Descida aos Infernos
Os heróis e os poetas desafiaram muitas vezes o inferno: Teseu e Perito, Hércules, Orfeu, Eneias, Dante… transpuseram em vida o Aqueronte à procura de saber misterioso ou de amor improvável.
O quadro mostra que Dalí também descobriu a passagem secreta que conduz aos Infernos; no entanto, sempre prudente, disfarçou-se de Eneias para ir acompanhado da sibila de Cumas (tal qual a representou A. del Castagno) e do seu conhecido ramo de ouro, a única maneira de poder regressar à terra dos vivos.
Ao longe, a cidade infernal de Dite não é se não o museu do Prado, no qual vivem as almas dos maiores pintores. Os demónios, que eles próprios criaram, atormentam um grupo de almas condenadas. Entre elas, reconhecem-se algumas personalidades políticas que o gosto pelo poder ou pela celebridade levaram à perdição.
À esquerda, um ser estranho com língua de camaleão tem uma atitude de súplica perante o pintor: não se trata de um demónio, mas de Picasso, encarnado conforme a aparência simbólica que lhe atribuíra o Mestre de Figueras num retrato de 1947. Picasso parece condenado a manter para sempre esta forma ridícula, castigado por ter, em vida, desfigurado muitas mulheres com o seu pincel. Dalí, porém, sem dó pelo seu rival catalão, faz-lhe sinal para que se junte à multidão de almas danadas.
Imagem: Gilles Chambon, Le rameau d’or (O ramo de ouro), óleo s/tela, 100×65 cm, G. C., 2008
Tradução de Carlos Sousa de Almeida do texto de Gilles Chambon, a qui je remercie la gentillesse.
Partindo, pois, da noção de paisagem como conceito estético – e sabemos que este caracterizou inicialmente um género específico de pintura -, ele designa, além de um modo de representação, os próprios objectos representados no quadro. A paisagem, no entanto, tal como a percebemos, não é a soma das características daquilo que tomamos como referentes, mas os significados que lhes atribuímos. Como coisa natural, como figura mítica ou reino extraordinário, ela não existe. E só se torna «paisagem» quando o olhar consegue distanciar-se e tomar parte ou ver-se reflectido nela. Por isso, como entidade autónoma, como fenómeno histórico, a paisagem apenas surgiu ao estarem reunidas as condições culturais para isso. A invenção da paisagem, ao menos na cultura ocidental, insere-se num contexto alargado de invenção da «natureza». E nela, o espaço é estruturado e modelado de acordo com as intenções de quem o cria.




