É claro que o lugar da relação entre a história e a ficção não é aquele, clássico, a que estamos habituados, o da História como estudo directo de acontecimentos e pessoas, mas o das referências, muitas vezes estereotipadas, para que nos remetem, e o contrário seria disparatado. E isto porque entre esses mesmos acontecimentos e comportamentos estão vários mediadores e mediações – quer num livro quer num filme -, técnicas, culturais, ideológicas e artísticas. Não desvalorizo, evidentemente, o papel promotor da memória, mas o trabalho ficcional é sempre retrospectivo, apropriador de reminiscências, passando, em última instância, mau grado a pretensa reconstituição histórica de determinados locais e personagens, por uma linguagem, por uma construção narrativa, por um propósito, seja ele instrutivo, recreativo ou reflexivo.
E relativamente à imensa maioria do que vejo publicado como romance histórico, prefiro adormecer com Fernão Lopes no colo. No dizer de Braamcamp Freire: «Na Crónica de D. João I, mais do que em nenhuma outra, aparece em todo o seu esplendor o estilo apropriado, pitoresco, brilhante, por vezes roçando-se até com o sublime, de Fernão Lopes. A maneira como, em vários pontos da crónica são apresentados o entusiasmo, a dedicação, o arrojo do povo, da arraia miúda, na defesa da causa nacional; a narração da batalha naval no Tejo; a descrição dos padecimentos da gente de Almada antes do rendimento; o quadro das atribulações dos de Lisboa durante o assédio, e outras passagens…» in Crónica de D. João I, Fernão Lopes, VI, Livraria Civilização-Editora, Vol. I
Imagem: serigrafia de José de Guimarães, s/t,




