta a perpétua obsessão, o perpétuo cerco do caos renascente”, mas o que essa palavra “passou para se tornar ela mesma, aquilo em que foi baptizada” (5). Encontraremos, no final do nosso artigo, esta preciosa indicação: o hermetismo infernal, o silêncio ou antes o mutismo demoníaco não estão total e definitivamente arredados da relação com o Bem, da possibilidade de uma redenção. Deduziremos daqui uma hipótese, como se verá, radical no seu próprio paradoxo. O segundo filósofo que, tanto quanto sabemos, mencionou Monsieur Ouine relacionando-o com o hermetismo demoníaco é Jean-Luc Marion num artigo intitulado “Le Mal en personne” (6). Voltaremos, mais à frente, às análises feitas por estes dois autores que, a muitos respeitos, têm como resultado as mesmas conclusões quanto ao que poderíamos chamar a evanescência, ou melhor, o vazio ontológico da personagem epónima do romance de Bernanos que, por opção, decidiu fechar-se em vida no in pace, no cárcere sem luz que é o mutismo hermético do demoníaco.

Não sendo uma categoria essencial da filosofia kierkegaardiana (7), o conceito de demoníaco não deixa de ocupar um lugar que importa definir brevemente. Especificamente mencionado e analisado, este surge na obra de Kierkegaard por três vezes e sob três assinaturas pseudonímicas diferentes: primeiramente, em Le Concept de l’angoisse (8) [O Conceito de Angústia], saído à luz em 1844, assinado por Vigilius Haufniensis, depois em Le Traité du désespoir [O desespero humano: doença até à morte], redigido por Anti-Climacus e publicado em 1849 (9). Em Crainte et tremblement (10) [Temor e Tremor], sem dúvida a obra mais conhecida de Kierkegaard, com publicação em 1843 sob o pseudónimo de Johannes de Silentio, o demoníaco é também abordado através da história de Agnés e o Tritão (11), livremente adaptada de um poema de Andersen, Agnes (sic) og Havmanden, de 1834, tal como na primeira parte de Ou bien-Ou bien [sem tradução portuguesa] era a figura de Fausto que servia a Kierkegaard, na sua exploração do demoníaco, de cicerone virgiliano. Atendendo a estas simples anotações, várias observações se impõem: antes do mais, o conceito de demoníaco atesta, pelo seu tratamento, uma real constância (12) nas preocupações de Kierkegaard, principalmente se nos lembrarmos, com André Clair, de que as primeiras anotações do filósofo dinamarquês sobre a personagem de Fausto datam dos anos 1835-1837, tendo lido as principais obras que se referem à lenda do doutor que concluiu um pacto com o diabo, mesmo que não se detecte nenhuma referência a La Tragique histoire du docteur Faust de Marlowe [Doutor Fausto de Marlowe]. (13)»

(2ª parte: a ler aqui.)

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagem: Uta Barth, Untitled, from nowhere near (nw 10)
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(1) Ou do diabólico. (N. do T.)
(2) Jean-Louis CHRÉTIEN, «Perdre la parole», pp. 161-173, in Kierkegaard ou le Don Juan chrétien [sem tradução portuguesa] (Monaco, Éditions du Rocher, «Les Cahiers du Rocher», 1989), p. 172 : «A profunda reflexão de Georges Bernanos sobre o demoníaco, que culmina em Monsieur Ouine, segue fielmente a de Kierkegaard». Este artigo foi retomado na recolha intitulada Le regard de l’amour [sem tradução portuguesa] (Paris, Desclée de Brouwer, 2000), pp. 91-105.
(3) CHRÉTIEN, loc. cit.2, p. 161.
(4) CHRÉTIEN, L’arche de la parole (Paris, PUF, «Épiméthée», 1998), p. 198.
(5) CHRÉTIEN, ibid.4.
(6) Jean-Luc MARION, «Le Mal en personne», pp. 13-42, in Prolégomènes à la charité [sem tradução portuguesa] (Paris, La Différence, «Mobile matière», 1991) em que Monsieur Ouine é mencionado nas páginas 35, 38 e 39.
(7) Ao que sabemos, não foi consagrada qualquer monografia ao estudo do demoníaco na obra de Kierkegaard.
(8) Sören KIERKEGAARD, Le Concept de l’angoisse (Paris, Gallimard, «Tel», 1990).
(9) KIERKEGAARD, Traité du désespoir (Paris, Gallimard, «Folio Essais», 1999). Uma tradução mais correcta deste título seria La Maladie à la mort [Doença até à Morte], aliás preferida pelos tradutores da obra completa do filósofo dinamarquês, Paul-Henri Tisseau e Else-Marie Jacquet-Tisseau, para as Editions de l’Orante.
(10) KIERKEGAARD, Crainte et tremblement (Rivages poche, «Petite bibliothèque», 1999).
(11) Resumindo, em poucas palavras, a história de Agnés e o Tritão é apresentada deste modo por Kierkegaard no seu Diário, no «papirer» IV A 113 : «Pensara pegar em Agnés e o Tritão de um ponto de vista que não esteve certamente presente no espírito do poeta. O tritão é um sedutor, mas depois de conquistar o amor de Agnés, fica tão comovido que quer pertencer-lhe sem reservas – mas isso é impossível, teria de lhe falar de toda a sua triste vida, que em certos momentos é um monstro, etc. A Igreja não pode abençoá-los. Fica desesperado, mergulha até ao fundo do mar e aí se mantém, mas faz crer a Agnés que não a quis enganar.», in Journal (excertos) [sem tradução portuguesa], 1834-1846 (Paris, Gallimard, 1986), p. 283.
(12) Constância que, no espírito do pensador dinamarquês, era inseparável da certeza de que, em filosofia pelo menos, o demoníaco era certamente um dos conceitos menos estudados.  Cf. Crainte et tremblement, op. cit.9  p. 181 : «Em geral, não se ouve falar do demoníaco, ainda que, particularmente na nossa época, o assunto mereça ser explorado […].»
(13) André CLAIR, Kierkegaard. Penser le singulier [sem tradução portuguesa] (Paris, Cerf, «La nuit surveillée», 1993), pp. 117-144, no capítulo IV intitulado «Le mythe de Faust et la pensée du démoniaque». Quanto a estas referências, remetemos para a página 119 desta obra.

