Wolf Vostell, Miss Vietname, 1967
«Mas pintar é um tratamento, uma forma de lutar contra o princípio da morte. A morte tem de ser firmemente agarrada em termos da sua realidade no tempo, pois de outro modo, todos os artistas diriam “vamos fazer um intervalo de umas centenas de anos”. Eu preferia não fazer nada por milhares de anos, estudar apenas, e só depois recomeçar a pintar. Temos de ter algo que nos motive interiormente para que haja o impulso de criar.»
E sobre a evolução da sua obra, Vostell escreveu: «Em 1962, o sexo e a guerra começaram a emergir como opostos nos meus quadros… Sou realista, mas sou uma pessoa que cria a sua própria realidade através de uma nova técnica realista. A técnica é sempre o mais importante do meu trabalho, ao passo que o assunto, a ideia ou a combinação de duas forças contraditórias como o amor e a morte, são o seu elemento universal.»
Vostell depressa descobriu que a sua técnica de décollage chamava a atenção para o acto físico, desvanecendo a separação entre a performance artística e a demonstração política. Em 1962, com George Maciunas, Vostell fundou o Fluxus, o movimento de arte experimental mais radical dos anos 60. Organizaram performances, reuniram músicos (o grupo teve uma forte componente musical nas suas raízes), publicaram manifestos e fizeram vídeo-instalações de mistura com ruidosas agitações públicas.
No trabalho de Vostell, as imagens, os objectos e os happenings parecem estar sempre acumulados uns sobre os outros. E Miss América deve as suas imagens básicas a um happening terrível para performers e três câmaras de TV montadas em 1967 numa carreira de tiro de Colónia. O happening foi denominado Miss Vietname.
Escrevendo sobre a sua técnica, Vostell recorda: «Em 1961, trabalhei algumas horas por dia como artista de «lay-out»; tinha de trabalhar 300 fotos ao mesmo tempo. Fiquei impressionado com a facilidade de obliterar, aquilo a que os franceses chamam effaçage. No entanto, não era como o trabalho de Gerhard Richter, cujas fotografias pintadas distorciam a imagem, mas não a apagavam. São imagens manchadas a óleo, na realidade, fotografias pintadas com borrões. Cerca de 1962 ou 63, descobri em Colónia a técnica da foto-emulsão sobre tela tratada. Para a emulsão sobre as telas, transferi aquilo que se vê nas revistas ilustradas, e depois tratei as imagens com ácidos especiais para fotografia. É natural, há alguns efeitos secundários. O ácido oxida sobre a tela e depois modifica-se durante um certo tempo.»
É por isso que Miss América é um documento alterável do nosso tempo, cujo poder parece ir aumentando cada vez mais.




