Tenho o pressentimento de que a vida não passa de espectáculo com que nos entretemos e distraímos há milénios.
Noutro tempo, comprazia-me em nomear e brincar com as coisas naturais, reuni-las e atribuir-lhes qualidades. As estrelas podiam, por exemplo, estar em lugar de homens. Era todo um universo ainda não soterrado pela acidental mecânica do mundo. Confiante e tranquilo, cada uma delas possuía para mim o seu lugar e eu brincava com a fantasia de as fazer brotar. Tinha os olhos cheios de um espectáculo feito de espelhos mágicos. Porque a palavra, diziam-me crentes os entendidos, era na sua essência alegria.

Até ao dia em que, qual Jasão, a terra teve de ser lavrada. E o Tosão me abriu o oiro do terror. E esse deus inacessível, primeiro motor, começou por eliminar-me a alma. E as flores deixaram de crescer na direcção do sol, perdendo o anelo de ser insectos. E o jugo, primeiro pressentido, e mais tarde compreendido, dessa lei pelo abandono da divindade, retirou-me o sonho prestidigitador de transfigurar as coisas em eternidade. Diziam-me que era arte.
Muitos dias se passaram, entretanto, e grave e austero, o tempo, ou eu nele, transforma-se em desamparo, renúncia, treva. A escrita é difícil e caprichosa, e nos dias normais penso que enlouqueci sempre mais um pouco. Há uma ininteligência que de mim se apossa e me engole a língua. Não me cabe já nos versos. E agora vou estando imóvel, e elas passam, as coisas naturais, num palco sem fundo.
Imagem: Miroir de poche en émaux peints de forme ovale… le miroir s’ouvre en deux parties laissant voir un contre émaillage rose pâle, et un miroir au mercure au verso. Atelier de Léonard Limosin, séc. XVI