Nas malhas dos textos – XVII

Retornemos ao Fantástico. E recomecemos com um filme de animação, O Homem da Areia, de Paul Berry, baseado na obra de E.T.A. Hoffman, Der Sandmann:

Ou a visualizar aqui.

Ilusão poética

A GUERRA JUNQUEIRO

guerra-junqueiro

«Paris, Maio.

Meu Caro Amigo .–A sua carta transborda de ilusão poética. Supor, como V. candidamente supõe, que traspassando com versos (ainda mesmo seus, e mais rutilantes que as flechas de Apolo) a Igreja, o Padre, a Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos Mártires, se pode «desentulhar Deus da aluvião sacerdotal», e elevar o Povo (no Povo V. decerto inclui os conselheiros de Estado) a uma compreensão toda pura e abstracta da Religião–a uma religião que consista apenas numa Moral apoiada numa Fé–é ter da Religião, da sua essência e do seu objecto, uma sonhadora ideia de sonhador teimoso em sonhos! [...]

athanasius-kircher

De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples há modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituais. Um presenciei eu, deliciosamente puro e íntimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vésperas de entrar em guerra com um chefe vizinho, comunicar com o seu Deus, com o seu Mulungu (que era, como sempre, um seu avô divinizado) . O recado ou pedido, porém, que desejava mandar à sua Divindade, não se podia transmitir através dos Feiticeiros e do seu cerimonial, tão graves e confidenciais matérias continha… Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo compreendera, tudo retivera: e imediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquilamente– «parte»! A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e selada, direita para o Céu, ao Mulungu. Mas daí a instantes o chefe, bate uma palmada aflita na testa, chama à pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rápidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra:– «Vai!»

Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungu… O segundo escravo era um pós-escrito…

Esta maneira simples de comunicar com Deus deve regozijar o seu coração. Amigo do dito.– FRADIQUE» in A Correspondência de Fradique Mendes

Imagens: 1 – Guerra Junqueiro; 2 –  Athanasius Kircher

Quadros musicais: 5º – Anfiguri

Quer tornar-se poeta?

Eis um tirocínio rigorosamente gracioso.

Cultivo
Escrever um poema

Eis aqui um catálogo de parávoras que irão permitir-lhe a sua redacção em vários passos.

1 º – Defina as parávoras abaixo.
2 º – Utilize todas as parávoras do catálogo, repita-as, se achar necessário, mas não acrescente nenhuma ao catálogo.
3 º – Escolha um tipo de paginação adaptado ao seu texto.
4 º – Pontue-o como soar bem.

a cantar por mim dou só estou viu me ninguém virem se me certo por alucinei pensar que sol é do dirão sol muito faz Março um para dia parado e ele ali

Vocabulário
Março é o terceiro mês do ano, do latim Martiu-; ligado ao nome do deus Marte, o deus da guerra entre os Romanos, nome por que também é conhecido um planeta, chamado assim devido à sua aparência avermelhada, a cor do sangue, simbólica do combate, da guerra.
Cantar é neste sentido um substantivo, sinónimo de trova. Tenha em conta que o bardo, o poeta trovador, era entre os Celtas e os Gauleses o sacerdote que tinha a incumbência de excitar o valor das tropas com cânticos guerreiros e cantar as acções e as virtudes dos heróis.
Alucinar tem o sentido de causar desvario, coisa muito procurada pelos poetas mais populares.
Sol é um topónimo, mas também um nome oriundo de Castela muito usado já em tempos medievais. Segundo alguns autores é originariamente utilizado como termo de carinho. Ter em atenção, igualmente, a influência religiosa. Por exemplo, Nossa Senhora é a Mulher vestida de Sol.

Já poetificou? Vamos agora à fase do traquejo público. Para que se torne um verdadeiro vate.

Comentar o poema
Redija em poucas linhas uma interpretação do poema e apresente-a aos amigos de(a) pluma, de preferência àqueles que tenham valimentos.
Para isso, opte por um dos seguintes papéis:

1 – Você é o poeta e dirige-se a ouvintes audaciosos. Treinará assim o seu arrojo e desgarre. Não brade e olhe para os sinais corporais que transmite.
2 – Finja que não é o autor do poema e torne-se um professor de literatura dirigindo-se a um grupo de estudantes.

rops

E pronto, está o fenómeno explicado e em marcha. Acompanhe com álcool, Coca-Cola e  algum chiste. Mas agora não dê pulos. Assustaria os meninos. Poeta que se quer poeta não se emociona em público a não ser quando é condecorado. Ou entra nas listas do Pen Clube.

Outros quadros musicais:  123 - 4

Imagem: Félicien Rops

Calendas

FEVEREIRO

1

D

Santa Bárbara, abadessa

2

S

São Contos Largos, mártires

3

T

São Mais As Vozes Que As Nozes, eremitas

4

Q

* Anal (é dos livros)

5

Q

São Favores, chantres

6

S

São Bental, monge

7

S

Santos de Pingadeira, bispos

8

D

** COMER COM BEIJOSumberto-brunelleschi1

9

S

São Tomé, virgem

10

T

São Gulão, abade

11

Q

São Nunca à Tarde, apóstolo desconhecido

12

Q

Santo e Senha, papa e papisa

13

S

São Mais Que As Mães, evangelistas

14

S

São Pecados Velhos, diáconos

15

D

COM O CREDO NA BOCA (isso é um dó d’alma)

16

S

Santa Ignorância, bem-aventurada

17

T

Santoria, religiosa

18

Q

Santo Sudário, broxante

19

Q

São Colunável, padre

20

S

São Columbino, penitente

21

S

Santa Coita, abadessa

22

D

COMER A DOIS CARRILHOS (isso fia mais fino)

23

S

São Favas Contadas, festa dos militares

24

T

CONANAS, penitentes

25

Q

São Baleite, eremita

26

Q

Santa Casa (isso é velho)

27

S

*** Coméssea (música)

28

S

FIM DA PICADA

* Missa de um ano para sufragar nomes apagados.

