S/a Pálpebra da Página

Março 29, 2008

Da Pintura – XII (1 de 2)

Arquivado em: Arts — casoual @ 1:08 am
Tags: ,

Wilhelm Maria Hubertus Leibl, Três Mulheres na Igreja, óleo s/tela, 1881

«Os camponeses», disse Leibl, «são excelentes para posar.»
Wilhelm Leibl levou quatro anos a executar esta obra, mais propriamente de 1878 a 1881. Exceptuando os dias em que estava muito frio, ou quando alguma adormecia, as mesmas três mulheres da localidade – a aldeia bávara de Berblingen -, com o mesmo vestuário, iam até à igreja da aldeia e tomavam as suas poses.
A maior parte dos dias, Leibl optava por trabalhar somente uma pequena parte do quadro, por exemplo, um rosto, o que não interferia, porém, na rotina: insistiu sempre em que as três mulheres fossem juntas. Necessitava disso para ter um sentido de unidade global, na qual se inseria cada um dos pormenores. Mas, sobretudo, tinha uma convicção quase mística de que através do contacto diário com aquelas devotas aldeãs seria capaz de captar-lhes a alma através da expressão do corpo.

Leibl conseguiu aproximar-se de uma longa tradição de imagens devotas, transmitindo-nos um sentido profundo de piedade pessoal, como em De Mãos Postas, de Albrecht Dürer, de inícios do século XVI. Sabia como as mãos podiam revelar um estado de espírito, mesmo quando uma cuidada máscara facial a ocultava.

Assim, através dos seus rostos, poses e mãos, Leibl transmitiu as diferentes idades e atitudes de três mulheres, afirmando, posteriormente, que, se pudesse, teria pintado somente as mãos das suas modelos.

Não foi fácil a Wilhelm Leibl conhecer a gente do campo. Nascido e criado em Colónia, completou os estudos em Munique. Vivia muito desiludido com a vida citadina.

Os aldeões, os seus costumes e vestuário, sempre lhe foram estranhos, mas conseguiu observá-los com a objectividade simples de alguém que está de fora. Nunca deixou de acreditar que através de um olhar demorado e suficientemente perseverante, seria capaz de uma compreensão intuitiva daquela gente. Por isso, cada pormenor, por mais mundano que parecesse, o padrão azul-axadrezado de um vestido, o traje castanho de de listras verdes, as contas de um rosário, as páginas gastas de uma velha bíblia, o brilho na madeira encerada dos bancos trabalhados da igreja, tudo isso foi merecedor da atenção do pintor e, desta forma, também da nossa.

Blog em WordPress.com.