S/a Pálpebra da Página

Como reconhecer a adventícia / voz que nomeia…

Fêtes Galantes

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Fêtes Galantes I, de Claude Debussy

Apesar de ter sido admirado praticamente só pelas suas harmonias e pouca atenção ter sido dada às suas melodias, o primeiro ciclo de Fêtes Galantes é um exemplo da beleza de lindas linhas melódicas debussynianas.

Este ciclo demonstra a grande variedade de estilo entre as suas mélodies, desde temas sentimentais e sonhadores, à ironia e ao humor, descrevendo paisagens impressionistas, algumas com uma tristeza voluptuosa e acompanhadas até de algum desprezo.

Sente-se neste ciclo uma grande preocupação com a sonoridade da língua francesa, cuidado partilhado com Verlaine. As inflexões subtis da língua francesa e da poesia são inovadoras neste ciclo, ajudadas pela assimetria não métrica, resultando na antítese da canção romântica.

Debussy compôs estas três canções em 1882, embora a versão que chegou até hoje seja a revisão que ele fez em 1891, alterando pouco Fantoches mas transformando bastante as outras duas. É um ciclo do período simbolista com poemas do já referido Paul Verlaine. Estes seus poemas foram tão célebres que muitos compositores se inspiraram neles para compor chansons e mélodies (como, por exemplo, Gabriel Fauré).

O ciclo é composto por três canções: En sourdine, dedicada a Madame Robert Godet, Fantoches e Clair de Lune, dedicadas a Madame Arthur Fontaine, sendo a sua duração de cerca de 7’30’’ aproximadamente.

FÊTES GALANTES I

En Sourdine (poema em francês)

Em Surdina

Calmos, à meia-luz,

Que os ramos altos fazem,

Penetremos bem o nosso amor

Com este silêncio profundo.

Fundamos as nossas almas, os nossos corações,

E os nossos sentidos extasiados,

Por entre os vagos langores

Dos pinheiros e dos medronheiros.

Semicerra os olhos,

Cruza os braços sobre o peito,

E do teu coração adormecido

Expulsa para sempre todo o intento.

Deixemo-nos persuadir

Ao sopro embalador e doce

Que vem a teus pés enrugar

As ondas de relva ruça.

E quando, solene, a noite

Dos carvalhos negros cair

Voz do nosso desespero,

O rouxinol cantará.

Fantoches (poema em francês)

Fantoches

Scaramouche e Pulcinella

Que um mau desígnio juntou,

Gesticulam, negros, sob a lua.

Entretanto, o excelente doutor Bolonhês

Colhe com lentidão simples

Por entre a erva morena.

Então a sua filha, provocante figurinha,

Sob o caramanchão, à socapa,

Desliza, seminua, em busca

Do seu belo pirata espanhol,

Cujo infortúnio um amoroso rouxinol

Proclama com toda a força.

Clair de Lune (poema em francês)

Luar

A vossa alma é uma paisagem escolhida

Que encantando vão máscaras e bergamascas,

Tocando alaúde e dançando, e quase

Triste nos seus disfarces extravagantes.

Cantando em modo menor

O amor triunfante e a vida oportuna,

Não têm ar de acreditar na sua felicidade

E a sua cantiga mistura-se com o luar,

Com o calmo luar triste e belo,

Que faz sonhar as aves nas árvores

E soluçar de êxtase os repuxos,

Os grandes repuxos esbeltos entre os mármores.

Traduções de AZEVEDO, Fernando Jorge, Antologia poético-musical, Porto, Edições Politema, 2002, pp. 205-208.

Texto de Maria João Sousa

Edição e tratamento de Carlos Sousa de Almeida

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Inês Simões

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A jovem soprano Inês Simões, já conhecida pelo seu trio, com Daniel Godinho ao piano e Ruben Jacinto no clarinete, como pode consultar-se aqui, e que teve aulas de Pronúncia e Declamação em Alemão com Isabel de Almeida e Sousa, apresenta-se amanhã no S. Luiz na final do concurso de Canto da Fundação Rotária Portuguesa com o seguinte programa:

Filipe de Sousa - Ao longe ao luar (Fernando Pessoa) e Põe-me as mãos nos ombros (Fernando Pessoa);

Gabriel Fauré - Claire de Lune (Paul Verlaine);

W. A. Mozart - “Da Schägt die Abschiedsstunde” (Madame Herz; Der Schauspieldirecktor)

Será, estamos certos, uma bela, competente e digna concorrente, e uma excelente audição às 18,30 horas no Jardim de Inverno do Teatro Municipal de S. Luiz.