** O dia mais frio do ano.

*** Condecoração do Santo Sepulcro.

Imagem: Umberto Brunelleschi

Cibergrafias 6

Richard Rossin, in WWW.CRITICALSECRET.COM N°5 – AVRIL 2001 – CYBERMONSTRE – FOLLOW THE BUG

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Cibergrafias: 12 - 3 - 45

«Cantar del Mio Cid»

«A originalidade, como é sabido, embora não seja demais repeti-lo amiúde, já que com tanta frequência se olvida, não consiste na novidade dos temas, mas sim na maneira de os sentir.» Unamuno

voir

Terminemos, por ora, com as histórias dos críticos e da crítica. Quem pressente – e lê com olhos de ler -  a grande obra de Flaubert, Madame Bovary? O padre-mestre Sainte-Beuve?

Voilà. Charles Baudelaire: «En matière de critique, la situation de l’écrivain qui vient après tout le monde, de l’écrivain retardataire, comporte des avantages que n’avait pas l’écrivain prophète, celui qui annonce le succès, qui le commande, pour ainsi dire, avec l’autorité de l’audace et du dévouement. [...]

Plusieurs critiques avaient dit : cette oeuvre, vraiment belle par la minutie et la vivacité des descriptions, ne contient pas un seul personnage qui représente la morale, qui parle la conscience de l’auteur. Où est-il, le personnage proverbial et légendaire, chargé d’expliquer la fable et de diriger l’intelligence du lecteur ? En d’autres termes, où est le réquisitoire ?
Absurdité ! Éternelle et incorrigible confusion des fonctions et des genres ! – Une véritable oeuvre d’art n’a pas besoin de réquisitoire. La logique de l’oeuvre suffit à toutes les postulations de la morale, et c’est au lecteur à tirer les conclusions de la conclusion. [...]

jacques-callot-a-tentacao-de-santo-antonio

J’avais primitivement le projet, ayant deux livres du même auteur sous la main (Madame Bovary et La Tentation de saint Antoine, dont les fragments n’ont pas encore été rassemblés par la librairie), d’installer une sorte de parallèle entre les deux. Je voulais établir des équations et des correspondances. Il m’eût été facile de retrouver sous le tissu minutieux de Madame Bovary, les hautes facultés d’ironie et de lyrisme qui illuminent à outrance La Tentation de saint Antoine. Ici le poète ne s’était pas déguisé, et sa Bovary, tentée par tous les démons de l’illusion, de l’hérésie, par toutes les lubricités de la matière environnante, – son saint Antoine enfin, harassé par toutes les folies qui nous circonviennent, aurait apologisé mieux que sa toute petite fiction bourgeoise. [...]  – je voudrais surtout attirer l’attention du lecteur sur cette faculté souffrante, souterraine et révoltée, qui traverse toute l’oeuvre, ce filon ténébreux qui illumine, – ce que les Anglais appellent le subcurrent, – et qui sert de guide à travers ce capharnaüm pandémoniaque de la solitude…» et caetera et caetera

E  já que estamos em ano de comemorações de E. A. Poe, Charles Baudelaire, tradutor do mesmo, é assim descrito por Maurice Tourneux: «Très frappé de quelques-uns des contes d’Edgar Poë, il avait pressenti un « semblable » sous les traductions informes qui les avaient révélés à la France, et il entreprit de le faire mieux connaître. Familiarisé depuis l’enfance et par suite de ses voyages avec la langue anglaise, il l’étudia non plus dans les livres, mais dans la pratique courante, lisant les journaux américains et fréquentant les tavernes dont les cochers et palefreniers composaient la clientèle. En même temps, il questionnait avec avidité tous les compatriotes de Poë, dont il espérait tirer quelques renseignements. De cette préparation laborieuse sortit la traduction la plus parfaite, à coup sûr, que pût souhaiter un écrivain étranger. Les premiers contes traduits par Baudelaire, et qui produisirent une si vive sensation, parurent en feuilleton dans le Pays ou dans diverses revues, précédées d’une longue étude biographique et critique, complétée plus tard par de Nouvelles notes. Il ne renonça jamais d’ailleurs à la tâche qu’il s’était imposée, et la maladie seule l’empêcha de la mener jusqu’au bout. Les oeuvres de Poë traduites par lui ne forment pas moins de cinq volumes (Histoires extraordinaires; Nouvelles histoires extraordinaires; Aventures d’Arthur Gordon Pym; Eureka; Histoires grotesques et sérieuses).»

Imagens: 1 ; 2 – Jacques Callot, A Tentação de Santo António (pormenor)

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Sobre a crítica literária: 12 - 345 - 67 - 89101112131415161718

«The story of India»

Conquistas da arte poética

«L’homme qui fait des vers et qui cause dans un salon n’est pas la même personne.», Proust, Contre Sainte-Beuve

«Dias cruéis»: apontamento

cristiano-cruz-senhoras-a-mesa-do-cafe-1919O quadro era próximo do bucólico: uma mesa e três chávenas de chá. A meia dúzia de passos, a «tradição» e o fulgor do(a) escol(a) dos «sem qualidades» em companhia do estro do poeta «nefelibata». O primeiro enunciava algum teorema paradoxal. Do propósito apologista dos valores estatuídos, senti-me um subversor: insuficientemente dotado, por certo, não pude acompanhar a audácia, as arrojadas concepções, a desaustinada competência.

Acabou-se-me o chá. Findara também a ensinança.

Procurei o gusano. Apreciei-lhe a simplicidade, o semblante comovido. Jovem. Quase imberbe. Creio que não chegou a dizer mais que isto:

Que era o seu segundo livro. E que viria aí uma antologia, na qual o primeiro não entraria.

Ergui-me. E em lugar de entrar, saí. A pensar na nossa vida moderna. E no meu fraco cosmopolitismo.

Já não havia chá.

