Elementos para o desenvolvimento e o alargamento da cultura

«Era um desses dancings típicos, como se encontram tantos por toda a Europa, desde Berlim a Lisboa. Consequência da emigração russa, nascida com a revolução de 1917. Como característica comum e dominante, os criados aristocratas, os coros constituídos por ex-oficiais da guarda, os preços exorbitantes e o ambiente melancólico.
Tal como era de esperar, a iluminação era frouxa. Quanto aos alemães a que Manuel se referira, nada tinham de emigrantes; tinham, sim, todo o ar de espiões, elementos vários da Embaixada e empregados de firmas alemãs. [...]

Passámos a ser considerados uma praga incómoda e poucas foram as vozes que se levantaram em nosso favor. Ninguém nos dá papéis, recusam-nos licenças de trabalho… nem sequer temos licença para existir!

[...] Schwarz e eu trocámos instintivamente o olhar dos emigrantes – um leve arquear de sobrancelhas seguido por um desviar indiferente do olhar. Como se nada nos pudesse interessar menos. O olhar do emigrante é completamente diferente do olhar de um alemão sob o regime hitleriano – o cauteloso espiar para todos os lados, antes de um breve sussurro ao ouvido do interlocutor – mas ambos pertencem à cultura da nossa época, do mesmo modo que as emigrações forçadas de povos inteiros, desde os inúmeros senhores Schwarz que isoladamente percorrem a Alemanha até à deslocação de províncias inteiras, como se faz na Rússia. Daqui a cem anos, quando dos gritos de pavor não restar mais do que um pálido eco, é certo e sabido que algum historiador genial encontrará em tudo isso elementos para o desenvolvimento e alargamento da cultura.» Erich Maria Remarque, Uma Noite em Lisboa, tr. de Maria da Luz Mota Veiga, p. 27 e pp. 71-72

Imagem: Umbo (Otto Umbehr), Mysterium der Strasse