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«A atopia de Kien. Elias Canetti, Auto de Fé.»

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Je vous remercie bien mon ami pour les bonnes lectures; et pour cause, avec le plus grand plaisir:

A atopia de Kien. Elias Canetti, Auto de Fé.

Trata-se do único romance de Elias Canetti, Prémio Nobel da Literatura em 1981. Um só romance, mas que romance! É difícil contar a história (mas não será a importância da história secundária? Não se caracteriza um mau livro por reduzir-se apenas à sua intriga?), pois na verdade carece de unidade. Auto de Fé é um livro notável. O sinólogo Peter Kien é o personagem central, mas há muitos capítulos exclusivamente dedicados aos outros protagonistas do livro, sem que isso seja essencial ao desenrolar das desventuras de Kien. Para aqueles que não conhecem a obra e gostariam de saber de que se trata, digamos que Auto de Fé conta principalmente os dissabores de um erudito cuja vida é consagrada ao estudo e não tem senão uma paixão, a paixão pelos livros. O seu apartamento é uma imensa biblioteca constituída por 25000 volumes, e Kien não consegue sair de casa - fá-lo apenas uma hora por dia, de manhã - sem trazer consigo mais uns quantos livros. É considerado uma sumidade mundial, apesar de se recusar a participar em todo e qualquer colóquio. Vive satisfeito até se consorciar (será assim com todos os homens?) com a governanta, que se revela uma pessoa abjecta, disposta a tudo pelo dinheiro, inclusive a vender os livros do marido, a ponto de o expulsar de casa. Thérèse, a governanta que se torna na senhora Kien, é uma das poucas personagens que vão entrar na vida de Kien para lhe dar cabo dela. Há ainda Fischerle, um escroque anão amante de xadrez que vai tomar Kien sob a sua voraz protecção para melhor o roubar, e Benedikt Pfaff, o seu porteiro, em casa de quem se refugiará, um velho polícia que só sabe expressar-se através da violência: é a sua maneira de amar ou de odiar, como o descobriram a sua esposa e a sua filha, mortas, de resto, com os seus golpes. No estudo que consagra a este livro em Vérité et mensonge, Vargas Llosa afirma que a imensa cultura de Kien «ergue uma muralha de incomunicabilidade entre si e o mundo». Vargas Llosa, um bom humanista, lamenta-o. Não é a cultura aquilo que une os homens, aquilo que permite que se aproximem? Talvez… A mim parece-me mais que a cultura isola profundamente, pois a maior parte dos homens são estúpidos, ignaros e mesquinhos. Aquele que pensa está necessariamente só, mesmo que rodeado de pessoas. O outro é-lhe absolutamente estranho. Kien está só no meio dos homens porque rodeado daquilo que transcende a secularidade:

«Enquanto tinha a cabeça ocupada a sopesar, classificar, coordenar factos escolhidos, informações e concepções, a utilidade da sua solidão parecia-lhe certa. Verdadeiramente solitário, só consigo próprio, nunca o estava. É precisamente o que faz o sábio: está só para estar com o maior número possível de coisas ao mesmo tempo.»

