Caspar David Friedrich, O Mar Polar, 1823
Uma reportagem fotográfica realizada depois de uma colisão ou de um terremoto dá-nos a mesma sensação de confusão que nos surge perante a pintura de um naufrágio no Árctico. É difícil saber o que sucedeu exactamente aqui. Procuramos decifrar os sinais e reconstituir o acontecimento, mas as pistas contradizem-se. Afastamo-nos com um sentimento de impotência e de temor perante o poder de forças que estão para além do nosso controlo e entendimento. Ao contrário do repórter fotográfico, Caspar não esteve no local. Imaginou o naufrágio. Como a maior parte das suas cenas, esta foi realizada no seu estúdio, perto de Dresden. É verdade que faz referência a estudos sobre o gelo no rio Elba, efectuados uns anos antes. No entanto, nenhuma das paisagens que viu nas suas viagens – desde as costas do Báltico às florestas da Boémia – era tão desoladora como esta.
Se nos detivermos e observarmos com atenção, temos de fazer um esforço para olhar de uma forma diferente do habitual: somos obrigados a vencer o horror da força esmagadora sentido perante estes blocos, mas também a sua estranha beleza. E precisamos de abandonar o sentido da escala humana que nos dá o casco do navio naufragado, bem como a ideia que temos de uma marinha.
Estes fragmentos e placas brilhantes, coisas para as quais dificilmente temos um nome, não têm lugar no tipo de cenas de paisagem habituais. É como se tivéssemos de andar às apalpadelas, de aprender a ver a Natureza nas suas próprias relações.




