Thomas Bernhard não é para mim um poeta de eleição, no entanto, talvez por associar a sua poesia à restante obra, não me deixou indiferente. Numa entrevista dada para um documentário da série «Un siècle d’écrivains», à pergunta do entrevistador «Disse um dia que a solidão era para si uma forma de escrever. Quais são os efeitos disso?», respondia desta forma desassombrada: «Quando se escreve, é preciso uma forma de se poder escrever, seja a solidão, uma árvore, um monte de estrume, uma pessoa. Agarramo-nos a qualquer coisa. Afinal, sobretudo a nós mesmos. Tudo o resto é insignificante.»
DIANTE DA ALDEIA
Os rostos que emergem dos campos perguntam-me
pelo regresso.
O meu grito não perturba a andorinha
pousada no ramo partido. Sombria
é a minha alma, que o vento impele
para o mar, a fim de cheirar o sal da terra.
A minha lenda é mortal.
Debaixo da árvore, que é semelhante ao meu irmão,
conto as estrelas dos mareantes.
E sobre a realidade, TB acrescentava: «Definindo a idiotia como eu, isto é, no antigo sentido grego, quer dizer, simples, particular, único, sem duplicidade, toda a realidade é idiota e ao mesmo tempo indefinível. (…) Define-se pelo seu carácter indefinível. Perdemos o sentido da palavra “idiota”. Actualmente, significa “imbecil”. Aliás, foi-o sempre um pouco, na medida em que o sentido derivado de “imbecil” tem algo a ver com o sentido antigo que reaparece em certas palavras como “idiossincrasia”, “idioma” e muitas outras. É justamente por ser singular e não comparável com nada que é ao mesmo tempo real e indefinível. (…) O que faz o enigma do real, do mundo, é o de ser único. O mundo é único, o indivíduo é único.
ESTÁ NO TRIGO O MEU CORAÇÃO
Está no trigo o meu coração, vermelho
como o campo,
belo e louco como a terra
que me mata.
Vejo no Leste o meu pai,
jovem, com um lenço encarnado
e os pés descalços,
que passam sobre a minha saudade.
Vejo a minha mãe junto da minha sepultura,
velha e frágil,
e o sangue goteja
da sua face
na minha efemeridade.
E quase a terminar a entrevista, a propósito de A doença é a forma mais rápida de o homem se descobrir: «O fascinante é a decomposição, a doença. O que nos rodeia é doentio. Nós próprios o somos. Recusamos é admiti-lo, pois a própria ideia de doença é quase insuportável. (…) É uma coisa que diz respeito a cada um. (…) O escritor é obrigado a fazer de idiota em todos os sentidos. Porque há um desvio entre o homem público e o privado. Só o homem privado existe. Só ele é idiota no sentido original do termo. Só o escritor privado é real.»
NUM TAPETE DE ÁGUA
Num tapete de água
vou bordando os meus dias,
os meus deuses e as minhas doenças.
Num tapete de verdura
vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,
as minhas manhãs azuis,
as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também.
Num tapete de terra
vou bordando a minha efemeridade.
Nele vou bordando a minha noite
e a minha fome,
a minha tristeza
e o navio de guerra dos meus desesperos,
que vai deslizando p’ra mil outras águas,
paras águas do desassossego,
para as águas da imortalidade.
Poemas do livro «Na terra e no Inferno», traduzidos por José A. Palma Caetano.
Excertos do documentário traduzidos por Carlos Sousa de Almeida
Algumas ligações: 1 – Em alemão; 2 – Em inglês; 3 – Em castelhano.