O homem cultivado é Atopon. Este termo encontra-se em diferentes diálogos de Platão para caracterizar Sócrates, que o aceita naturalmente quando, habitualmente, tende a recusar qualquer qualificativo. Atopon é geralmente traduzido por “atípico”, “original”, que é, efectivamente, o seu sentido. Infelizmente, a originalidade está hoje em dia tão edulcorada - não é toda a gente tão original que a verdadeira originalidade estaria em não o ser? - que uma tal tradução se revela insuficiente. Atopon significa literalmente “sem lugar”: Atopon é aquele que é tão singular que não está “dentro”, não está no lugar, na acção, no fluxo da vida quotidiana. As preocupações do atopon não são as de qualquer um, as preocupações de Kien não são as de Thérèse. Esta vive na obsessão do ter: dinheiro, móveis, a propriedade, posição social (uma vez casada, despreza os criados), enquanto Kien vive na obsessão do ser, os seus livros são o seu único universo («o seu mundo era a sua biblioteca.») e não tem, como mobiliário, senão uma cadeira, uma escrivaninha e um divã, i.e., o estritamente necessário para trabalhar e descansar (mas descansar unicamente com o fim de trabalhar melhor!). Não é por isso de espantar que se deixe tão negligentemente espoliar por todos aqueles com quem se cruza! Tal é, aliás, o que lhe censurará o seu irmão Georges, um ginecologista que se torna psiquiatra (um autêntico analista! por alguma razão ele não quer sobretudo tratar os seus pacientes!), o seu salvador e carrasco involuntário:

«Não vês o que se passa à tua volta. Não tens memória das tuas próprias experiências.»

O grande talento de contista de Canetti está em nos fazer sofrer com Kien, bem mais que consigo próprio, uma vez que nunca se apercebe realmente daquilo que lhe acontece, enquanto nós o vemos, impotentes, fazer-se humilhar. Kien tem com o mundo uma relação de alergia. A atopia é uma característica daquilo a que chamo “síndroma Bartleby”. Vila-Matas serve-se desta expressão para designar aqueles que se encontram na impossibilidade total ou parcial de escrever, mas parece-me mais apropriado designá-los como os que se encontram na impossibilidade de inscrever-se no mundo, não passando a impossibilidade de escrever de uma consequência. Os que sofrem desta síndrome são simplesmente incapazes de viver o quotidiano. As páginas iniciais do romance são disso típicas: Kien é insultado por um transeunte que lhe pede uma informação, pedido que ele ouve, mas ao qual não responde porque o julga dirigido a outro. Kien faz parte dessa categoria de personagens que, a exemplo de Bartleby ou de Bernardo Soares, vivem num mundo no qual estão fisicamente presentes sem nele se conseguirem integrar, o que deve entender-se menos como uma incapacidade propriamente dita do que como um natural desinteresse, desinteresse que será o motivo de O Homem que Dorme de Pérec e que Canetti descreve deste modo:

«Como ele [Kien] não sentia o mais pequeno desejo de prestar atenção às pessoas, mantinha os olhos baixos ou, ao invés, olhava-as por cima.»

Aliás, quando Kien é levado a fazer o mesmo que outro (um “topon“, poderíamos dizê-lo!), só o faz de maneira aparente. É assim que quando toma o lugar de Benedikt Pfaff por trás da fresta da porta da casa, fresta que permitia ao porteiro descobrir os mendigos pelas calças para lhes bater, Kien acha a ideia de escrever uma «caracteriologia das calças» seguida de um «apêndice dos sapatos». O que faz a desventura de Kien, como a de qualquer atopon, é que, ainda que veja a mesma coisa que todos os outros, ele não a encara da mesma forma. Kien é um inadaptado social, e é-o porque é um ser cultivado. A cultura separa dos outros porque muda a nossa maneira de ver o mundo. Há que escolher: ou vivemos (trabalhamos, criamos uma família, compramos um sofá em couro, um cão, etc.), ou pensamos. Compreender o mundo é afastarmo-nos dele. A melhor definição de atopia é, sem dúvida, a da fórmula de Pessoa parodiando Descartes no Livro do desassossego:

«Não penso, portanto não existo».

