Porém nesse hortelão
há uma coisa curiosa:
quanto maior cuidado
tem de fechar as portas,
tem ele de entreabrir
vidraças para fora.
É a fim de que os legumes
de sua profunda roça
(os tomates sensíveis
as alfaces barrocas,
couves meditabundas,
sentimentais cenouras),
legumes madurados
ao sol de sua sombra,
seus íntimos legumes
possuam boa montra.
João Cabral de Melo Neto, Generaciones y Semblanzas, Serial, 1961
A premissa era a de que a paisagem não nos é dada naturalmente, mas algo que construímos num processo constante de interpretação e reavaliação.
Com o Renascimento, o tema do olhar torna-se o centro do mundo. E esse mundo, na pintura de paisagem, é disposto segundo a perspectiva central daquele que vê. Não existe uma ordem absoluta das coisas, mas há um centro das realidades vistas, o do observador. O olhar individual molda o mundo. E este reflecte-se no processo de criar e interpretar a paisagem. E é deste modo que, mais ou menos em simultâneo, surge a pintura de paisagem e o retrato moderno. A complementaridade destas duas formas de arte ilustra o papel central que o homem ocupa no mundo, estruturando-o de acordo com os princípios da perspectiva central. A inexistência de um cosmo, de uma ordem metafísica das coisas, parece ser aqui substituída pela ordem da paisagem.
E deste modo, o antigo mundo, o antigo «cosmo», perde o(s) sentido(s), transforma-se em factos, factos que são medidos e avaliados e observados através das ciências naturais, manipulados pela técnica. E essa perda – a da ordem metafísica das coisas – vem a ser compensada pela arte. Aparentemente. E de uma forma ambígua: mundos artificiais, por um lado, e «substitutos» da antiga ordem cósmica, por outro lado.
Imagem: anónimo, Ritratto di Frà Luca Pacioli (1495)




