Veronese, As Bodas de Caná
Veronese ficara conhecido ao pintar outras ceias como estas Bodas de Caná, A Ceia em Casa de Simão ou A Ceia de S. Gregório. Estas obras eram encomendadas normalmente pelas ordens religiosas para decorar os seus refeitórios. Enquanto comiam, os monges tinham diante dos seus olhos uma lembrança do sacramento da Eucaristia.
As Bodas de Caná, actualmente no museu do Louvre, foi uma obra pintada para o mosteiro beneditino de S. Giorgio Maggiore, em 1563.
A Ceia em casa de Levi foi pintada para substituir uma cena de Ticiano destruída em 1571, no incêndio do refeitório do convento dominicano de S. João e S. Paulo, em Veneza. Um monge aqui representado, Andrea de Buoni, reuniu diversas ofertas e conseguiu que o pintor aceitasse a encomenda. Até então, as Ceias obedeciam a um modelo bastante despojado e que fora codificado por Leonardo em Milão. O momento escolhido é aquele em que Cristo declara: «Um de vós há-de trair-me.» Alguns apóstolos manifestam o seu espanto e Judas tem um gesto de recuo. Veronese transforma por compleo o espaço e o espírito destas cenas, passando da tradicional dezena e meia de personagens para a meia centena: um grande banquete à veneziana, com personagens ricamente vestidas num ambiente de festa. O pintor entregou a obra ao convento em 20 de Abril de 1573. Três meses depois, foi convocado pelo Santo Ofício, de que pode ler-se aqui um relato. «[...] Ditas estas coisas, os juízes sentenciaram que o acima pronunciado teria de corrigir e emendar o seu quadro no espaço de 3 meses a contar do dia da admoestação, e isto segundo a vontade e a decisão do Santo Tribunal, e tudo a expensas do chamado Paolo.»
Veronese, no entanto, nada corrigiu. Deu-lhe um outro título, lembrando-se de um episódio menor de S. Lucas: «Levi ofereceu-Lhe em sua casa um grande banquete.» Simão passou a ser Levi e a Última Ceia A Ceia em casa de Levi. Por sorte, a Inquisição tinha pouco poder em Veneza, o processo não se tornou público e foi rapidamente esquecido. Mas é uma obra fora do comum: o pão e o vinho, símbolos da carne e do sangue de Cristo estão presentes por toda a parte. E o alabardeiro que bebe vinho na escada corresponde simetricamente ao criado que sangra do nariz à esquerda. Quem mostra o pão e o vinho é o homem que traja de verde. Os pratos por cima das cabeças fazem lembrar auréolas. E há mesmo um papagaio em vez da tradicional pomba do Espírito Santo.