A tragédia de Kien é a de ser levado a frequentar o mundo exterior à sua biblioteca, esse mundo i-mundo, caótico, que vai destruí-lo. Fundamentalmente, com que é confrontado Kien? Com a estupidez e a mesquinhez das sociedades ocidentais modernas, estupidez e mesquinhez proteiformes que tomam a forma da cupidez (Thérèse), da violência (Benedikt Pfaff), da desonestidade (Fischerle) ou ainda do comércio (Rude, o comerciante de móveis que, por intermédio de Thérèse e sem conhecer Kien, irá estar na origem das suas desventuras)… O homem pensador está condenado a passar ao lado da vida. Mas não é o triunfar na vida apanágio dos imbecis? Não é a derrota final de Kien uma vitória sobre o absurdo do mundo? Isso explicaria o feliz acaso (?) de “Kien” ser o anagrama do grego nikè, a “vitória”.

Tradução de Carlos Sousa de Almeida do texto de Bartleby, que fez um ano no passado dia 15 de Abril.

Imagens: Elias Canetti e Raoul Hausmann, Dada-Messe, 1920.

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… en faisant don de sa grace.

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A gravação, o Lamento della Ninfa, de Monteverdi, não é a melhor, mas a voz da Maria João Sousa incandesce a dor que nos dilacera na canção cruel. Proximamente, aqui.


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«É vão o culto que me presta…» Mt 15

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«”Explica-nos esta parábola.” [...]

Também vós não sois ainda capazes de compreender?»

Imagem: anónimo, escultura de um celtibero

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pão seco

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pão seco _______ de cada _______ dia quando será _______ o fim do mundo _______ por enquanto não ainda me dói _______ a vida na sua verdade ou será _______ na sua mentira _______ assombro se a matei _______ à luz retesada da antífona _______ um raio dervixe _______ epiderme eu _______ cantaria a cegueira ó céugallagher-print-003.jpg _______ safo sabia que tudo é _______ muito melhor _______ o que está para além e _______ a terra gira quieta muito _______

quieta o heroísmo está _______ no coração dos néones _______ cardiopatias amestradas colarinhos

que os cabelos lhes sejam mais leves _______ não sei se mais castanhos _______ letrados ou negros _______
tudo arde e eu não sei _______ que é a poesia se o pão

seco de cada dia _______ se a fingida vidabn_2.jpg

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pão seco de cada

dia quando será

o fim do mundo

por enquanto não ainda me dói

a vida na sua
verdade ou será

na sua mentira

assombro se a
matei

à luz retesada da antífona

um raio
dervixe epiderme eu

cantaria a cegueira ó céu

safo sabia
que tudo é

muito melhor

o que está
para além e

a terra gira
quieta muito

quieta o
heroísmo está

no coração dos néones

cardiopatias amestradas
colarinhos

que os
cabelos lhes sejam mais leves

não sei se mais castanhos

letrados ou negros

tudo arde e
eu não sei

que é a poesia se o pão

seco de cada dia

se a fingida vida

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dia quando será
pão seco de cada
o fim do mundo
a vida na sua verdade ou será
por enquanto não ainda me dói
assombro se a matei
na sua mentira
à luz retesada da antífona
cantaria a cegueira ó céu
um raio dervixe epiderme eu
safo sabia que tudo é
o que está para além e
muito melhor
a terra gira quieta muito
no coração dos néones
quieta o heroísmo está
cardiopatias amestradas colarinhos
que os cabelos lhes sejam mais leves
letrados ou negros
não sei se mais castanhos
que é a poesia se o pão
tudo arde e eu não sei
seco de cada dia
se a fingida vida

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pão seco de cada

dia quando será

o fim do mundo

por enquanto não ainda me dói

a vida na sua verdade ou será

na sua mentira

assombro se a matei

à luz retesada da antífona

um raio dervixe epiderme eu

cantaria a cegueira ó céu

safo sabia que tudo é

muito melhor

o que está para além e

a terra gira quieta muito

quieta o heroísmo está

no coração dos néones

cardiopatias amestradas colarinhos

que os cabelos lhes sejam mais leves

não sei se mais castanhos

letrados ou negros

tudo arde e eu não sei

que é a poesia se o pão

seco de cada dia

se a fingida vida

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pão seco de cada

dia quando será

o fim do mundo

por enquanto não ainda me dói

a vida na sua verdade ou será

na sua mentira

assombro se a matei

à luz retesada da antífona

um raio dervixe epiderme eu

cantaria a cegueira ó céu

safo sabia que tudo é

muito melhor

o que está para além e

a terra gira quieta muito

quieta o heroísmo está

no coração dos néones

cardiopatias amestradas colarinhos

que os cabelos lhes sejam mais leves

não sei se mais castanhos

letrados ou negros

tudo arde e eu não sei

que é a poesia se o pão

seco de cada dia

se a fingida vida

Imagens: Ellen Gallagher, “Free Nurses” from “DeLuxe”; Bruce Nauman, The True Artist Helps the World by Revealing Mystic Truths (Window or Wall Sign)

