«Ombrosa non c’è più. Guardando il cielo sgombro mi domando se è davvero esistita. Quel frastaglio di rami e foglie, biforcazioni, lobi, spiumii, minuto e senza fine e il cielo solo a sprazzi irregolari e ritagli forse c’era solo perché ci passasse mio fratello col suo leggero passo di codibugnolo, era un ricamo fatto sul nulla che assomiglia a questo filo d’inchiostro, come l’ho lasciato correre per pagine e pagine, zeppo di cancellature, di rimandi, di sgorbi nervosi, di macchie, di lacune, che a momenti si sgrana in grossi acini chiari, a momenti si infittisce in segni minuscoli come semi puntiformi, ora si ritorce su se stesso, ora si biforca, ora collega grumi di frasi con contorni di foglie o di nuvole, e poi s’intoppa, e poi ripiglia a attorcigliarsi, e corre e corre e si sdipana e avvolge un ultimo grappolo insensato di parole idee sogni ed è finito.»
Italo Calvino, Il Barone rampante, pp. 286 e ss., edizione Garzanti, Milano, 1985 (que pode ler-se aqui integralmente em português).
Num momento em que retorna o figurativo na pintura, ou o narrativo na literatura e no cinema, a situação actual da arte, com a destruição vanguardista tornando-se numa paródia de si própria, museologizando-se, transfigurando-se na repetição, no cansaço de si mesma, o pós-moderno entrou em crise. Não dissera já Baudelaire que «la modernité, c’est le transitoire, le fugitif, le contingent, la moitié de l’art, dont l’autre moitié est l’éternel et l’imutable»? E quem melhor, nestes tempos, que Bosch ou Calvino para tentar compreender a ideia de que vivendo no limite, passar para além dele seria o fim absoluto, impensável em termos humanos?
A representação terá de ganhar novas dimensões, como demonstrou Calvino nas Cidades Invisíveis, que vão para além do mero mimetismo, num processo já não entendido como um medium, mas como uma forma de viagem pela memória cultural, através do tempo e do espaço, o que significa também uma forma de jogar com a imaginação. Uma espécie de divisão flutuante entre o real e o não-real, o dentro e o fora.
Imagem: Hieronymus Bosch, O Carro de Feno (Tríptico: o volante da direita representa uma espécie de Inferno, o volante da esquerda o Paraíso), entre 1485 e 1490




