I
DESDE AS NOVE HORAS
Meia-noite e meia. O tempo passou rápido,
desde que às nove horas acendi a luz
e me sentei aqui. Fiquei sem ler,
sem falar. Com quem poderia falar,
eu que vivo só nesta casa.
O fantasma da minha juventude,
desde que às nove horas acendi a luz,
veio ter comigo e lembrar-me
o perfume dos quartos fechados
e o prazer passado – um prazer tão audacioso!
Pôs-me também perante
ruas que não seria capaz de reconhecer hoje,
encontros frequentes que já não existem,
e teatros e cafés que tiveram a sua época.
O fantasma da minha juventude
trouxe-me também algumas tristezas,
lutos de família, separações,
opiniões de amigos, vontades
de mortos que valem pouco.
Meia-noite e meia. Como o tempo passou.
Meia-noite e meia. Como os anos passaram.
Versão de Carlos Sousa de Almeida
No arquivo Cavafis, pode consultar-se este poema em versão de R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos.



