Philipp Otto Runge, Os Filhos de Hülsenbeck, 1806
Para a Francisca
O olhar das crianças pode ser realmente desconcertante. E estas, pintadas por Runge, no começo do século XIX, fazem-nos de certo parar e pensar. Duas delas olham para nós quase tão firmemente como nós olhamos para elas. As três que aqui vemos são Maria e os seus dois irmãos mais novos, August e Friedrich.
Runge sempre olhou para as pessoas como fazendo parte integrante do mundo que as rodeia. As crianças contrastam vivamente com a paisagem, como actores num palco. Os raios oblíquos de luz rosada realçam o efeito. Mas os pormenores individuais afastam-nos da visão de conjunto da obra. Temos de escolher entre o plano de fundo e o primeiro plano: a extensão da paisagem a perder de vista e os dedos flectidos de Maria, os telhados e as árvores por detrás dos campos mais próximos e as folhas pesadas do enorme girassol.
Os retratos de Runge mostram a vivacidade da sua imaginação, tal como os seus auto-retratos. Nesta obra, os olhares das crianças são tão singelos e límpidos que não precisam de explicação. No entanto, há outros quadros desta época que abandonam o mundo exterior que conhecemos e nos fazem penetrar mais no mundo da imaginação do pintor, como na Pausa na Fuga para o Egipto, e nos seus muitos estudos realizados para uma série de murais sobre os Quatro Períodos do Dia. Runge estudava cientificamente a cor, mas usava-a de acordo com o seu próprio sistema simbólico. Diz-se que por causa da forte desaprovação dos pais, para quem a pintura registava simplesmente o visível, o mundo material. Assim, a tradição clássica da alegoria, como a ensinava a Academia de Copenhaga, atraiu-o, mostrando-lhe como utilizar as figuras, mesmo de crianças, simbolizando ideias.
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