Um blogue de Carlos Sousa de Almeida, alojado de Fevereiro de 2005 a Maio de 2007 na plataforma blogspot, no endereço apor.blogspot.com, importado, dividido e continuado depois por outras habitações: S/a Pálpebra da Página (Da escrita e das artes), Os 2 Pilares da Criação (África, tempos, espaços: continuidade, adaptações, cesuras) e Religare (Religio et caerimonia).
O autor tentará prosseguir aqui a expedição pela irrealidade dos dias, convencido de que o misticismo virtual encontra a sua solução racional na prática humana, e os blogues são apenas um meio, entre vários, de interrogar o mundo.
Bem-vindos!
«Há tantas obras que ainda não luziram.» Rigveda
Estou longe, longe, daquela pergunta da Igreja do séc. XVI: «Os índios têm alma?» Também a ideologia da «ciência» me passa cada vez mais ao lado. E tive de desaprender o Sartre de «o inferno são os outros», até porque não tenho heróis. E por isso me magoa o neocolonialismo das relações, que a tudo vê pelos olhos da «etnologia» da Bolsa, predatória, de cérebros reptilianos arcaicos, ainda que cheios de floreados. O que alguns aprendem(ram) já a mim me esqueceu há muito. E tudo o que faço, inclusive os blogues, não é para mim ornamento social. Nem relação de poder. Aliás, fujo dele como o diabo da cruz, como sói dizer-se. É que a dimensão utópica é-me prospectiva, não subjectiva, como em Fourier.
Sei que falo para poucos. Assim será sempre. E, ledores meus, não digo, nunca poderei dizer, como Descartes, que a natureza me pertence. Quando Damásio lhe descobriu (diz-se, diz ele) o erro, já tal pérola se evaporara da minha «educação sentimental». Sou preenchido por uma estranha continuidade: de um campo de iniciados à vibração de uma mão que transporto sobre o ombro. Aprendi lições que a outros passarão despercebidas, e, por exemplo, uma máscara africana esculpida é-me coisa mui diferente da obra de arte a expor em colecção berardiana. Para além da chusma e da selva totalitária, sou preenchido por um condensador de energia.
Não tenho a pretensão, longe de mim, de ser o centro do que quer que seja, a minha história, provisória, e provisórios somo-lo todos, não é senão a história dos possíveis humanos: aquela em que nos continuamos no gosto pelo sacrifício, na chamada do outro como aquele que me falta ser, pelo qual sinto com dor e surpresa a necessidade de um amor que não é o meu. A minha angústia não é aquela doença efémera e provinciana de pensar que o pensamento é meu. O mundo pensa-se a si mesmo em mim. E pensando-se(nos) se cria, o que define cada homem. Porque a criação é o único sentido interior que nos habita.
Imagem: máscara Luba, Congo (Introduction ethnologique aux arts africains)
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