Edvard Munch, A Besta, 1901
Apesar de ter nascido em Loeiten, uma pequena cidade norueguesa, e crescido em Oslo, foi em Berlim que, em 1892, Munch se tornou conhecido de um momento para o outro: uma exposição sua com 55 quadros foi tão mal recebida que teve de ser encerrada ao fim de uma semana. Num jornal berlinense, o editor escrevia: «Entre todas aquelas loucas visões, julguei conseguir detectar alguns sentimentos subtis hipersensíveis.»
O escândalo tornou Munch no «Benjamim da vanguarda alemã», sendo convidado a fazer outras exposições em Dusseldorf e Colónia. O pintor comentou: «Nunca me diverti tanto. É inacreditável que uma coisa tão inocente como a pintura possa ter causado tamanho furor.» Estava criada a aura de Edvard Munch. Aclamado pioneiro, foi mostrado ao lado de Van Gogh em Colónia. E os artistas do grupo «Die Bruecke», como Kirchner, Schmidt-Rottluft e Heckel convidaram-no a expor com eles.
Visitando Paris, assimilando as lições do Impressionismo e as cores fortes do Fauvismo, Munch adquiriu um estilo tão directo quanto audacioso. «Como Leonardo estudava anatomia e dissecava corpos, assim eu procuro fazer o mesmo com as almas.»
À semelhança dos grandes escritores escandinavos do seu tempo – Ibsen, Strindberg -, Edvard espreitava por baixo da superfície da vida diária, sondava a escuridão, para o que terão concorrido também alguns factos biográficos como a morte prematura da mãe e da irmã mais nova, bem como o pai, médico, falecido ainda jovem.
A sua relação com o sexo feminino era ambígua: as mulheres pareciam assustá-lo e confundi-lo, característica também muito própria nos artistas de finais do séc. XIX. «A mulher é um mistério para o homem. Ela é ao mesmo tempo santa, prostituta e uma infeliz dedicada.» Mas como Ibsen, admitia: «Repetidamente senti que as mulheres se interpunham no caminho da minha arte.» Na imagética misógina do pintor, o sexo oposto torna-se vampiro, uma Salomé sedutora e assassina.
Em 1935, Edvard Munch teve o mesmo destino da maior parte dos melhores pintores modernos europeus: os seus quadros foram incluídos na exposição de Arte Degenerada, realizada em Munique no novo Palácio das Artes de Hitler. Dois anos mais tarde, 82 das suas obras foram confiscadas e vendidas ou destruídas.




