No centenário de Olivier Messiaen (III)
Quatuor pour la fin du temps *

Lá nos arranjaram instrumentos para podermos executar a obra.
Deram-me um piano, mas que piano! Era um piano vertical cujas teclas baixavam mas não levantavam. Eu fazia um trinado e as teclas ficavam presas. Tinha de pegar nelas, voltar a colocá-las e depois continuar. O violino era um pouco melhor. O violoncelo só tinha três cordas. Felizmente, tinha a corda prima e o Dó grave. Podia tocar-se, mas faltava já não sei se a segunda se a terceira corda. O músico conseguiu desenvencilhar-se maravilhosamente. O clarinete era outro desastre. Como é sabido, o clarinete tem chaves. Tinha-se introduzido um pêlo numa delas e ficara rouco. Pobre clarinetista.
Tocámos com aqueles instrumentos horríveis. Garanto que ninguém tinha vontade de rir. Vivíamos todos tão infelizes que aquilo nos parecia maravilhoso.
A assistência era enorme. Não estavam presentes todos os prisioneiros do campo, mas eram uns milhares. Havia gente de todas as classes: médicos, camponeses, barbeiros, padres, etc. Gente de todas as classes. Éramos todos uns infelizes, apesar de estarmos irmanados.
Fiz uma pequena apresentação. Tinha um programa. E tocámos. Era um silêncio religioso. Nunca mais ouvi nada assim. Teve algum sucesso, ainda que as pessoas não entendessem a música. Compreendiam, no entanto, que era algo de autêntico.
Quatuor pour la fin du temps
Violino, violoncelo, piano e clarinete
* Tradução de Carlos Sousa de Almeida
Imagem: Bacon, Three studies for a crucifixion


