Philipp Otto Runge, Manhã (pormenor)
No seu desejo de expressar mais directamente o invisível, Runge pintou criaturas imaginadas, etéreas, como as dos estudos para a Manhã.
Em Os Filhos de Hülsenbeck, o artista pinta Maria, com seis anos, August, um ano mais novo, ambos muito diferentes, à volta de Friedrich, quase um bebé. Através destas diferenças, ele está a sugerir os três estádios de desenvolvimento. Friedrich olha, simplesmente, sem se concentrar em nada do que está à sua volta. Os membros roliços estão cheios de vida, mas imóveis, o mais próximo da existência animal. August já não se satisfaz com o simples olhar e tocar, quer sair para o mundo e transformá-lo; mas também aqui há alguma falta de realce: a acção não tem um objectivo real, é apenas o resultado do seu entusiasmo. E por fim, Maria, a única que está ciente das suas responsabilidades.
O ponto de vista do pintor é o mais próximo do nosso, embora a apresentação perceptiva e não sentimental das três crianças nos ajude a identificar com cada uma delas; recordamo-nos de como fomos com a sua idade. No entanto, também nos convida a ver como são naturais os objectos seguindo um modelo predeterminado. O girassol, por exemplo, é-nos mostrado em diferentes estados de abertura e apontando em diversas direcções, simbolizando o desenvolvimento espiritual do homem.
Temendo o risco de que o quadro pudesse agradar apenas pelo aspecto exterior, imediatamente atraente, Runge iniciou um retrato de um grupo maior, Os Pais do Artista. Estão no jardim da casa, na sua cidade natal, Wolgast, um porto do Báltico, onde o pai fora armador. Aos pés do casal estão o filho de Runge, Otto Sigismund, e o franzino Friedrich, mais velho, filho do seu irmão Jakob. A subtil diferença entre as três crianças é aqui substituída pelo forte contraste entre a idade mais avançada e a extrema juventude. Nos dedos tensos, a mãe de Runge segura uma rosa que está na altura da queda das pétalas. O sobrinho de Runge eleva o olhar para a avó, numa expectativa inocente e de face radiante: na mão, agarra firmemente a haste de um lírio que cresce no jardim. O rosto expansivo e confiante repercute a abertura do lírio. Uma vez mais, a criança e a planta são vistas como parte do mesmo mundo natural.
Runge exprimiu a sua própria crença numa unidade semelhante, como escreveu a propósito de a Manhã: «Quando o dia desponta, deito-me na relva… todas as folhas e rebentos estão cheios de vida, a terra nutre-se e agita-se debaixo de mim… a minha alma rejubila de alegria.»
Goethe, que encontrou Runge quase louco, previu que ele viria a ser o mais representativo dos artistas do século XIX. E se pensarmos no optimismo, energia e auto-confiança do século XIX, tão claramente expressos em Os Filhos de Huelsenbeck, podemos concluir que Goethe tinha razão.




