S/a Pálpebra da Página

Julho 9, 2007

Da Pintura – X (3 de 3)

Arquivado em: Arts — casoual @ 12:32 am
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Geertgen Tot Sint Jans

Na obra de Geertgen, podemos ainda ver, repousando sobre a erva, perto de João, o Cordeiro de Deus. João não o vê, mas o cordeiro observa-o. É o símbolo do sacrifício e a certeza de que os pecados podem ser perdoados; a aquilégia, símbolo da dor e sofrimento de Maria, a mãe de Cristo, e os cardos, sublinham estas referências na linguagem cifrada pictórica do simbolismo medieval.
Apesar de tudo, era também possível haver interpretações diversas da ideia expressa por Geertgen, como mostra esta obra de de Ercole de Roberti.
st_johnercole.jpg
A sua figura atemorizada, pintada cerca de 1480, e contemporânea da de Geertgen, contrasta profundamente com ela. O S. João de Ercole é pobre e andrajoso. Está de pé, abaixo de uma cidade distante, e rodeado por um deserto sem cor. A luz da tarde, com uma cor fria pouco natural, sugere o fim do próprio tempo. A paisagem, a montanha e o mar, os locais onde o ser humano se estabelece, são todos pequenos e efémeros. Por cima de tudo, pende uma ameaça de morte e condenação, uma ameaça da qual só Cristo constitui a salvação.
Ercole acentua impiedosamente a mensagem que nos transmite. Não permite que o olhar vagueie pelo quadro. Não há espaço em redor da figura dominante do Baptista. Tal como a figura de Geertgen, não olha para nós a partir do quadro, mas volta-se para contemplar a cruz, mostrando inexoravelmente onde pode encontrar-se a única esperança de salvação. A pintura de Geertgen não é tão directa nem carregada de condenação, mas seria um erro interpretá-la apenas como um idílio das belezas da natureza.
A natureza, a santidade e o cordeiro são agrupados para formar um triângulo simbólico no qual a primeira, a natureza, que no nosso tempo está ainda cheia de associações românticas, não tem valor duradouro. Mostra-nos que esta, mesmo que intocada pelo homem, no seu aspecto mais belo, só existe no tempo e não poderá ser permanente. O paraíso na terra apenas pode ser efémero.

Imagem: Ercole de Roberti, S. João Baptista

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