os pés nus de outro tempo.
porque não sabemos ou por outra
foram muitas as descidas ao
interior das casas ocupadas
o vermelho em que cantávamos
o fosso a fractura que unia.
pensávamo-nos deuses numa enorme
frieza e levávamos vestida
a morte caminhando a
medo mas bem trajados e
decididos a expor o
sonho quase virgem
numa coita de extremos.
e depois esquecíamos o mar
em volta e o agitar de braços
nos subterrâneos as plantas
dos pés a sangrar. e uma após
outra foram ficando
as narrativas. e foi então
que o leitor longamente
sussurrou uma voz até
ser outra aberta ao meio
como as águas numa alvorada
a dizer uma grande asfixia.
e sempre o mar em volta
sempre as duas metades
a gritar pela ausência
dos pés nus de outro tempo.
porque não sabemos.
Imagem: figuras Ovimbundu, autor anónimo, finais do séc. XIX





