«Je ne vois pas de différence entre
une poignée de main et un poème.»
Paul Celan

Entrei, folheei e li: «Escrever com preconceitos [uma entrevista a jorge melícias].» Uma revista da Cosmorama. A número 07. Não conhecia.
Entrevista o amigo, calculo, para alguma coisa hão-de servir os amigos, valter hugo mãe (parece que é assim mesmo, segundo tenho lido, que deve escrever-se). Aquele título ficou-me. Também podia ter dito «Escrever com prejuízos». Sociologicamente, seriam equivalentes. Introdução: «Entrevistar o jorge melícias» (assim mesmo) «é, para mim, mais um passo numa conversa de tantos anos que, de modo absoluto, reitera a poesia como espaço superior de vida, um modo de ser, uma sagrada natureza.» Pestanejo. Salto umas linhas: «Distanciando-se das vozes dominantes [...] encontra na sua obstinada caminhada para um sublime aterrador o fito de uma poesia totalizadora, capaz de abarcar a filigrana mais delicada do silêncio e, talvez, tendendo corajosamente para se silenciar.» Fiquei com soluços. Nada que oito goles de água não tenham remediado. Mezinha da minha mãezinha. Mas… sempre havia mais quatro «idólatras». Insisti.
Luís Adriano Carlos titula: «O pneuma do poema ou o sopro de Vulcano»; Pedro Marqués de Armas: «El Crimen por la Imagen»; Brian Strang: «Extremity Alive: The Poetry of Jorge Melícias» (assim, sim!); e Graça Capinha: «Transbordar para Dentro: algumas notas sobre poesia de Jorge Melícias» (idem).
Quarenta e sete páginas, com uns quantos poemas inéditos que, parece, deveriam ter uma «marca profundamente benniana», um dos grandes inspiradores do artifex scriptor. Mais tarde, vão-me correndo pelo ecrã do sonho, no sentido bionniano, os elementos beta [«escorçar o horror», «salvítico», «irrompente», «pletora de beleza»...] aglutinando-se num ecrã beta [«Um pulmão sulfúrico / extraído à elisão do ar. / Ateado desde o âmnio / como uma degenerescência vital. / Os estames / disseminando-se na refracção, / reduzindo a fluidez / à consumação do atrito.»], que podiam ter levado à formação de pesadelos.
Podiam, mas havia a lei prévia herbertiana: «Este oitavo dia da criação é um espaço ilimitado de trevas onde um pássaro voraz abre as asas inesgotáveis. E então a gente sabe que a alegria e a beleza são coisas dolorosas.»
«Incómodo e difícil para muitos, a seriedade do seu trabalho é a seriedade da sua própria existência. Dessa matéria se fazem os poetas», Graça Capinha dixit. Acredito. Em [no] silêncio.
Um poeta com preconceitos. 10,80 Euros. Amen.
Idos de Junho, 2008
Nota: os sublinhados são meus.
Imagem: Joel Peter Witkin, Agonistes of the eternal wait – 1990 (Portugal-New-Mexico)

