S/a Pálpebra da Página

Outubro 15, 2008

A paisagem – VI

Arquivado em: Arts, Literature — casoual @ 6:49 am
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E sinto, se me ponho a recordar
Tanto utensílio, tantas perspectivas,
As tradições antigas, primitivas,
E a formidável alma popular!

Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde, «Nós», 1887

As imagens da natureza e da paisagem existentes têm o seu fundamento no passado. A paisagem, como hoje a vemos, nas suas múltiplas experiências estéticas é o resultado de uma história complexa e de variadas sobreposições semânticas; no entanto, não passam de variações em torno de um par conceptual que nos vem já de épocas muito recuadas: o locus amoenus e o locus horridus.

Nos tempos antigos, havia duas percepções da natureza: a da perspectiva antropocêntrica, característica dos Gregos e dos Latinos, corresponde a uma imagem organizada à volta do locus que representa a passagem entre a natureza dominada e a natureza selvagem. Horácio e Séneca, p.e., descreviam-no como um refúgio, um local de meditação no meio dos elementos naturais, estimulador da reflexão filosófica e da inspiração poética. A segunda, menos influente, pode exemplificar-se através de Lucrécio: o homem luta com os elementos, que não concorrem propriamente para o seu bem-estar, sendo antes o resultado do acaso e um desafio à sua sobrevivência. Corresponde à noção de um lugar em que os elementos tendem a arrastar o homem para a tragédia. A natureza é indomada, irracional e ameaçadora: o locus horridus.

Imagem: Cristino da Silva, Cinco Artistas em Sintra, óleo s/tela, 1855

PS – Para uma análise sucinta, mas elucidativa do quadro (e da época) de Cristino da Silva, ver aqui.

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