S/a Pálpebra da Página

Fevereiro 23, 2008

Da Pintura – XI – Picasso e a Arte Portuguesa – VII

«Rui Mário Gonçalves (RMG) fala-nos também da influência de Picasso nos artistas portugueses na primeira fase do Modernismo.

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RMG – A influência em termos globais da arte de Picasso em Portugal, ela existe sobretudo depois da guerra, da guerra de 45, com um certo entusiasmo político, com uma certa confiança na liberalização, e também porque logo a seguir o próprio mundo ocidental, a partir da Guerra Fria, em 47, começa ao nível oficial a divulgar muita arte moderna. É nessa altura que se multiplicam as bienais; basta lembrar que até à guerra de 39-45, nunca houve um artista moderno premiado na Bienal de Veneza. Depois, com o início da Guerra Fria, naturalmente o mundo ocidental começou a exagerar ao nível oficial, aquilo a que se chama liberdade de expressão, a liberdade de opinião, e então começou a multiplicar as bienais internacionais para pôr em confronto o tipo de liberdade de expressão que poderia existir no mundo ocidental com o mundo comunista – foi de facto um multiplicar de bienais que não pode deixar de se relacionar com isso – mas não pode, evidentemente, também deixar de se relacionar com a própria importância de artistas como Picasso, que já tinham mais de 60 anos e que tinham, de facto, uma reputação adquirida junto de todos os artistas.

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A influência virá de maneiras muito diversas: há uma influência que interessa marcar em especial, que é a dos artistas mais próximos da geração de Picasso, e influência sobretudo – a influência formal, pictórica, a influência do Cubismo – que existiu na primeira geração, em especial na obra de Santa-Rita e na obra de Amadeo, e um bocadinho na obra do Almada da primeira fase.

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Quer dizer que o Santa-Rita, o que se considerava futurista, era, diferentemente dos outros futuristas, e agora refiro-me aqui não só aos futuristas portugueses, porque na correspondência de Sá-Carneiro com Fernando Pessoa nota-se que os poetas, mesmo de mais avant-garde, acompanhavam com muita dificuldade as vanguardas pictóricas, mas em relação mesmo aos pintores estrangeiros: [...] fez-se já aqui um depoimento de Boccioni, em que ele fazia a crítica do Picasso.

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Ora acontece, portanto, que, ao nível internacional, o Santa-Rita, que se considerava absolutamente futurista, e até se considerava, proclamava-se encarregado pessoalmente pelo Marinetti de difundir o Futurismo em Portugal, era talvez um dos poucos futuristas que proclamava a sua franca admiração pelo Picasso, a ponto de pretender que uma das revistas que ele e os outros vanguardistas fossem fazendo em Portugal, um desses números fosse apenas ocupado com reproduções de obras suas (Santa-Rita), e de Picasso, o que mostra bem a vontade que ele tinha de aparecer na mesma auréola do admirado malaguenho.

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Essa é uma influência que nos fica das fotografias, na revista Orpheu 2, das colagens e num quadro inacabado (uma cabeça), que não deve ser posterior a 1912, mas que tem uma importância muito grande porque, por um lado revela uma compreensão do Cubismo muito raro do de Picasso, em que Picasso usa nos retratos da mulher com quem vivia, a Fernande, umas superfícies que não são planas, como são mais características do Cubismo, mas curvilíneas; mas no caso da cabeça do Santa-Rita, o pintor português vai mais longe porque, com a vontade de introduzir um certo humor, começa a mostrar como que o lado de trás dessas fitas, quer dizer, o elemento fundamental do Cubismo, que é a superfície, de preferência a superfície plana, coisifica-se, evidencia-se como objecto ele próprio, de tal maneira que pode mostrar o seu reverso, o que seria à partida uma coisa inconcebível, mas essa materialização dos elementos pictóricos é bem uma tendência geral da pintura ao longo da modernidade, de tal maneira que, em cada nova fase, a sensação que o espectador tem é a de que há uma espécie de opacidade perante o modelo em que o artista teria partido; portanto, os cubistas, pondo esses planos a servir quase que de cortina entre o observador e o modelo, coisificam-no de tal maneira que no caso do português, em 1912, já mostrava o reverso desses planos. Ora isso é uma grande novidade sob o ponto de vista estritamente cubista, porque essa coisificação do plano vai caracterizar o Cubismo sintético, e o Cubismo sintético é exactamente a partir de 1912 que se vai desenvolver com a obra de Braque e de Picasso. Parece-me, portanto, esse ser assim um caso notável. Essa pintura do Santa-Rita tinha direito a uma antologia internacional da vanguarda de 1912.»

(a seguir, Anos 20 e 30, Segunda Geração e Revolução Nacional de Salazar)

Transcrição áudio e edição: Carlos Sousa de Almeida

Imagens: Pablo Picasso, Retrato de Fernande, 1909, Almada Negreiros, N.C.5 – Invention Vert, 1918; Amadeo de Souza-Cardoso, Clown – Cavalo – Salamandra, c. 1911-12; Portugal Futurista, primeiro e único número que publicou o Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do séc. XX, 1917, de Almada Negreiros; Santa-Rita, Decomposição dynamica de uma mesa + estylo do movimento, 1912, Orpheu 2, Ática, p. 111

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