Hans Baldung Grien, A Jovem e a Morte
Num outro quadro de 1517, A Jovem e a Morte, apenas com 30 cm de altura, pode ler-se a seguinte inscrição no canto superior, anunciada pela Morte: «É para aqui que tereis de ir.» E a sua mão direita aponta para a sepultura negra em baixo.
Embora sombria na cor, a pintura de Baldung é simbolicamente forte. Os acontecimentos macabros são enfatizados por séries acentuadas de contrastes. A pálida e tenra carne da donzela é agarrada por trás, pela seca e negra silhueta da Morte. A mão esquerda pega brutalmente nos cabelos da jovem e puxa-os selvaticamente, num gesto de uma clara carga sexual. A jovem resiste à atracção mortal e os seus pés continuam firmemente presos ao chão. Ela volta a cabeça e o corpo para nós, mas os seus movimentos vão perdendo força. A Morte levará a palma. Desesperada, a rapariga contorce as mãos e chora.
Embora estes gestos fossem mais ou menos convencionais para o tempo, a aparência bela e sensual das jovens e o comprazimento erótico que o artista tem ao pintá-las são incontestavelmente obra de Baldung Grien.
É o sentido do momento dramático imobilizado no ponto máximo do impacto visual. E na sua resistência à Morte, ela rompe num pranto incontrolável perante o qual, nós, os espectadores, nos sentimos profundamente conscientes da incapacidade de a ajudar, exactamente como ela se sente desamparada nas garras da Morte.
E no entanto, quanta compreensão da vida se acha nestas cenas da Morte! Sentimos que o pintor não está inteiramente do lado dos moralistas. Aprecia o combate e deleita-se com ele. A Morte, apesar de repelente, é uma conquistadora vigorosa e pode até ser considerada quase tão sedutora como a própria mulher.
Nestes quadros, parece haver sempre uma grande hesitação entre a abominação do horror e o prazer do desejo. A intenção é clara. Eros e Tânato, Amor e Morte. Um pressupõe o outro. Porque, para Grien, o Amor e a Morte eram amantes. Uma estranha e poderosa intuição na compreensão dos impulsos humanos.




interessante essa relação que fazes entre repulsa e erotismo. eu acho realmente que o quadro é bastante erótico. a suplica da donzela não parece convincente apesar das mãos fortemente apertadas…há um pormenor que me parece extremamente interessante: o véu que envolve o colo da donzela para que se desvanece envolvendo a morte, como se de alguma forma ela desejasse fruir dos seus mistérios, provar o seu gosto.
o que eu acho sempre interessante neste tipo de pinturas é a forma como a morte é retratada, normalmente um personagem macabro e fantasmagórico, intimidador, assustador… isso é muito revelador da nossa cultura e do medo que temos, enquanto humanos, de deixar de viver. somos animais fascinados por nós próprios, todos filhos de narciso, e o fim, o nosso fim, é qualquer coisa que provoca um verdadeiro sismo no ‘eu’ colectivo. o desconhecido, o caminhar de olhos vendados sem conhecer o porvir pode ‘excitar-nos’ de alguma forma… mas é o medo de sermos menores que a morte que nos dá a verdadeira ‘tusa’ e nos obriga a desafia-la constantemente… nem que sub-repticiamente, como a sonsa a donzela…
um abraço
Comentário por vitor leal barros — Janeiro 22, 2007 @ 5:38 pm
está aí uma frase mal escrita:
onde diz ‘para que se desvanece’ deve ler-se ‘parece que se desvanece’
Comentário por vitor leal barros — Janeiro 22, 2007 @ 5:42 pm