Wolf Vostell, Miss América, 1968
Em 1968, uma fotografia tirada por Edward T. Adams mostrando o brutal assassínio de um soldado vietcong indefeso provocou um coro de protestos na imprensa internacional. A fotografia levou o verdadeiro horror do Vietname ao lar de milhões de pessoas. Wolf Vostell pegou nessa famosa fotografia de guerra e combinou-a com uma imagem da rainha de beleza a dançar. Deu-lhe um nome: Miss América.
Ao centro do quadro pode ler-se com certa dificuldade o seguinte: «luzes dançantes», «lantejoulas brilhantes». Rememora-se um desfile de modas.
Vostell justapôs dois mundos muito diferentes. A realidade brutal do Vietname e o falso sonho de esplendor de um concurso de beleza. Vêem-se assim em simultâneo as duas faces da América: a que fica por cima e a que fica por baixo. A máscara pública e a face secreta. As vítimas são miseráveis. Uma mão puxa o gatilho.
Tal como o soldado vietcong assassinado, a rainha de beleza não tem controlo efectivo do seu destino. Pende, desenquadrada, no cimo do quadro, como uma boneca suspensa. Está em exibição também diante do público. Normalmente, é o soldado que está diante do pelotão de fuzilamento que tem os olhos vendados. Numa inversão deliberada, o artista trocou os papéis. É a rainha de beleza americana que traz a máscara de sangue.
A pin-up e o soldado assassinado têm algo mais em comum: ambos estão à venda. A fotografia de Adam foi muito procurada pelos jornais. Foi um produto que se vendeu bem, um grande sucesso comercial, discutido ao pequeno-almoço, tal como o resultado do concurso de beleza. A miss América tornou-se de imediato um sorridente e bem sucedido rosto. Vostell fez-lhe desaparecer os olhos com uma mancha de sangue.
«Teoricamente», disse Vostell, «os meus quadros deviam ser vistos como um fogo cerrado, uma admoestação, uma ameaça, um protesto, uma advertência e um ponto de interrogação.»