Imagem: Cristiano Cruz, Senhoras à mesa do café

Contra a crítica esquipática…

… bom senso e bom gosto.

xadrez

«There is a sentence in Dr. Johnson’s Life of Gray which might well be written up in all those rooms, too humble to be called libraries, yet full of books, where the pursuit of reading is carried on by private people. “. . . I rejoice to concur with the common reader; for by the common sense of readers, uncorrupted by literary prejudices, after all the refinements of subtilty and the dogmatism of learning, must be finally decided all claim to poetical honours.” It defines their qualities; it dignifies their aims; it bestows upon a pursuit which devours a great deal of time, and is yet apt to leave behind it nothing very substantial, the sanction of the great man’s approval.

The common reader…», Virginia Woolf, The Common Reader, [e-book]

Imagem: M.G. Vida. The game of chess. Translated & printed by R.S. Lambert & introduced by R.C. Lambert & decorated with woodcuts by N. Lambert.

Da crítica «desvairada» e «desvairante»…

… da «Nova Crítica», Libera nos, Domine:

Exorcismo

Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmental
Libera nos, Domine

Da semia
Do sema, do semema, do semantema
Do lexema
Do classema, do mema, do sentema
Libera nos, Domine

Da estruturação semêmica
Do idioleto e da pancronia científica
Da reliabilidade dos testes psicolingüísticos
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais
Libera nos, Domine

guardar1

Do vocóide
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgânico
Libera nos, Domine

Da leitura sintagmática
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática
Da fatividade e da não fatividade na oração principal
Libera nos, Domine

Da organização categorial da língua
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua
Da ortolinguagem
Libera nos, Domine

Do programa epistemológico da obra
Do corte epistemológico e do corte dialógico
Do substrato acústico do culminador
Dos sistemas genitivamente afins
Libera nos, Domine

Da camada imagética
Do espaço heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine

Da lingüística frástica e transfrástica
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Do clitização pronominal obrigatória
Da glossemática
Libera nos, Domine

Da estrutura exo-semântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor
Da lingüística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista
Libera nos, Domine

Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchomock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jakobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine

Carlos Drummond de Andrade

Imagem: Marcelo Sahea, guarDAR – Poegif desenvolvido a partir do poema homônimo do livro “carne viva “, de 2003

«Discurso sobre a inutilidade da crítica»

3ª parte de 3:

«Bem certo que já Camões dizia que quem “não sabe arte não a estima”. Ora, a arte que hoje a crítica sabe não é a arte que Camões conhecia, nem a arte que conheceram os grandes criadores, de Homero a Shakespeare, mas a arte que eles próprios, críticos, fingindo-se artistas, praticam, não como se a arte fosse, técnica que já é, e só técnica. Com o tempo, é muito possível que a palavra arte desapareça do vocabulário, que deixe mesmo de se saber que existiu uma forma de realização pessoal chamada arte, passando o homem a exercer uma forma de realização colectiva chamada técnica. Nessa altura, arte e crítica, técnica de criação e técnica de selecção serão uma e a mesma coisa. E então, para todos os efeitos, não só a arte deixará de ser útil – uma vez ao serviço da colectividade que a subsidia – como deixará de o ser a própria crítica, por agora, no entanto tão inútil quanto a arte que subsidiariamente serve.

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Não há qualquer ironia nestas minhas palavras. E se, em 1934, num concerto de piano do então jovem compositor Fernando Lopes Graça, eu ousei proferir um Discurso sobre a Inutilidade da Arte,  é que estava orgulhosamente seguro de que a arte só seria Arte, caso continuasse a mostrar-se, pelo menos imediatamente, inútil. Agora, em 1981, quarenta e tantos anos mais tarde, após ter feito muita crítica e pouca arte, deparo-me amargamente com esta incontestável certeza: de que não só a arte é inútil, a crítica também. E não porque os fundamentos éticos daquela se tivessem realmente alterado, mas porque os fundamentos técnicos desta exigem, para que aquela subsista, que a crítica se utilize dela e, utilizando-se dela, em si própria se torne inútil. Não foi apenas inútil a crítica que eu fiz ao longo destes quase cinquenta anos de actividade diuturna na Imprensa, inútil é toda a crítica que hoje se faz, uma vez que os artistas que porventura ainda sabem arte, para o serem, artistas, dispensam a colaboração da crítica, e a crítica, para se mostrar útil, obriga a arte a uma servidão que, em última análise, a torna inútil, não em seus fundamentos, que esses, filosoficamente sempre o terão de ser, mas em suas manifestações, que essas é que, para serem úteis a alguma coisa, antes de mais o têm de ser à crítica. Ora, a crítica, desde que deixa de servir quem não sabe arte, para só servir quem a sabe, por completo perde a sua utilidade: resulta dramaticamente inútil.»

João Gaspar Simões, «Crítica V – Críticos e Ensaístas Contemporâneos (1942-1979)», Preâmbulo, 1981.

Imagem: Joan Brossa

composição com paisagem

a diferença entre um surrealista gerador de poemas e ti:

«a prova dos nove»

escape, a tecla para referenciais:

narrativa de um condenado

sextinas houve, o verso a épica a lírica:

do bom e do melhor

woodstock de ouver:

poética de vampiro

game de jogo, esconde-esconde:

em contra bando

poetamenos mandarim!

……………

Imagem: Musée de l’érotisme de Paris

«Discurso sobre a inutilidade da crítica»

2ª parte de 3:

«Sim, inútil. Aliás, nunca me ocorreu pensar o contrário, sobretudo do ponto de vista dos artistas – daqueles que escrevem os livros que eu critico -, certo que sempre estive de que a crítica não concorre, nem em sentido positivo, nem em sentido negativo, quer para aperfeiçoar o artista enquanto artista, quer para aperfeiçoar a obra ou as obras que esse artista realiza. Quando muito a crítica ajuda à compreensão da obra de arte, junto dos que não são artistas. A parte do crítico – e, no meu caso, naturalmente, daquele que escreve sobre livros – que porventura colhe algum benefício no contexto das letras é aquele que lhe permite, como dizia o anacrónico Sainte-Beuve, ler melhor o que o leitor comum lê pior, ou ler no intuito de ensinar a ler aquele cuja função não é nem escrever nem criticar, mas pura e simplesmente ler, isto é, completar, com a sua leitura, a obra cujo primeiro leitor foi o próprio autor dela, uma vez que, ao contrário do que sustentou Jean-Paul Sartre, no seu discutido ensaio Qu’est-ce que la Littérature?, a obra escrita não precisa de outro leitor para se cumprir: basta-lhe o próprio autor, que é, no fim de contas, o seu primeiro e capital leitor.

max-ernst

Chegado, porém, à presente fase da minha carreira de crítico literário, nem já mesmo nessa utilidade da crítica acredito. E por variadas razões: uma delas é que a crítica literária, emancipada de toda a sujeição ao leitor, cuja presença dispensa, se ainda satisfaz alguma necessidade não é junto de quem lê o que se escreve no domínio da criação literária, mas junto de quem, supostamente, participa no acto de criação da obra escrita, ou seja, junto do próprio autor.

