Au bout de la nuit – III

Noite e Nevoeiro, Alain Resnais

[...] Todas as portas… Os deportados olham sem entender. Estarão livres? A vida quotidiana irá reconhecê-los?
«Não sou responsável», diz o Kapo. «Não sou responsável», diz o oficial. «Não sou responsável.» Então, quem é o responsável? No momento em que vos falo, a água fria dos pântanos volta aos ossários, uma água fria e opaca como a nossa memória.

A guerra está adormecida, com um olho sempre aberto. A erva, fiel, voltou à praça, e rodeou os blocos. Uma aldeia abandonada, ainda cheia de ameaças. O crematório está fora de uso. Os artifícios nazis estão ultrapassados: nove milhões de mortos assombram esta paisagem.

Quem de nós vigia deste estranho observatório para nos advertir da vinda de novos carrascos? Terão eles um rosto diferente do nosso? Algures, entre nós, permanecem kapos afortunados, chefes recuperados, denunciantes desconhecidos. E há todos aqueles que não acreditavam, ou acreditavam apenas de tempos a tempos, como se o velho monstro concentracionário estivesse morto sob os escombros, fingindo voltar a ganhar esperança perante a imagem que se afasta, como se estivéssemos curados da peste concentracionária, nós que fingimos acreditar que tudo pertenceu a um tempo, a um único país, não pensando em olhar à volta, não ouvimos cumprir o seu fim.

Tradução de Carlos Sousa de Almeida

Imagens: Redon, The crying spider; Eye-Balloon