S/a Pálpebra da Página

Abril 6, 2007

Cristina Campo

Arquivado em: Poetry — casoual @ 8:38 am
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Radonitza *
(Anúncio da Páscoa aos mortos)

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Vento de primavera
translúcido como espada:
afasta do sépalo afiado
a corola carmesim que ainda treme,
como na alma o espírito,
o sangue da veia.
O inverno, oculta haste
que balanceou as intenções, assombrou as mortais hesitações,
ceifada sem um grito;
a velhice interior corta
da terrível vida.
Páscoa da incorrupção!
No vento de primavera
a antiga igreja indivisa
anuncia aos mortos que indivisa é a vida:
sobre as lápides dos túmulos
pousa os sépalos que ainda tremem
e no centro, no plexo, no coração,
lá onde está sepulto o Sol,
lá onde está sepulto o Dom,
o pequeno ovo carmesim do perene retorno,
do humilde, irreconhecível
transmutado retorno.
Páscoa que libertas todas as culpas!
Paradoxal deserto
de um cemitério metropolitano
entre delicadíssimas asas
de andorinhas e véus: quinto tom,
gritos de boiardos sem compostura, a espada desembainhada
na celeste Cidade tomada,
que se cruza e enrola, oitavo tom,
- como à vivificante, venerável Cruz
do Archeiro a rosa que ainda treme -
naquele tão terno lamento fúnebre:
Páscoa, memória eterna!

Patética, patrícia
morte da morte metropolitana
testemunhada por pouquíssimas e imóveis bonecas
da Corte asiática: carmesim, prata e oiro.
Pálpebras escavadas,
pálpebras afiadas,
olhares fixos, parados, lajeados
sobre os túmulos de cada lugar, cada memória, cada estirpe,
cada psique morrente.
Lenços enxugam furtivos
os cantos da boca que rega como sangue
o divino grito, as raízes carbonizadas da água
inexaurível da notícia tremenda:
Páscoa, memória eterna!

* Poema de Cristina Campo, pseudónimo de Vitoria Guerrini, versão de Carlos Sousa de Almeida

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