Da filosofia – IV

O DESEJO – I
O controlo ou domínio e a medida

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«O desejo surgiu no dealbar do pensamento grego. No mais antigo relato das origens que chegou até nós em grego, a Teogonia de Hesíodo (c. 700 a.C.), o Amor (Eros), “aquele que, no peito de qualquer deus ou de qualquer homem, subjuga o coração e o querer sensato”, é a terceira entidade a surgir, depois do Abismo e da Terra e antes das divindades. Anterior aos deuses individualizados e ao panteão organizado, o Amor é uma força universal de atracção que combina os elementos materiais para originar seres novos. Resultante sem dúvida do orfismo, esta concepção de Eros como princípio físico tem reflexos nos pré-socráticos: a philia de Empédocles (nascido c. 500 a.C.) é uma potência que reúne os componentes do mundo sensível e os concentra de modo cada vez mais homogéneo.
A primeira teoria complexa do desejo no campo da psicologia moral deve-se a Platão (428-348 a.C.). No livro IV da República, Platão constata que o homem pode simultaneamente desejar objectos contraditórios (podemos ter sede mas não vontade de beber). Distingue, pois, diversas partes da alma na origem das diferentes formas de desejo: a alma é composta de uma parte racional (logistikon), fonte dos juízos e das convicções que motivam acções orientadas para a verdade e o bem. A parte irracional da alma (alogiston) impele o Homem a alimentar-se, a sonhar, a divertir-se com espectáculos e jogos de linguagem: trata-se aqui mesmo de recordações e antecipações – operações do pensamento. Uma zona afectiva (thumos) é o centro do desejo de afirmação de si; ainda que dê origem aos afectos violentos, o thumos tende geralmente a harmonizar-se com as escolhas racionais. As virtudes do homem, a coragem, a temperança ou a justiça, são combinações equilibradas das três partes da alma. Mas, provenientes de fontes heterogéneas, os desejos podem opor-se entre si, nem sempre sendo a razão disso a de cima. Como preparar, então, o homem para dominar ou controlar a boa posologia dos desejos?»

(texto de Pierre Cordier; Le Magazine Littéraire, nº 455, Julho-Agosto de 2006; tradução de Carlos Sousa de Almeida)

Imagem: Anacréon, Sapho, Bion et Moschus, Traduction nouvelle en Prose, suivie de la Veillée des Fêtes de Vénus, et d’un choix de piéces de différens auteurs par M. M*** C**. orné d’un frontispice, de 1é vignettes et de 13 culs-de-lampe gravés par Eisen, 1780