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Da Música - XV

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Paul Bowles, a quem dediquei 5 apontamentos - 1, 2, 3, 4 e 5 (este último relativo à música marroquina por si registada) -, de novo, desta vez através do Continuo’s weblog, an excellent music blog, «The Voices of Paul Bowles», aqui.

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Da Pintura XII (2 de 2)

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Wilhelm Maria Hubertus Leibl

«A visão é tudo», escreveu Leibl, «mas muito poucos conseguem ver.» Para ele, o acto de ver não se ficava nas aparências, significava apreender o invulgar pormenor revelador - um olhar ou um gesto, uma pose ou um movimento - que falasse da vida íntima. Enquanto alguns dos seus contemporâneos em França - Monet e Pissarro, por exemplo - registavam puras impressões, Leibl ocupava-se de uma realidade detectável apenas de forma descontínua, à superfície.

Embora a obra Três Mulheres na Igreja não tenha sido elogiada por toda a gente quando da primeira exibição, o quadro é hoje em dia considerado a sua obra-prima. Nele, Leibl captou bem a piedade campesina.

O artista foi pintar para Berblingen em 1878 a convite do prior local. Nos cinco anos anteriores, vivera em duas outras aldeias. Até 1873, mal travara ainda conhecimento com a vida campesina quando, de um momento para o outro, compreendeu que só isso lhe interessava. A rejeição de Munique e de tudo o que ela representava começara quatro anos antes, depois de ter atraído a atenção de Gustave Courbet e passado um emocionante ano em Paris. Após o regresso, ultrapassou rapidamente os competentes mas severos retratos como o da sua tia Helene Leibl, realizado no tempo em que estudava na Academia de Munique. A partida da cidade determina mais que um simples melhoramento na técnica do pintor. Assinala a rejeição do artifício imoral da vida urbana. A mulher do campo, o seu novo tema, foi pintada com um arrojo e uma frescura nunca antes vistos no seu trabalho. Leibl apreciava claramente o ambiente rural: «Aqui», disse ele, «pode pintar-se com naturalidade.»

Na altura em que pintou este casal de camponeses, já se havia mudado de Berblingen para Aibling, mas ao fim de dois anos, considerou-a demasiado povoada e voltou a mudar-se. Ao contrário da maioria dos artistas que trabalharam nos meios rurais, por exemplo, François Millet, Leibl nunca pintou camponeses a trabalhar nos campos. Não era a terra em si que lhe interessava, mas o seu efeito sobre o carácter daqueles que nela viviam. As pessoas fascinavam-no, eram elas que lhe importavam, não a sua fixação na tela.

As suas figuras parecem-se mais com indivíduos que com arquétipos, no entanto, o que mais lhe agradava era que o seu trabalho fosse apreciado não só pelos especialistas mas também pela gente local: «Alguns camponeses vieram ver o quadro nos últimos tempos», escrevia ele a um amigo, «e instintivamente punham as mãos defronte e um deles exclamou mesmo: “É um trabalho de mestre.”»

Imagem: 1 - Wilhelm Leibl, Camponesa com lenço branco, 1885; 2 - Pé-de-meia, 1879

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Era uma vez

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Já dera nota, aqui e aqui, da magia dos quadros de Inez Andrade Paes.

Acabou de informar-me que abrira também um blogue aqui, onde podemos maravilhar-nos com ela.

© Imagem: Era uma vez, Pintura sobre algodão

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Homenagem a Andreï Tarkovsky

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Fez anos no passado dia 4 de Abril [1932] que Andreï Tarkovsky nasceu.