Desta sorte, a crítica, que deixou de ser função social, digamos, para se arvorar em função filosófica, e função filosófica de estofo por assim dizer criativo, pairando muito longe do leitor – pelo menos do leitor comum -, acaba por tornar-se uma finalidade sem fim, coisa que, já no pensamento do filósofo germânico, era o que acontecia com a própria arte. Crítica que cientificamente ou pseudocientificamente se proclama elemento propulsor de um estímuo intelectual em que ela, não a arte, em que a reflexão sobre a obra citada, não a leitura da obra criada, é o que mais importa, deixa de ser crítica, isto é, etimologicamente, acto de escolha da obra lida e comentada, uma vez que o que acima de tudo lhe importa é o acto graças ao qual a obra de arte se faz pretexto da obra de crítica.

max-ernst-spiritual-repose

Longe de mim a ideia de contestar ou de pôr sequer em dúvida os altos méritos da crítica literária presentemente realizada pelos mestres da mesma, onde quer que ela se pratique. De maneira alguma: a sua eficiência atingiu, no nosso tempo, níveis tais que já ninguém ousa negar-lhe méritos: altos méritos. Mesmo assim, não me parece fácil descobrir-lhe utilidade, uma vez que, se, por um lado, o leitor comum não lê semelhante crítica, pelo outro, o próprio escritor – o artista -, a menos que de si mesmo já seja mais crítico do que o artista, igualmente se mantém alheio ao sanctum sanctorum de tal crítica. Por agora, a crítica de alto coturno – ou «de escada acima», como risonhamente diria Camilo Castelo Branco – pertence ao foro dos «raros apenas», lê-se, aprecia-se, comenta-se, saboreia-se num meio que já não é nem de artistas, nem de críticos, já não é nem de homens que fazem arte nem de homens que a apreciam. Digamos que uma nova camada de gente, puros especialistas, surgiu no meio intelectual, a qual gente não pode dizer-se formada quer por artistas quer por críticos de arte, visto que, desde que no artista ou no crítico de arte os seus estímulos deixam de ser gratuitos, estes afastam-se do âmbito estético. Ora, uma crítica que se afasta da arte ao ponto de exigir que o artista, para se inteirar dos seus benefícios, se inicie rigorosamente na terminologia técnica indispensável ao entendimento dos seus augúrios, tal crítica nada tem a ver com a arte: ela própria é uma disciplina autónoma, uma ciência, uma técnica, uma tecnologia, algo de tão alheio ao clássico reino da criação artística que, inclusivamente, se aceita a ideia, de todo em todo nova, segundo a qual o melhor dos críticos é o pior dos artistas ou o mais excelso dos críticos é o menos aceitável dos artistas.»

João Gaspar Simões, «Crítica V – Críticos e Ensaístas Contemporâneos (1942-1979)», Preâmbulo, 1981.

Imagens de Max Ernst: 1 – The Eternal Father vainly endeavours to separate light from darkness; 2 – Spiritual repose («La femme 100 têtes»).

«Vivei com a cabeça nas nuvens!»

Em inícios do século XIX, Goethe, no seu Tratado das Cores, tecia sobre o azul as seguintes considerações: «É uma cor que dá ao olho uma impressão estranha e quase impossível de formular. Como cor, é uma energia; sucede, no entanto, que está do lado negativo, e no seu estado mais puro é, por assim dizer, um nada que atrai. Há neste espectáculo algo de contraditório entre a excitação e o repouso. Vemos azul o céu nas elevações, nos montes ao longe, e uma superfície azul parece-nos, do mesmo modo, afastar-se diante de nós. Tal como seguimos naturalmente um objecto agradável que se afasta à nossa frente, olhamos facilmente para o azul não porque ele corra na nossa direcção, mas porque ele nos atrai.»

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Também outrora o nosso Eça e o nosso Quental suspiravam por voltar as costas aos «sonhos e às intuições» e sacar o «belo da realidade» para dar início a uma nova idade poética procurando descobrir o seu Baudelaire. E assim forjaram o seu Carlos Fradique Mendes com os Poemas do Macadam. Sucede, porém, que o azul pode ser quer uma «Escola Nova» de virtudes quer um «chavão de escola» de vícios.

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Atentai, pois, vates hodiernos, e arrepiai caminho: o azul é uma cor fresca, mas conotado com o infinito, o longínquo, atrai o sonho, conduz à evasão; o azul é uma cor viva, mas pode gerar um efeito sedativo; o azul é a cor da paz, mas pode estimular a melancolia. E o objecto estético pode conduzir do sublime ao «pitoresco». Que vos proponho então? Apenas um Novo Manifesto, o Manifesto da Sociedade de Observação das Nuvens. Despegai das púlulas, dos bordéis, das imprecações livrescas.

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É que as nuvens permitem distinguir, ou melhor, permitem associar numa mesma composição, tal como na pintura de Corregio, dois registos que, aparentemente, se excluem mutuamente, um registo celeste e um registo terrestre. Eis o Sexto Império da Poesia Portuguesa, a «bacanal impúdica» das nuvens, à vossa atenção:

«Acreditamos que as nuvens têm um tratamento injusto e que a vida seria infinitamente mais pobre sem elas.

Consideramos que as nuvens são a poesia da Natureza e o mais igualitário dos seus espectáculos, pois todos podem ter uma vista fantástica delas.

