S/a Pálpebra da Página

Janeiro 14, 2007

Da Pintura – II

Arquivado em: Arts — casoual @ 3:01 am
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Franz von Stuck, Salomé, 1903, Lenbachaus, Munique

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Franz von Stuck, uma das personalidades da pintura mais esquecidas até há pouco tempo, «uma relíquia do gosto decadentista», apreciada pelos nossos avoengos, ressurgiu há alguns anos como alguém singular, começando a sua arte a ser apreciada com entusiasmo e até alguma reverência.
Tudo se iniciou com o interesse revivalista pelo movimento decorativo internacional conhecido como «Art Nouveau», «Jugendstil» ou Arte Nova.
A Salomé aqui representada, num êxtase de dança, é típica da imagética erótica que fez dele o artista mais famoso de Munique na sua época.
Salomé dança para Herodes ou, por assim dizer, para nós, somos nós os espectadores. Somos testemunhas desta dança e das suas terríveis consequências: a morte de João Baptista.
Von Stuck era barão, um aristocrata. Em Munique chamavam-lhe o «príncipe pintor». Foi professor na Academia de Munique, e entre os seus alunos contam-se Paul Klee e Vassily Kandinsky.
A história bíblica de Salomé despertou a imaginação dos artistas durante muitos séculos, variando com o gosto das épocas. Em inícios do século XVIII, ela surge numa das obras-primas da arte medieval germânica, a coluna de bronze na igreja de S. Miguel, em Hildesheim.
Em traços largos, que a história é conhecida, João repreendera Herodes por haver desposado Herodíade, a mulher de seu irmão. E Herodíade queria vingança. Herodes foi convencido a atirar João para a prisão. Mais tarde, realiza-se um banquete, e a filha de Herodíade, Salomé, dança na frente de Herodes. Este está extasiado e jura conceder-lhe o que quer que lhe peça. A sua mãe comunica-lhe o terrível pedido que deve fazer.
É o sadismo erótico de Salomé que desperta geralmente o olhar dos pintores, embora na Bíblia ela seja apenas uma rapariga sem força de vontade e imbecil, obedecendo às ordens da mãe. Deste modo, seguindo Leonardo da Vinci, Bernardino Luini, com a cativante alegria de Salomé, apresenta Herodes com a cabeça do Baptista numa escudela.
Para o século XIX, a Salomé transformou-se na mulher mais apreciada da imaginação romântica, a mulher fatal. O simbolista francês Gustave Moreau pintou-a repetidamente, e de forma mais sedutora, com jóias e peças de vestuário transparente. Para este, ela era não só sedutora como perigosa, e o que é surpreendente, ou talvez não, é que Moreau nunca se comprometeu com nenhuma mulher.
Em 1893, Oscar Wilde escreveu uma peça sobre o tema, com ilustrações a preto e branco de outro artista obcecado do fim do século, Aubrey Beardsley. Salomé tornara-se um monstro que executa um sacrifício ritual.
No entanto, a Salomé de Stuck parece-se mais com uma dançarina do que com uma feiticeira. Ela está ali para provocar o macho, não para o atemorizar. Stuck era um sensualista e um boémio, e talvez o cenário tivesse uma intenção lírica, precisamente para uma ópera recente de Richard Strauss, baseada numa peça de Wilde. O «príncipe pintor» vê-se a si mesmo como um criador de imagens simbólicas e, geralmente, elas pertencem ao mal. Todos os seus quadros foram cuidadosamente construídos através de símbolos, numa opulência misteriosa, como se criasse um santuário. Aliás, tal como na sua vida de barão.
Stuck segue o caminho de outro aristocrata europeu, o Marquês de Sade, e talvez em nenhuma outra época um artista assim tivesse sido respeitado também como professor de pintura. Ele abriu os olhos às pessoas para aquilo que o pintor italiano De Chirico descrevia como «as musas inquietantes».
Salomé era certamente uma delas, semi-despida e brincando com a morte. A sua face é uma mistura de sensualidade e crueldade. A boca, libidinosa e provocante. Está coberta de jóias, que lhe afagam a pele e a definem: um brinquedo caro que deslumbra e enfeitiça e pode arruinar um homem.
Nesta opressiva atmosfera que impregna tantas cidades europeias do virar do século, não é demais verificar como a imaginação de Stuck ficou prisioneira de uma imagética extravagante. Os amantes da arte de Munique não tinham mulheres como esta, mas tinham sonhos como este. E porventura, temores. Da mulher fatal. Da bela sem piedade. A sua sensualidade é assassina. Veja-se como a cabeça do Baptista resplandece na sua auréola. O êxtase deve-se a um homem decapitado. É realmente um quadro macabro. E fora das sombras emerge uma face horrenda, o escravo que traz a cabeça numa escudela, como uma travessa para o banquete.
Observemos de novo o sorriso de Salomé. Os lábios são quase negros. A pele é pálida. O seu desejo é prenúncio de morte. Os seus servos são criaturas das trevas.
Mas «o mistério do amor é maior que o mistério da morte

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