S/a Pálpebra da Página

Janeiro 27, 2007

Da Pintura – IV

Arquivado em: Arts — casoual @ 3:11 am
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Ernst Ludwig Kirchner, Cinco Mulheres na Rua

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Berlim, 1913. Uma rua movimentada de uma grande cidade. Depois de porem o bâton e calçarem os saltos altos, as mulheres da vida saem para ver as montras da cidade. As pinceladas são rápidas e nervosas. O espectador é um voyeur. Entre 1913 e 1915, Kirchner pintou várias séries de cenas de rua como esta.
Cinco mulheres deambulam pelo passeio. À esquerda, um carro avança rapidamente. Do outro lado, elas observam uma montra de passagem. O seu vestuário elegante, os tacões em forma de estilete, as peles vistosas, as plumas guerreiras nos chapéus, os casacos exageradamente aerodinâmicos das cinco figuras conferem-lhes um aspecto grotesco.
A sua individualidade está submersa nas peles de luxo, nos chapéus elegantes. Elas deambulam por aqui e por ali, sem destino, como corvos rondando a presa. Nada lhes prende a atenção por muito tempo. O frágil brilho da metrópole torna um tanto sinistros os seus contornos de ave.
Sobre as suas cenas de rua, Kirchner escreveu: «Quando observamos uma rua numa metrópole, à noite, com os seus milhares de pontos luminosos, percebemos logo que qualquer tentativa para realizar objectivamente uma pintura é infantil: tudo se transformou, até pela passagem de um táxi, uma luz ou um vestido de noite de cor escura. Se tivermos também em consideração o imprevisto da agitação, colhemos os vários pormenores que observamos, e são estes os principais instantâneos da impressão geral que a cena nos pode impor. E acabamos por realizar algo completamente diferente de tudo quanto pudéssemos efectuar por mera construção.»
Estas pinturas de Berlim como capital movimentada são o ponto alto da sua carreira. Kirchner nasceu em Aschaffenburg, em 1880. Filho de pai engenheiro, que se transferia constantemente de cidade para cidade, o pintor parece ter herdado essa inconstância. Inicialmente, Kirchner estudou arquitectura. Em 1906, fundou em Dresden, com 3 colegas estudantes – E. Heckel, K. Schmidt-Rottluff e F. Bleyl – A Ponte («Die Bruecke»): «Exortamos todos os jovens que sofrem com o futuro a estabelecerem um modo de vida criativo. (…) Todos os que produzem directamente e em verdade aquilo que se sentem impelidos a criar, fazem parte do nosso grupo.»
Vinte anos mais tarde, em 1925, depois de viver algum tempo em Davos, Suíça, onde acabaria por se suicidar em 1938, Kirchner iniciou uma longa viagem pela Alemanha. Para ele e os companheiros, os anos de Dresden tinham sido um empreendimento sério, mas também um período de forte espírito juvenil, de calorosa amizade, de reuniões e modelos partilhados.
Depois de se ter desfeito a associação Die Bruecke, o estilo de Kirchner sofreu uma profunda transformação. As figuras tornaram-se mais irregulares e angulosas, as cores mais escuras, a linguagem visual mais linear e tensa, como o ilustra este Cinco Mulheres.
A série de mulheres na rua parece conter premonições da calamidade que se avizinhava. Kirchner sentia que a guerra mundial se aproximava e a ansiedade levou-o a uma depressão nervosa. Em 1916, escrevia no sanatório: «A opressão da guerra e a crescente superficialidade de tudo pesa-me muito. Tenho constantemente a impressão de observar um carnaval banhado em sangue. Sente-se que, de um momento para o outro, surgirá uma solução drástica. O que se vê agora é o completo caos. As pessoas juntam-se envaidecidas por trabalharem todos os dias, mas todo o trabalho é inútil e a doença da mediocridade mina todas as coisas. Tal como as mulheres da vida que eu pintei, todos nós poderíamos agora desaparecer a qualquer momento.»

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