Wilhelm von Kaulbach, A Destruição de Jerusalém por Tito, 1846
As galerias têm os seus esplendores e os seus fantasmas. Ao lado das obras-primas que conhecemos e apreciamos, pendem alguns quadros que parecem fazer parte de um mundo desaparecido. E é aí, precisamente, que reside o seu fascínio: compreender o que, noutros tempos, foi tão aclamado e celebrado.
Wilhelm von Kaulbach não é um pintor conhecido, mas ainda em meados do século XIX expunha em Munique um dos mais famosos quadros da época, sendo visto como um espírito vivo, não inferior a Rafael. Este enorme quadro, com mais de 30 metros quadrados, dá pelo glorioso nome de «A Destruição de Jerusalém por Tito», um acontecimento que tivera lugar 1800 anos antes, no ano 70 da era cristã.
Kaulbach não era um artista de ambições modestas. A sua alma romântica explodia; como disse deste quadro: «Era o espírito de Deus na história que queria explorar.» O artista trabalhara na obra durante dez anos. Um homem que o acompanhou animadamente foi Luís I da Baviera, que amava e encorajava a pintura histórica. E tão encantado estava que adquiriu a obra ainda inacabada para a Nova Pinacoteca.
Luís sentia que uma obra na qual os heróis cavalgavam, envoltos em névoa, era como que uma invocação do seu passado lendário. O significado destas trombetas, segundo o modelo romano, era maior do que o que parece. Kaulbach completou um ciclo de quadros históricos para os patronos régios que culminou na vitória da Reforma sobre o Catolicismo. Era uma visão histórica destinada a celebrar o triunfo da casa real da Baviera personificada pelo rei Luís.
A história é explicada como um melodrama. O sumo-sacerdote expõe o seu melhor perfil e, corajosamente, suicida-se, enquanto os romanos saqueiam Jerusalém. Três figuras com serpentes enroscadas afastam-se da cidade, uma imagem que, na altura, representa a eterna Errância do Judeu, sofrendo o destino na carne. Em cima, à direita, um toque de doçura e gosto. Uma família cristã prepara-se para deixar a cidade, conduzida pelo Santo Graal. Um grupo de crianças judias pede-lhes que não partam, em meio de mãos angustiadas.
Kaulbach fantasiou ele próprio, ao olhar para o passado, para a mais famosa pintura histórica – os vastos murais de Rafael no Vaticano, de princípios do século XVI: «A Expulsão de Heliodoro» era um quadro que o nosso pintor tinha em mente. Outro era a «A Disputa» de Rafael, no qual a Ressurreição de Cristo é acompanhada pela Virgem e João Baptista, juntamente com figuras do Antigo e do Novo Testamento. Por baixo do globo, foram reunidas figuras da igreja mais recentes: S. Gregório, St. Agostinho, S. Tomás de Aquino, etc. O quadro solene de Rafael está muito longe dos efeitos operáticos obtidos por Kaulbach.
O que preenche a distância entre eles é o movimento romântico. Os românticos mantêm-se próximos da pintura do Renascimento através das cores primárias, da composição mais formal. Há discretas sugestões emocionais. Mas isso não era suficiente para a imaginação dramática de Kaulbach. As emoções tinham de impelir as suas figuras para a frente, como num temporal. Preferivelmente, um temporal de morte e de lágrimas.
Qual é, afinal, a enorme atracção deste quadro? Actualmente, sente-se que Kaulbach encalhou no passado. O sentido do gosto mudara na direcção oposta a este género de «opera» exangue. Mas, por outro lado, antes de Manet, Van Gogh, Gauguin, Matisse, etc., este podia ter parecido o caminho que a arte tomava, evocando cenas em que os acontecimentos violentos podiam dar ênfase à imaginação. Era uma visão da arte influenciada pela obsessão com o ímpeto da marcha histórica, uma marcha que conduzia inexoravelmente às glórias da Baviera moderna.





obrigado carlos pela dica, não conhecia nem o autor nem o quadro…vem a calhar, pois parto para munique dia 19 deste mês… danke!
Comentário por vitor leal barros — Fevereiro 6, 2007 @ 11:21 pm