S/a Pálpebra da Página

Julho 14, 2008

O «véu» da sabedoria *

Arquivado em: Literature — casoual @ 12:56 am
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«Há muito, muito tempo, nos confins do Ocidente, vivia um jovem. Era bom, mas comportava-se também de forma muito estranha. Atormentava-se constantemente sem razão, afastava-se quando os outros jogavam e se divertiam e sonhava com coisas extraordinárias. As grutas e os bosques eram os seus locais preferidos e aí se entretinha com os animais e as aves, as árvores e os rochedos, dizendo-lhes coisas pouco sensatas, ridículas para qualquer mortal. E apesar de o esquilo e o macaco, o papagaio e o pisco se empenharem em distraí-lo e mostrar-lhe o bom caminho, ele mantinha-se melancólico e grave. O ganso contava-lhe histórias, o regato entoava baladas, uma pedra grande e pesada dava cambalhotas como uma roldana doida, a rosa colava-se-lhe às costas e entrançava-se nos seus cabelos e a hera acariciava-lhe a fronte preocupada. Ele, porém, continuava melancólico e grave. Os pais andavam inquietos, sem saber que fazer. Gozava de boa saúde e nunca o tinham magoado em nada. E no entanto, não havia muitos anos, era mais alegre e feliz que qualquer outro rapaz, o primeiro nos jogos e apreciado por todas as raparigas. Era tão belo e fresco como uma tela acabada de pintar e dançava como um anjo.

Entre as raparigas, havia uma, deliciosa e cativante. Parecia de cera. Uma bonequinha de cabelos de seda e oiro, lábios de cereja, com uns luminosos e profundos olhos negros. Fascinava quem a visse.

Nesse tempo, Botão-de-Rosa, assim se chamava a menina, amava ternamente o belo Jacinto, era esse o nome do rapaz, e este morria de amores por ela. As outras crianças não sabiam de nada.»

Excerto de Os Discípulos em Sais (Die Lehrlinge zu Sais), Novalis (Friedrich von Hardenberg, aqui em língua francesa, para quem o desejar), versão de Carlos Sousa de Almeida

* Ou retrocedendo um pouquinho nos Românticos que venho relendo.

Imagem: E. Hopper, Summer Evening

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