S/a Pálpebra da Página

Outubro 9, 2008

A paisagem – IV

Arquivado em: Arts, Literature — casoual @ 6:05 am
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Outros olhares, que não o dela, haviam transformado o subúrbio. [...] Que diria então se pudesse passar, de ver os objetos, a dizê-los… Era o que ela, com paciência de muda, parecia desejar. Sua imperfeição vinha de querer dizer, sua dificuldade de ver era como a de pintar. O difícil era que a aparência era a realidade.

Clarice Lispector, A Cidade Sitiada, 1949

A questão, no entanto, não é simples, sendo a sua discussão objecto de controvérsia. Façamos o confronto: a relação entre a paisagem e o olho do observador e o conceito «modernista» de paisagem.
A paisagem «aparente» é criada por um sujeito que observa (o olho); a natureza é transformada em paisagem. E quer o sujeito que a percepciona quer a «sua» paisagem estão sempre correlacionados. A paisagem só se torna real através do olhar do observador. E como conceito ou como realidade material, ela é modelada, estruturada pelo homem. A paisagem é um espelho no qual o sujeito encontra a sua «face» reflectida.
Vejamos o conceito «modernista»: tanto os espaços urbanos como os rurais são lugares de exílio. Na arte moderna, a paisagem surge frequentemente como a epítome de um espaço estranho, como a visualização quer daquilo que é exterior ao sujeito quer do que é experienciado pelo seu olhar. Como dizia Rilke: «Quem tiver de escrever a história da paisagem, sentir-se-á impotentemente confrontado com o estranho, o desconexo, o incompreensível. Estamos habituados a lidar com formas, e a paisagem não tem forma; estamos habituados a ver uma finalidade no movimento, mas a paisagem não revela finalidade quando em movimento.»

Imagem: Georges Seurat, Britadores, 1881

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