Geertgen Tot Sint Jans, João Baptista no Deserto

Geertgen Tot Sint Jans trabalhou na cidade alemã de Haarlem, em finais do século XV. Era irmão laico da Ordem de S. João, daí advindo o nome por que é conhecido. O santo patrono da ordem era João Baptista. Nesta pintura, Geertgen mostra o santo numa região erma representada como uma floresta luxuriante.
O quadro, pequeno, mede aproximadamente 41 x 31 cm. É uma pintura devocional, produzida para uso privado de um devoto rico e culto de S. João, e encontra-se actualmente na galeria de pintura de Berlim. O santo, sentado em meditação, absorto, olha ao longe uma paisagem com uma suave luz estival. O meio é envolvente, de paz, nenhum dos animais é ameaçador:
há uma pega na erva; lebres em encostas cobertas de erva; sob um céu sem nuvens, numa atmosfera calma, vê-se um bando de aves; um cervo está numa clareira; garças reflectem-se na superfície da água… ao longe, há uma cidade que podemos imaginar como povoada.
É uma imagem de sossego, um idílio bucólico, ou algo que assim parece sê-lo. Esta concentração na paisagem era nova na arte do tempo e Geertgen tornou-se conhecido entre os seus contemporâneos e pintores mais jovens por isso. Diz-se que A. Duerer, p.e., o admirava pela paixão com que pintava. No entanto, a impressão pacífica da imagem é enganosa. A natureza – as plantas e os animais – é inocente apenas porque inconsciente.
João está absorto do que o rodeia, mas tem decerto consciência disso. Enquanto, fisicamente, se encontra relaxado, pode sentir a intensidade da sua concentração. Ele esfrega os pés para regressar à realidade, à tangibilidade do seu corpo. A cabeça, rodeada por uma aura suave, repousa sobre a mão direita.
Contrariamente à convenção, este Baptista traja vestes amplas, e estas não se apresentam nem sujas nem esfarrapadas. A grosseira túnica é castanho-escura. O manto, de um azul profundo, está lançado sobre os ombros de uma forma natural, ainda que artisticamente drapeado. João parece já conhecer o futuro e o horror do martírio que o espera.



