O Desejo – II

«O Pensamento Cristão
“A alma fornica”, a carne e o divino
Hoc est corpus meum! Este é o meu corpo: são estas as palavras pronunciadas por Jesus dirigidas aos seus discípulos quando da Ceia, inventando literalmente o seu corpo, o “corpo cristão”. Ao fazê-lo, ele muda também o estatuto do religioso, com o deus feito homem, e cuja carne é oferecida às suas ovelhas, inaugurando a era daquilo a que o psicanalista Béla Grunberger chamou o “narcisismo cristão”. A irrupção do divino na “carne” humana e a dupla natureza de Cristo não suprimem o desejo, redistribuem o jogo, anunciando uma divisão dos papéis e uma nova ambivalência do desejo, encontrando mais do que um eco, o que não desagrada aos novos hedonistas, no desejo dos modernos. (…) Quando Santo Agostinho, herdeiro de Tertuliano, de Lactâncio e de outros, vem a mudar de opinião relativamente ao antropocentrismo cristão, fará efectivamente de Cristo uma “excepção”. Jesus tinha fome e sede como todos, morreu como todos, mas dependia de si decidir quando teria fome ou sede, quando entregaria a alma. Melhor ainda, acrescenta numa homilia sobre o evangelho de Jesus, sentia-se perturbado como todos, mas porque assim o queria. Mas onde Pelágio da Bretanha, a sombra negra de Agostinho, imaginava que cada um podia controlar o seu, a exemplo de Cristo, o bispo de Hipona conclui que só a graça podia, no comum dos mortais, triunfar sobre o desejo, deslocá-lo para outra escolha de objecto, como dizem os psicanalistas, ainda que, dirá Lacan, o desejo vise sempre ao lado do seu objecto. A Orígenes, que, seguindo uma sugestão pauliniana, queria criar um “eunuco pelo reino dos céus” (…) Agostinho e a instituição responderão: retirai o sexo, subsistirá o desejo. Não são, portanto, nem o sexo nem o desejo os culpados, mas, em tal circunstância, os seus objectos. (…) Mas basta ler as Confissões e pensar na paixão das polémicas contra Julião de Eclane para saber que não foi assim tão fácil a Agostinho “evitar D. Juan em Orígenes”, segundo a expressão de Victor Hugo, disciplinar o corpo resistindo às tentações da carne e aos seus magros proveitos. Escravo do seu próprio desejo ao ponto de estar “fora de si” ainda que “Deus estivesse em si”, é nesse cadinho que criará mais tarde a sua teologia do pecado que resumirá em duas palavras: “a alma fornica” (Conf. II, VI, 14). Como Agostinho, contudo, Julião falava por experiência própria. Estivera durante algum tempo casado com a filha de um bispo, e a união com ela fora para si “uma restauração da inocência de Adão e Eva”: o desejo sexual que experimentara era inocente e abençoado por Deus.»
(texto de Pierre-Emmanuel Dauzat; Le Magazine Littéraire, nº 455, Julho-Agosto de 2006; tradução de Carlos Sousa de Almeida)
Imagem: Francisco Ribalta (1565-1628), Cristo abrazando a San Bernardo
1 Comentário(s)
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Porque o desejo é algo bem mais complexo. Reduzi-lo à libido é um equívoco grosseiro.
Beijo, menino.