A rua do Carmo já não é o que era, mas ainda se mondam no panorama umas quantas realidades sob o manto diáfano de alguma fantasia. O O’Neill não desdenharia aquela roda sem parar, mas enfim, lá vou remoendo, enquanto vislumbro «o mais real do real». E é o bisonho e o abemolado, o pai-d’égua e a mãe-de-família, pailões e ninis, tafuis e bilros, e até um sotaina afobado nos hosanas que hão-de vir. Possui a artéria duas livrarias, às moscas, palpavelmente. Numa, tem a vitrina sua colecção velha-e-relha, mais um tira-teimas em dois vermelhuscos volumes e uns quantos cartapeles para pôr no escaparate. Noutra, são os alfarrábios modernos que revestem uma das cantoneiras, com caudalosos dizeres técnicos, e na outra, catrapiscando em redoma de palavras com marquetingue, os miguéis, as margaridas e os paixões agitados por um levem-me. E lá dentro, com que topo? Numa caixa de papelão, um dístico: «Tudo a menos de 5 euros.» Galvanizado, dou com um Miguel Real a 3, uma Armandina Maia a outros 3 e o Venâncio a 4! Apetece gritar, avisar os passeantes: «Maquinações e Bons Sentimentos», um pregão bem sonoro, mas isso… ninguém me irá dar ouvidos. Quem quererá saber das suas polémicas com o Frias Martins, o Vergílio, o Eduardo, o Guerreiro…? Daquela prosa afiada, limpa, justa, de um Como dormir com a literatura, O Congresso ou Os nomeados? É pena, que o homem tem panache. E panache a 4 € em tempos destes… O Xanax sai mais caro e o Venâncio vale bem uma caixa de Benzodiazepinas, que diabo!
Imagem: Nazif Topçuoğlu



