S/a Pálpebra da Página

Maio 11, 2007

Tenho uma dor – I (será ética ou estética?)

Arquivado em: Semantics — casoual @ 6:30 pm

Desde que me conheço que ando em crise. Digamos que a crise é o meu estado natural. Andar em crise é um estado que pressupõe disponibilidade mental e física. Da complexidade deste fenómeno falam as direcções por mim impressas ao longo da existência. Exemplifiquemos o fenómeno com um leque, um leque de variados tons e matizes, reproduzido por infinitas formas… o estilo, porém, perdura, e acrescentarei mesmo que apenas conheço um: a pessoa que sou ou vou construindo com os diversos graus da escala polícroma… Dizia eu que a minha disponibilidade para a crise é um estado inato, categoria que deduzi da permanência nesse mesmo estado. Ora permanência e crise entrechocam-se, donde se concluirá, licitamente, que esta provém daquela. Um imparcial observador concluiria isto de mim, ou do meu estado, que não são uma, mas realidades distintas, por vezes opostas até. Talvez acrescesse ainda, na sua científica objectividade, predisposição constante para um factor que se tem vindo a revelar de conservadorismo. Aliás, a demonstração do fenómeno através de tão orgânico objecto revelaria, na devassa do investigador pelo meu eu interior, reajustamentos frequentes entre as várias naturezas de que sou composto. Há quem costume afirmar que o homem é um ser estável. Ou, quando muito, lá trepa alguns degraus e puxa uma cadeira traçando a perna. Realiza-se neste acto, profundamente artificial, de escolher, de entre dois estados antagónicos, estar sentado ou estar de pé, o primeiro. Nada mais irreal em mim. A motivação do ser estável, justifica-se, é radicalmente ética. Move-se, pendularmente, no sentido dos ponteiros do relógio. E badala a horas certas. A sua ética consiste na corrente estabelecida entre os ponteiros e o pêndulo. Pois a minha é radicalmente estética, o meu sentido provém do desamparo que vou vislumbrando nas finitudes constantes de uma linha infinita, irremediavelmente perdido na convicção de que o eu que transporto engravida nessa linha ondulante de contrariedades entre a crise e a estabilidade, estar sentado ou estar de pé… Que diabo! Ética ou estética…? Um homem… em crise.

Imagem: Bernard Faucon

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