Comprometemo-nos a lutar contra a obsessão dos céus azuis onde for que a encontremos. A vida seria muito mais aborrecida se dia após dia tivéssemos que olhar para uma monotonia sem nuvens.

Queremos lembrar às pessoas que as nuvens são expressões da mudança de humor da atmosfera e que podem interpretar-se como as do rosto de uma pessoa.

As nuvens são tão comuns que a sua beleza é amiúde negligenciada. As nuvens são para sonhadores e a sua contemplação faz bem à alma. Na verdade, todos aqueles que se dedicarem a observar as suas formas, pouparão na conta do analista.

Dizemos assim a todos os que nos queiram escutar:

Erguei os olhos, maravilhai-vos com esta efémera beleza e vivei a vida com a cabeça nas nuvens!»

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagens: Correggio: 1 – Madalena; 2 – Alegoria dos vícios; 3 – Alegoria das virtudes.

«Eido lolatreoa» *

Discurso Sobre a Inutilidade da Crítica (em 3 partes)

«Há muitos, muitos anos, no princípio da minha carreira literária, tive ocasião de proferir um Discurso sobre a Inutilidade da Arte. Eis-me a proferir agora um discurso sobre a inutilidade da crítica. Já então, por 1934, começavam a adensar-se nuvens sobre o horizonte dos artistas, não só pelo que deles se não exigia da parte dos governantes, que pouco ou nada lhes pediam, salvo que os deixassem levar a bom termo, sem delongas, a anestesia de um povo que iria ficar inerte durante algumas décadas, mas sobretudo pelo que deles se principiava a reclamar, do outro lado da barricada, a barricada dos neo-realistas, já predispostos para deles, dos artistas, tudo esperarem, inclusivamente a Revolução que os outros, os não artistas, pareciam incapazes de levar a cabo.
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Foi a doutrina desse discurso que alimentou, mais ou menos ironicamente, toda uma geração de artistas – particularmente de escritores -, a geração que recebera a herança dos inúteis artistas do Orpheu e iria manter-se na linha de fogo em que se defrontariam as estéticas que ao longo da segunda metade do século XX, intransigentemente, repudiavam servir fosse que ideologia fosse, desde que empenhada em sujeitar a arte e os artistas a finalidades alheias à finalidade sem fim da arte, segundo o consagrado conceito de Emmanuel Kant.

Foi no decurso destes anos de austeridade estética – o empenhamento do artista em servir exclusivamente a própria arte, em si mesma inútil – que o autor deste Discurso sobre a Inutilidade da Arte depreendeu que a arte não teria maneira de realizar o seu objectivo caso não fizesse chegar a toda a parte, inclusivamente junto daqueles para quem a arte não era nem útil nem inútil, muito simplesmente inexistente, quer o imperativo categórico em que se firmara – o de que a arte, sendo inútil, se nutria da sua própria inutilidade -, quer o escopo de acordo com o qual, para que da inutilidade da arte alguma utilidade se extraísse, indispensável se tornava que esta fosse honestamente praticada e que os artistas a praticassem com a mais estrita honestidade.

E assim nos encontrámos na primeira fila dos que não só queriam que a arte fosse inútil, inútil nos seus fins imediatos, como estavam convencidos de que a inutilidade da arte só seria devidamente realizada, quando, entre os que a praticavam e os que a consumiam, existisse um entendimento sério, a compenetração austera de que, em arte, ou se é honesto, ou a arte é coisa que não existe.

Eis, em termos mais ou menos alegóricos, a história da minha caminhada da arte – da arte de escrever – para a crítica – a arte de escolher, entre o que se escreve, aquilo que vale a pena ser lido. Porém, a ideia de inutilidade manteve-se subjacente ao que escrevi como artista – que foi pouco e modesto – e ao que escrevi como crítico – que ainda foi mais modesto, embora, mea culpa, mea culpa, não tão pouco o quanto o fora o que escrevera como artista. E, chegado ao momento a que cheguei – o de receber um prémio dado ao crítico, concretamente ao crítico in progress, aquele que semanalmente exerce a sua profissão de crítico, visto que já antes, e com maior generosidade da parte do júri, recebera um prémio dado ao crítico em si, autor de volumes que consubstanciam a sua actividade diuturna de crítico (o Prémio “Diário de Notícias” atribuído, em 1970, ao meu livro Crítica III) – chegado a este momento, dizia, com mais forte convicção do que nunca, ouso afirmar que, tal como a arte, a crítica também é inútil.»

João Gaspar Simões, «Crítica V – Críticos e Ensaístas Contemporâneos (1942-1979)», Preâmbulo, 1981.

 

* Ou «da idolatria» [para uma leitura de «O Livro da Idolatria», de Bruno Schultz, vd. Artistic Crossover in Polish Modernism. The Case of Bruno Schulz's Xięga Bałwochwalcza (The Idolatrous Book), by Kris Van Heuckelom].

Imagem: Bruno Schultz, Exlibris Eroticis

Nas malhas dos textos – XVI

«Primeiro labuta, a moral vem depois!», Bertolt Brecht/Kurt Weil, Ópera dos Três Vinténs

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6 (e último) – «Desde o início que a arte estava carregada de símbolos. Só muito recentemente, por um notório mau entendimento do ideal renascentista de “imitação da Natureza”, se admitira que era tarefa do artista reproduzir escrupulosamente aquilo que via. No entanto, se a arte é para nos prender o interesse, ela tem de remeter para algo mais do que para si própria e o seu assunto. No seu melhor, até o Impressionismo capta uma parte da realidade diária [...]: o momento efémero da experiência imediata. O Impressionismo é assim uma espécie de caso-limite, imaginado para ser compatível com uma época que, sob o domínio do Positivismo, rejeitava como irreal aquilo que não podia ser tocado ou medido. [...]

