Da ficção e da recriação histórica, de que podem ler-se duas reflexões interessantes, The ahistoricism of medieval film, de Arthur Lindley, e Thinking about historical film-Is it worth the trouble?, de Paul Halsall, o mesmo diríamos praticamente em relação ao cinema: tratando-se, a obra, de uma elaboração consciente e com um propósito, a sua abordagem como testemunho é, no mínimo, polémica. Mesmo nos que se pretendem de reconstituição, e com o concurso de profissionais da história, interpõe-se sempre a própria contingência do material com que se labora e o ponto de vista do cineasta: a organização e a selecção das imagens funciona, mais ou menos artisticamente, em função de um argumento, geralmente romanesco, que procura a identificação com o que supostamente aconteceu, o chamado «efeito do real».
Tomemos o caso de Le Moine et la Sorcière, um drama histórico, como é classificado, de Suzanne Schiffman (1987), e cujo argumento foi escrito por uma historiadora profissional, Pamela Berger, do Boston College.
Considerado um bom material para uso em sala no estudo da cultura «popular», do papel da mulher e dos começos da Ordem Dominicana, baseia-se num texto medieval do séc. XIII do dominicano Etienne de Bourbon que investiga as superstições sobre o culto de S. Guinefort, um cão, perto de Lião, em França.
Até que ponto a fidelidade aos objectivos de quem realizou o filme, e do público a que se destina, ainda que, neste caso, com base em referências documentais e eruditas, garante a fidelidade ao passado? Aquilo que é considerado verdadeiro pelos historiadores não o é, nem pode sê-lo, pelos cineastas. A «verdade» é, no próprio universo fílmico, muito diferente da «verdade histórica».
Imagem: fotograma do filme O Monge e a Feiticeira