E aqui, via Spoutnisi, pode ler-se a última entrevista dada pelo cineasta, a 28 de Abril de 1986, doente, de cama, e publicada em Nouvelles Clés.

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A Analogia da «Navigatio»

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S. Brandão e a Baleia

A «Navigatio Sancti Brendani», uma obra hagiográfica que nos chegou em várias versões posteriores ao século X, embora seja provável que o original date do século VI, propõe-se contar-nos a história das viagens por mar de um grupo de anacoretas em busca do paraíso terreal. S. Brandão encontra Judas no seu local de martírio, desembarca numa baleia, que confunde com uma ilha, vê colunas de fogo, nuvens e gelo, expulsa demónios, consegue escapar a monstros, fala com anjos caídos parecidos com aves e ascende, depois de vários períodos de penitência, ao estado de graça em que a «terra prometida» lhe é revelada.

No final da obra, o guia misterioso e um tanto angelical que acompanha S. Brandão na sua jornada alude claramente ao plano de um explorador e confia-lhe provas das suas descobertas, acrescentando-lhe também uma nota mística. Disse-lhe, então:

«Esta é a terra que procuraste durante tanto tempo, mas ao princípio não podias encontrá-la porque Deus queria mostrar-te os Seus muitos segredos no vasto oceano. Regressa, pois, à tua terra natal, levando contigo tantos frutos e pedras preciosas quantos couberem no teu barco [...]» in Navigatio Brandani, 80-1.

E tendo recebido a bênção, embarcou com os seus irmãos e encetou o caminho de regresso no meio das trevas.

Os monges irlandeses chegaram a extremos impressionantes nas viagens de penitência que se impunham e na procura de regiões «desérticas» onde pudessem imitar o isolamento de João Baptista e do Cristo tentado.

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

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Haendel, Vivaldi, Pergolesi, Bach e Buxtehude

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A Maria João Sousa, de quem falei mais abaixo, vai, de novo, brindar-nos, juntamente com Liliana Bizineche, com mais um programa barroco, desta vez no Museu dos Coches. Domingo, às 17h, e a entrada é livre.

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Da Pintura - XII (1 de 2)

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Wilhelm Maria Hubertus Leibl, Três Mulheres na Igreja, óleo s/tela, 1881

«Os camponeses», disse Leibl, «são excelentes para posar.»
Wilhelm Leibl levou quatro anos a executar esta obra, mais propriamente de 1878 a 1881. Exceptuando os dias em que estava muito frio, ou quando alguma adormecia, as mesmas três mulheres da localidade - a aldeia bávara de Berblingen -, com o mesmo vestuário, iam até à igreja da aldeia e tomavam as suas poses.
A maior parte dos dias, Leibl optava por trabalhar somente uma pequena parte do quadro, por exemplo, um rosto, o que não interferia, porém, na rotina: insistiu sempre em que as três mulheres fossem juntas. Necessitava disso para ter um sentido de unidade global, na qual se inseria cada um dos pormenores. Mas, sobretudo, tinha uma convicção quase mística de que através do contacto diário com aquelas devotas aldeãs seria capaz de captar-lhes a alma através da expressão do corpo.

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Leibl conseguiu aproximar-se de uma longa tradição de imagens devotas, transmitindo-nos um sentido profundo de piedade pessoal, como em De Mãos Postas, de Albrecht Dürer, de inícios do século XVI. Sabia como as mãos podiam revelar um estado de espírito, mesmo quando uma cuidada máscara facial a ocultava.

Assim, através dos seus rostos, poses e mãos, Leibl transmitiu as diferentes idades e atitudes de três mulheres, afirmando, posteriormente, que, se pudesse, teria pintado somente as mãos das suas modelos.

Não foi fácil a Wilhelm Leibl conhecer a gente do campo. Nascido e criado em Colónia, completou os estudos em Munique. Vivia muito desiludido com a vida citadina.