A I Guerra Mundial foi um exposé devastador das ilusões contemporâneas, e em obras como Voyage au bout de la nuit, de Céline, chegava-se mesmo a uma conclusão sem esperança. Quase ao mesmo tempo, surgia a revelação de Freud das origens ocultas que sustentavam um certo tipo de idealismo: a sublimação. O aparato crítico elaborado por Marx, e largamente aceite por historiadores e pensadores, permitiu também compreender de que forma a ideologia se serve de representações criadoras de mitos para consagrar o seu poder hierárquico. [...]
[Mas] O Simbolismo não deixou de existir. Ele permanece activo nos nossos dias na obra de poetas e dramaturgos; um olhar atento descobrirá vestígios deste nas peças essencialmente modernas de Beckett. Ele está igualmente presente de forma espectacular no cinema, nos esplendores barrocos de Fellini e Pasolini.

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Na verdade, a ironia nunca foi incompatível com o Simbolismo. As obras académicas e sentimentais são predominantes, mas a poesia francesa simbolista conta entre os seus expoentes não apenas com Jules Laforgue, a quem já fizemos referência, mas com Alfred Jarry. O dandismo e a excentricidade de Jarry tornam-no bastante simbolista; na sua oeuvre, encontramos uma transição para o Modernismo de Duchamp.

De facto, foi entre os artistas simbolistas que a noção de autonomia absoluta da arte surgiu a primeira vez. A asserção teve uma particular ressonância numa sociedade que, de maneira geral, esperava que a arte fosse “edificante”. O Modernismo aceitou esta doutrina e exigiu que a arte, tal como a Matemática, fosse reconhecida como um campo separado, sem relação com o contexto em que aparecia. Em vários aspectos, portanto, pode encontrar-se certa real continuidade entre a arte desse período e a do nosso. Se o não percebemos, talvez isso se deva ao facto de pensarmos que o Modernismo marcou uma ruptura radical e definitiva com o passado. No entanto, isso é outro mito: o mito fundador do próprio Modernismo.»

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

The Symbolism, Michael Gibson

Imagens: 1 – Xavier Mellery, A Imortalidade, s/d; 2 – Marcel Duchamp, A noiva despida por seus celibatários, mesmo, 1915-23.

Nas malhas dos textos – XV

«As fissuras aparecem nos pontos de articulação; elas crescem gradualmente, e, por fim, desintegram o organismo, mas exercem quase sempre o seu efeito corrosivo apenas de forma insidiosa. Apesar da ilusão mantida pelo tumulto aparente da agitação meramente superficial, é afinal a longo prazo que as suas reverberações provocam choques, e estes nunca são mais que parciais, visto que subsistem vestígios indestrutíveis.» Georges Duby

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5 – «As raízes do Simbolismo têm igualmente de ser procuradas no fértil campo do Romantismo – o Romantismo de Novalis, E.T.A. Hoffman e Jean Paul, mais que no de Musset ou de Victor Hugo. A atitude solipsista, tão central na arte simbolista, é, até certo ponto, prefigurada no Romantismo. No entanto, os movimentos são distintos. Implantado na mentalidade protestante alemã, o Romantismo implicava uma ligação fervorosa e mística com a Natureza [...].

O Simbolismo, por outro lado, nasceu da mentalidade católica da França, Bélgica, Áustria e zonas da Alemanha pouco propensas à mesma veneração.[...]

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A Natureza já não era para ser estudada na tentativa de decifrar a sua mensagem divina; em vez disso, o artista procurava temas suficientemente perturbadores para emancipar a imaginação do mundo familiar e dar uma voz à neurose, uma forma à ansiedade, uma expressão, por mais inquietante que pudesse ser, aos ideais mais profundos. E não aos ideais de um indivíduo, mas aos da comunidade como um todo, os ideais de uma cultura cuja estrutura abrira brechas com fissuras subterrâneas. [...] A “decadência” era a grande questão da época simbolista; “decadência” foi o termo escolhido por Des Esseintes para a sua caracterização.

Decadência significa rejeição do “progresso” como um equívoco em relação à verdadeira natureza das coisas. Todos se juntavam à marcha triunfante do progresso; o decadente optava por ficar para trás. Virado para si próprio, rejeitava a cultura exotérica da ciência e procurava consolo na busca esotérica.»

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

The Symbolism, Michael Gibson

Imagens: 1 – Odilon Redon, Pandora, c. 1914; 2 – Otto Greiner, O Diabo mostrando uma mulher ao povo,  1897.

Nas malhas dos textos – XIV

«Infinitude, mostra-nos a tua identidade!», Jules Laforgue, L’Imitation de Notre-Dame la Lune, «Nobles et touchantes divagations sous la Lune»

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4 – «A arte simbolista esforçou-se por representar algo mais para além da realidade física evidente em si mesma. Até certo ponto, ela foi romântica, amiúde alegórica, irreal ou fantástica, quando isso era desejado, e penetrou por vezes naquelas zonas remotas esboçadas por Freud na sua exploração do inconsciente. Os seus antecedentes podem ser procurados entre figuras como Fuseli, Goya ou William Blake. [...]

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O tom é de um desafio truculento, característico daqueles que descobrem como era relativa a cultura que tinham, inocentemente, acreditado ser o veículo da verdade absoluta. O Simbolismo estava imbuído de uma poderosa nostalgia de um mundo de significado que se tinha desintegrado em poucas décadas. É essa a razão da melancolia e da ansiedade expressas sempre que um artista olha para lá da superfície das coisas. [...]
Muita da energia humana é gasta a procurar ir além do pequeno campo que nos é concedido, como ironicamente observava Jules Laforgue: “Por que estão os nossos altivos sentidos/ loucos por algo concedido para além dos teclados;/ crerão na verdade em espelhos mais ditosos que o Verbo,/ e se aniquilam? Infinitude, mostra-nos a tua identidade!” [...]
É evidente que a arte simbolista não tem apenas que ver com as ilusões duradouras que a sociedade acabou por aprender a dominar. Nem é só a expressão ingénua de umas quantas primeiras tentativas de incursão pelas regiões do inconsciente. [...] Vai muito além disso, apontando para o estado de mudança constante da cultura e para aquilo que o eminente helenista E. R. Dodds chamou “neurose endógena”.»

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

The Symbolism, Michael Gibson

Imagens: 1 – William Degouve de Nuncques, Impressão nocturna, 1896; 2 – Fernand Khnopff, pormenor de Com Grégoire le Roy, O meu coração grita pelo passado, 1898.

Nas malhas dos textos – XIII

«Au reste, l’artifice paraissait à des Esseintes la marque distinctive du génie de l’homme.
Comme il le disait, la nature a fait son temps; elle a définitivement lassé, par la dégoûtante uniformité de ses paysages et de ses ciels, l’attentive patience des raffinés. Au fond, quelle platitude de spécialiste confinée dans sa partie, quelle petitesse de boutiquière tenant tel article à l’exclusion de tout autre, quel monotone magasin de prairies et d’arbres, quelle banale agence de montagnes et de mers!
Il n’est, d’ailleurs, aucune de ses inventions réputée si subtile ou si grandiose que le génie humain ne puisse créer; aucune forêt de Fontainebleau, aucun clair de lune que des décors inondés de jets électriques ne produisent; aucune cascade que l’hydraulique n’imite à s’y méprendre; aucun roc que le carton-pâte ne s’assimile; aucune fleur que de spécieux taffetas et de délicats papiers peints n’égalent!
À n’en pas douter, cette sempiternelle radoteuse a maintenant usé la débonnaire admiration des vrais artistes, et le moment est venu où il s’agit de la remplacer, autant que faire se pourra, par l’artifice.»

Joris-Kark Huysmans, À rebours, cap. I, 1893

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3 – «Este [o quadro acima, Le Grand Chambardement] retrata homens e mulheres, alguns a cavalo, outros a pé, saindo de um local devastado. Em primeiro plano, acha-se uma grande cruz quebrada. O local onde esta se encontrava havia sido devastado, tal como a área em redor, e os habitantes viram-se obrigados a mudar-se. Um olhar mais atento desmente a primeira impressão; o quadro não representa o tipo de êxodo que se tornara familiar com os dois últimos cataclismos europeus, mas uma “convulsão” puramente espiritual. Uma sociedade inteira despede-se de uma terra familiar e bem amada e parte para o exílio, para o desconhecido.
Esta constatação melancólica é central na perspectiva simbolista. Nos finais do séc. XIX, enquanto a ciência e o positivismo anunciavam triunfantemente um esplêndido mundo novo fundado na razão e na técnica, algumas pessoas havia que tinham perfeita consciência da perda de uma qualidade indefinível existente no antigo sistema cultural, nos valores e sentidos expressos por aquilo que poderíamos chamar a sua “ordem emblemática”.
Nestas circunstâncias, não é por acaso que uma cruz quebrada se situa no centro do quadro. Em toda a sua ambiguidade, a cruz é o símbolo central de uma representação do mundo que reconhece mais do que um plano da realidade. Na visão cristã do mundo, há o mundo criado da natureza, e a ordem divina, incriada, que se situa acima daquele. (Ou, numa perspectiva mais secular, o real pode comparar-se com aquilo que Guillaume Apollinaire, numa palavra cunhada que alcançou êxito inesperado, qualificou de “surreal”.) O positivista, por outro lado, reconhece apenas um nível da realidade: a natureza. Na sua perspectiva, o “outro” mundo não passa de uma ilusão.»

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

The Symbolism, Michael Gibson

Imagem: Henry de Groux, A grande convulsão, 1893

Nas malhas dos textos – XII

C’est fini, la légende enfantine des astres,
De les croire vivants, de les songer des lis;
La nuit souffre de ses millénaires désastres.
C’est fini de rêver le ciel, comme jadis,
Un champ bleu qu’une main partiale ensemence;
La science le prouve une agonie immense:
Soleils mourants dont le décès est calculé;
Déserts nus, sans écho; cendre de nébuleuses;
Étoiles qui sont des orphelines frileuses;
Globes dont le soupir est inarticulé
Achevant de périr comme en des léthargies.
Ciel qui s’éteint! Vaste hôpital de l’Infini,
Où la lune, antique diseuse d’élégies,
Semble malade, tant son visage est blêmi;
Tels soirs surtout, elle est plus pâle et délayée:
On dirait une hostie, au fil du ciel, noyée;
On dirait un cadran de tour miré dans l’eau;
Lune en exil et que nulle étoile n’escorte;
À l’horizon désert, elle a l’air d’être morte,
Lune exsangue sur l’oreiller de son halo!

Georges Rodenbach, Les vies encloses, «La tentation des nuages», XII, 1896

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2 – «O Simbolismo está na base do Expressionismo: sabemos a dívida que os guias do movimento Die Brücke ou os membros do grupo Der Blaue Reiter têm para com Ensor, Munch, Hodler, Valloton, Klimt e Spilliaert. Os Fauves têm uma dívida semelhante não só para com Gauguin como também para com Sérusier. O Futurismo italiano possui claramente marcas da influência simbolista. Uma das primeiras influências de Duchamp [...] foi Redon. O exemplo de Böcklin foi essencial para a pintura acentuadamente onírica de Chirico, e neste os surrealistas detectaram um paradigma daquilo que esperavam da pintura e já tinha sido encontrado em certos aspectos precursores do Simbolismo. Podemos mesmo falar do Simbolismo hiper-realista em meados do séc. XIX na obra dos Pré-Rafaelitas, que puseram ao serviço dos seus elevados objectivos uma técnica de um realismo quase fotográfico; tal como Dalí e os hiper-realistas americanos, eles fizeram fotografias coloridas a óleo retratando Ofélia, Cristo, o Mágico, ou simplesmente as suas próprias fantasias. Por fim, a evolução do Simbolismo para o Abstraccionismo é particularmente notável, uma vez que se deu sob a égide de pintores de extracção simbolista e cujos nomes são agora centrais na arte moderna: Kandinsky, Malevich e Mondrian. Há, por isso, poucos ou nenhum movimento na arte do séc. XX que não tenha raízes no Simbolismo; ao mesmo tempo, a redescoberta das obras simbolistas põe em evidência a descendência em linha directa do movimento simbolista.»

Tradução de Carlos Sousa de Almeida,

The Symbolism, Michael Gibson

Imagem: Léon Spilliaert, A Noite, 1908.