Os aldeões, os seus costumes e vestuário, sempre lhe foram estranhos, mas conseguiu observá-los com a objectividade simples de alguém que está de fora. Nunca deixou de acreditar que através de um olhar demorado e suficientemente perseverante, seria capaz de uma compreensão intuitiva daquela gente. Por isso, cada pormenor, por mais mundano que parecesse, o padrão azul-axadrezado de um vestido, o traje castanho de de listras verdes, as contas de um rosário, as páginas gastas de uma velha bíblia, o brilho na madeira encerada dos bancos trabalhados da igreja, tudo isso foi merecedor da atenção do pintor e, desta forma, também da nossa.

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Eu sou o último galho que subsistiu.

O mundo estremece naqueles que as empunham.

São sombras as palavras.

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Da Sombra - III

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Imagem: Abranowicz, Book, Santorini, Grécia, 1991

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Maria João Sousa

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Recital de soprano e cravo pelos solistas da Orquestra Metropolitana de Lisboa

Maria João Sousa - soprano

e Marcos Magalhães - cravo

Salão Nobre do Palácio de S. Bento, 26/03/08

Música Barroca

Maria João Sousa é licenciada em Canto pela Academia Nacional Superior de Orquestra e em Ciências Musicais pela F.C.S.H. da Universidade Nova de Lisboa, onde também frequentou a licenciatura de Filosofia. Estuda com Liliana Bizineche e fez cursos de aperfeiçoamento com Teresa Berganza, Lella Cuberli, Ileana Cotrubas, Loh Sew-Tuan, Sarah Walker, Graham Johnson, Yvonne Minton, entre outros. Estuda Pronúncia e Declamação em Alemão com Isabel de Almeida e Sousa.

Tem-se apresentado em recitais na Casa de Mateus, Palácio Foz, Sociedade de Geografia, Palácio da Independência e Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz. Da sua actividade em produções operáticas, destacam-se os papéis de Serpina (La Serva Padrona, Pergolesi), sob a direcção de Max Rabinovich, Zerlina (D. Giovanni, Mozart), sob a direcção de Marc Soustrot e encenação de Sir Jonathan Miller, e Elisa (Il Re Pastore, Mozart), direcção de Jean-Marc Burf in e encenação de Paulo Matos. Em Novembro de 2008 cantou em directo para a Antena 2, no programa Concerto Aberto, em dois recitais de canto e piano. Participou no Prémio Jovens Músicos, categoria Voz, f icando entre os 9 semi-f inalistas e obteve o 2º Prémio do Concurso “Prémio José Augusto Alegria”, na categoria Voz, organizado pelo Eborae Musica.

PROGRAMA BARROCO

Henry PURCELL

(1659-1965)

If music be the food of love

Georg Friedrich HÄNDEL

(1685-1759)

“Lascia ch’io pianga”, da ópera Rinaldo

V’adoro pupille , da ópera Giulio Cesare

“Rejoice Greatly”, da oratória Messiah

António CARREIRA

(1520-1597)

Canção a Quatro*

Francesco DURANTE

(1684-1755)

Danza Danza

Jean-Philippe RAMEAU

(1683-1764)

“Amour, Amour”, da ópera Platée

Girolamo FRESCOBALDI

(1583-1643)

Tocatta terza*

Fr. Berm. eu de OLAGUÉ

(Séc XVII)

Xácara*

Antonio VIVALDI

(1678-1741)

“Armatae face et angibus”, da oratória Juditha

Triumphans

“Domine Deus”, da oratória Glória

Cláudio MONTEVERDI

(1567-1643)

Lamento della ninfa

Wolfgang Amadeus MOZART

(1756-1791)

Alleluja

* Peça a solo

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Obscurecer esta obscuridade,

eis a porta de toda a maravilha.

Lao Tse, Tao Te King, I

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Da Sombra - II

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lourdes-castro-teatro-de-sombras-as-cinco-estacoes.jpg

Imagem: Lourdes de Castro, Teatro de Sombras, As Cinco Estações, 1976

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Porque diz o adágio:

O caminho da luz parece obscuro…

Lao Tse, Tao Te King, XLI

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Da Sombra - I

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Imagem: Lourdes de Castro, Sombra de Costa Pinheiro, 1963, pintura s/tela

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